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Mídia espontânea ajuda a embalar as candidaturas de Bolsonaro e Haddad

Novo Datafolha mostra reflexos em torno da nova cirurgia no capitão reformado e na oficialização do petista

Mauro Paulino e Alessandro Janoni

A pesquisa desta sexta-feira (14) do Datafolha traz não só os reflexos da oficialização da candidatura de Fernando Haddad pelo PT como também movimentos do eleitorado em função da nova intervenção cirúrgica em Jair Bolsonaro (PSL) e dos levantamentos eleitorais divulgados ao longo da semana. 

Nos últimos dias, o recuo no tom belicoso dos adversários em campanha, além da extensa cobertura jornalística tanto da substituição de Lula por Haddad quanto da intercorrência grave no quadro de saúde do candidato do PSL, direcionaram holofotes neutros aos dois nomes que agora apresentam variações positivas.

Segundo perguntas feitas pelo Datafolha aos entrevistados sobre o ataque sofrido pelo capitão reformado, quase a totalidade da população tomou conhecimento do episódio e a maioria revela algum grau de comoção com o fato, mas apenas 2% dizem ter mudado o voto em função disso.

O atentado não provocou disseminação das intenções de voto em segmentos que possuem rejeição mais forte a Bolsonaro. Entre as mulheres, por exemplo, que, proporcionalmente, se dizem tão sensibilizadas quanto os homens sobre o ocorrido, metade reprova totalmente sua candidatura.

O infortúnio de Bolsonaro, associado às estratégias de comunicação dos outros candidatos, produziu, no entanto, uma mudança de perfil na natureza de sua base eleitoral, antes marcada essencialmente pelo peso de variáveis demográficas —sexo masculino e faixa etária jovem. 

Ao se aplicar um modelo estatístico de decisão, percebe-se que, a exemplo da eleição de 2014, a clivagem econômica passa a ser determinante e substitui a idade baixa (tão relevante no início da campanha de Bolsonaro pelo acesso às redes sociais) como vetor de correlação na composição de seu apoio.

Para se ter uma ideia da força dessas variáveis, se o eleitorado brasileiro fosse composto apenas por homens com renda familiar superior a 5 salários, Bolsonaro poderia ser eleito já no primeiro turno com mais de 50% do total de votos. São as mulheres mais pobres que impedem uma melhor performance do deputado (quase 90% delas não o escolhem).

Além disso, na última semana, Bolsonaro parece ter personificado um pouco mais o sentimento antipolítico de um estrato numeroso da população —cresceu cinco pontos entre os entrevistados que se dizem apartidários (54% do eleitorado).

Se conseguir manter a tendência, o candidato do PSL tem potencial imediato de ter o apoio de um terço do eleitorado. Se desconstruído, volta, em curto espaço de tempo, ao patamar da pesquisa anterior.

Já Fernando Haddad continua a crescer em eleitorado de características lulistas —subiu sete pontos entre os moradores do Nordeste e seis tanto entre os menos escolarizados quanto entre os de menor renda familiar. Passou a ser identificado como o candidato de Lula por cerca de metade dos eleitores e deve crescer mais, já que 60% dos mais pobres ainda não o associam ao ex-presidente.

O petista tem potencial imediato para alcançar 17% nos próximos dias. Se sofrer algum revés, cai logo para o patamar próximo a 10%.

Isso só acontecerá caso algum outro candidato ocupe o imaginário da população como herdeiro do espólio de inclusão do lulismo. Marina Silva (Rede) desidratou na tarefa e Ciro Gomes (PDT), apesar de atrapalhar Haddad principalmente no Nordeste, pode afastar estratos de grande peso no eleitorado se intensificar ataque aos petistas.

O pedetista corre o risco de se prender, fora de sua região, a nichos de jovens universitários, segmento onde chega a ter 34% das intenções de votos, mas de pouca expressão quantitativa. Se conseguir associar-se ao discurso lulista, tem potencial imediato de alcançar 19%. A sobreposição de seu potencial com a intenção de voto em Haddad é alta e só se concretizará caso o petista, ao ser confrontado, fracasse na tarefa de substituir Lula.

A Geraldo Alckmin (PSDB), também estacionado, talvez não reste outra saída neste momento senão voltar a constranger Bolsonaro, mesmo com o candidato vitimizado. Seu potencial imediato é de 15%. A clivagem econômica e demográfica na composição do voto é chave importante para o desafio.

Paulino é diretor-geral do Datafolha; Janoni é diretor de pesquisas do Datafolha

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