Descrição de chapéu Eleições 2018

Vice, Kátia Abreu vira uma espécie de José Alencar de Ciro

Senadora abre portas no mercado, como fez empresário com Lula em 2002

Gustavo Uribe
Palmas

Com uma retórica crítica aos bancos privados, o candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes, resistia a convite para participar de sabatina promovida, no início deste mês, pelo BTG Pactual. 

Anunciada dias antes como candidata a vice, a senadora Kátia Abreu (PDT-TO) decidiu convencê-lo. Ela avaliava que era uma oportunidade para iniciar um diálogo com o setor financeiro, que demonstra resistência ao nome dele.

O apelo surtiu efeito e Ciro acabou discursando a uma plateia de empresários e investidores. Na primeira fileira, a senadora acompanhou a apresentação ao lado de André Esteves, acionista do BTG Pactual, de quem é amiga.

“[Ela] vai representar o que ela é: uma mulher de grande valor”, disse o candidato na saída do evento, quando perguntado se a senadora seria uma “vice decorativa”.

Apelidada de “José Alencar de Ciro Gomes”, Kátia foi escalada para tentar diminuir a resistência ao candidato junto a setores com os quais ele não tem afinidade, como o financeiro e o agronegócio.

Identificada ideologicamente com o centro e ex-presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), ela tem tentado costurar apoios a ele junto a empresários e pecuaristas e se esforçado para viabilizar uma agenda de reuniões com o agronegócio.

No momento, articula encontro dele com os dirigentes da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) e com representantes diplomáticos de países da Ásia e da Oceania que importam a carne brasileira, na embaixada chinesa.

Na sexta-feira (24), montou um comício no Tocantins para Ciro, no qual ele discursou a produtores rurais e empresários nortistas. 

Na noite anterior, promoveu jantar no esforço de aproximar o presidenciável de lideranças do setor e de autoridades regionais.

A comparação de Kátia com José Alencar deve-se ao papel do então dono da Coteminas nas eleições presidenciais de 2002. Como companheiro de chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, ele ajudou a diminuir o receio que havia em setores do mercado a um eventual radicalismo da candidatura petista.

A senadora não se incomoda com a referência. “Não tenho nada a reclamar sobre a comparação. Ele [Alencar] era um homem de bem, com bom caráter e com credibilidade junto à iniciativa privada”, disse à Folha.

A insegurança em relação a Lula se repete com Ciro por seu estilo verborrágico e pelas críticas que faz ao que chama de “rentismo”. Ele já afirmou que o mercado tenta “tutelar a democracia” e ataca “lucros exorbitantes” de instituições bancárias. Em 2002, disse que estava se lixando para o mercado financeiro.

A opinião de sua candidata a vice-presidente é diferente. “Sou democrata, uma pessoa de centro e acredito no mercado”, disse, no início deste mês, em entrevista à Folha. “A iniciativa privada é maravilhosa: empreender, lutar, trabalhar, gerar emprego”, acrescentou.

No esforço de amenizar as resistências a Ciro, a senadora ajudou a articular a presença dele em fórum promovido pela Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base) e em painel do grupo Mulheres do Brasil, comandado pela empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza.

O pedido para que a Kátia tente construir pontes e o aproxime de setores econômicos que não simpatizam com sua candidatura foi feito pelo presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, na primeira conversa que tiveram após ela ter sido escolhida como candidata a vice. 

“Ela exerce perfeitamente a função que um vice-presidente deve ter: capacidade de representá-lo. E entra em segmentos que o candidato não tem afinidade”, disse.

As posições da senadora consideradas conservadoras têm contribuído, segundo integrantes da campanha, a empurrar o candidato para o campo de centro, o que pode ajudá-lo a conseguir apoios, sobretudo entre eleitores indecisos.

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