Descrição de chapéu Eleições 2018

Bolsonaro deve acenar para Trump, mas não significa que Brasil será prioridade para EUA

O candidato do PSL é frequentemente comparado ao presidente dos EUA pela imprensa americana

Júlia Zaremba Danielle Brant
Washington e Nova York

Visões políticas semelhantes devem aproximar Jair Bolsonaro e o presidente Donald Trump, mas isso não significa que o Brasil vá galgar degraus na lista de prioridades do governo americano em caso de uma vitória do candidato do PSL sobre o petista Fernando Haddad.

A avaliação é de especialistas ouvidos pela Folha, que consideram que o slogan do republicano, América Primeiro, vai continuar norteando a política externa da administração americana.

Bolsonaro, frequentemente comparado a Trump e a outros líderes com características populistas pela imprensa americana, acena com uma aproximação com os EUA.

O discurso é semelhante em alguns pontos, como na sinalização de que organismos multilaterais, como a ONU, não seriam prioritários em seu governo. Em agosto, o presidenciável afirmou que tiraria o Brasil da organização, “uma reunião de comunistas”, mas, três dias depois, recuou.

As declarações ocorreram dois meses depois de os EUA se retirarem do Conselho de Direitos Humanos da ONU, alegando “hipocrisia”.

Bolsonaro também indicou que retiraria o Brasil do Acordo de Paris caso fosse eleito —foi um dos primeiros atos de Trump quando assumiu o mandato, em 2017. 

Para Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, consultoria de risco político, a relação entre os dois países poderia melhorar caso Bolsonaro vença. Uma guerra comercial contra o Brasil, a exemplo da que os EUA travam com a China, seria bastante improvável. 

“Mas eu não acho que os dois terão um relacionamento caloroso. Trump não é muito interessado em política externa, apenas em algumas questões que acredita que podem ser boas para a sua imagem”, diz. “A relação entre Estados Unidos e Brasil nunca foi prioridade para presidentes americanos, e certamente não será para o atual.” 

Melvyn Levitsky, ex-embaixador dos EUA no Brasil e professor de política internacional da Universidade Michigan, vê semelhanças entre o candidato do PSL e o presidente americano.

“Eu vejo Bolsonaro falando nos mesmos termos nacionalistas de Trump. A base de Bolsonaro, quem votou nele, é semelhante à base de Trump, porque parece ser focada em coisas como combate à corrupção, ao crime, tráfico de drogas”, afirma.

“Há uma desconfiança do governo, particularmente focada na questão da corrupção, e um sentimento da população de que o governo não trabalha por ela.”

Para ele, Bolsonaro deve procurar travar um relacionamento melhor com os EUA, mas o Brasil não está no topo das prioridades americanas.

“Se ele estudar como Trump opera, em termos comerciais, poderia ter alguma vantagem, receber um convite de viagem aos EUA, ou Trump poderia ir ao Brasil. Os EUA são um mercado grande para o Brasil, há razões para ambos terem bons relacionamentos”, diz Levitsky.

Apesar disso, ele também não vê essa aproximação como prioritária para Bolsonaro, caso vença as eleições. “Seu primeiro trabalho será construir um gabinete diferente do que existe agora. Ele terá que fazer acordos com partidos e com o Congresso para obter apoio. Isso vai consumir de seis meses a um ano”, avalia.

Na construção do ministério, a escolha do chanceler brasileiro será crucial para saber como será o futuro da relação bilateral, diz Riordan Roett, diretor emérito do programa de estudos latino-americanos da Universidade Johns Hopkins. “Por enquanto, ele tem focado mais na política doméstica do que na externa”, afirma. 

Para Mark Weisbrot, codiretor do Center for Economic and Policy Research, centro de estudos de política econômica em Washington, Bolsonaro é o “candidato dos sonhos” de Trump. “Estou surpreso com o fato de que, até agora, ele não declarou apoio a ele”, afirma. 

Ainda assim, diz, uma eventual eleição não traria grandes avanços no relacionamento entre as duas nações. “O presidente não presta muita atenção na América Latina, não traz resultados eleitorais para ele.” 

Com Haddad, cujo programa de política externa inclui um resgate da diplomacia do governo Lula e a ênfase em negociações multilaterais, a relação com os Estados Unidos poderia ser ainda mais fria. 

“As pessoas ao redor de Trump não sabem de nada sobre Haddad ou o PT, mas a retórica socialista e progressista não é algo que cai bem com a atual administração da Casa Branca”, afirma Roett, lembrando que o governo Dilma não manteve um bom relacionamento com Washington. 

A relação azedou após o site Wikileaks revelar, em 2013, que a NSA (agência nacional de segurança americana) espionou membros do governo da petista. Em resposta, Dilma cancelou uma viagem e exigiu explicações sobre a denúncia.

Já Weisbrot lembra que Lula e George W. Bush se entendiam bem e que essa deve ser a tendência entre um eventual governo Bolsonaro e o americano Donald Trump. “Acho que ele teria a mesma boa relação que o ex-presidente teve, sem ser subserviente”, diz.

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