Descrição de chapéu Eleições 2018

Pregando ser novato na política, Zema, candidato do Novo em MG, foi filiado ao PR por mais de 18 anos

Empresário de Araxá se desfiliou somente em abril deste ano para poder concorrer

Romeu Zema, candidato do partido Novo ao governo de Minas Gerais, já foi filiado ao PR
Romeu Zema, candidato do partido Novo ao governo de Minas Gerais, já foi filiado ao PR - Carolina Abreu - 7.out.2018/Divulgação
Carolina Linhares
Belo Horizonte

Pregando ser novato na política, Romeu Zema (Novo), empresário candidato ao governo de Minas Gerais, foi filiado ao PR (Partido da República) de 1999 até janeiro deste ano, quando entrou no Novo. A informação foi verificada em dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). 

A legislação eleitoral diz que o candidato deve se filiar ao partido pelo qual irá concorrer ao menos seis meses antes antes da eleição. Zema se filou ao Novo em 22 de janeiro de 2018, dentro do prazo legal.

Em abril deste ano, quando o sistema do ​​TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de Minas Gerais verificou as filiações de candidatos, cancelou automaticamente a sua inscrição mais antiga, no PR. No sistema, a data de cancelamento é 14 de abril de 2018.

O PR, na verdade, herdou, ao ser fundado em 2006, os filiados dos dois partidos que se uniram para criar a nova sigla naquele ano: o PL (Partido Liberal) e o Prona (Partido da Reedificação da Ordem Nacional).

O pai e o irmão de Zema, Ricardo Zema e Romero Zema, também se filiaram ao PR em 1999 e, segundo o sistema do TSE, não houve desfiliação até hoje.

Zema é empresário de Araxá (MG) e concorre a uma eleição pela primeira vez. Em seu discurso de campanha, prega ser novo na política e contrário às práticas que atribui à política tradicional, como troca de favores, negociação de cargos e corrupção. Ele disputa o segundo turno contra Antonio Anastasia (PSDB), senador e ex-governador de Minas.

Em entrevista à Folha após chegar à frente no primeiro turno, com 43% de votos, Zema disse que, até receber o convite do Novo para ser candidato, mantinha distância da política.

“Surgiu um convite que, se não tivesse surgido, eu nunca estaria aqui hoje. Na minha história na empresa, por ironia, eu sempre preguei que nós deveríamos manter total distância de política”, disse.

Zema também afirmou que hesitou aceitar ser candidato por nunca ter se envolvido com política.

“A primeira resposta minha foi não, devido ao meu histórico de nunca ter participado de uma campanha, de nunca ter me envolvido com política. Fiquei totalmente desconfortável. Vou começar uma carreira nova aos 53 anos? Não é hora. Mas depois de refletir, voltei atrás”, afirmou.

O PR é comandado por Valdemar da Costa Neto, preso no mensalão e que sequer é filiado à sigla. O partido, que também teve políticos envolvidos na Lava Jato, esteve na base dos governos do PT e também de Michel Temer (MDB) na Presidência. Faz parte do bloco de partidos chamado de “centrão”.

No primeiro turno, apoiou formalmente a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB). No segundo, liberou seus quadros, sem tomar uma posição oficial.

Em Minas, o PR faz parte da base de governo de Fernando Pimentel (PT) e integrou a coligação do petista nesta eleição, que tentou a reeleição, mas terminou em terceiro.

Em resposta à Folha, Zema afirmou que foi convidado por um amigo há cerca de 20 anos para se filiar ao PR. “Devido a sua insistência, assinei a ficha de filiação, mas nunca participei de qualquer atividade partidária nem muito menos fui candidato a nenhum cargo público”, afirmou em nota.

Questionado pessoalmente posteriormente, afirmou não se recordar de ter sido filiado, contrariando a explicação anterior.

A assessoria de imprensa de Zema não respondeu sobre a filiação de seu pai e seu irmão.

Segundo pesquisa Datafolha, registrada no TSE com número 07552/2018, Zema aparece com 71% dos votos válidos contra 29% de Anastasia.

Zema é um dos donos do Grupo Zema, fundado em 1923 e que fatura R$ 4,4 bilhões ao ano. O grupo tem mais de 800 pontos de venda em dez estados, atuando no varejo de móveis, eletrodomésticos e vestuário, serviços financeiros, concessionárias de veículos e distribuição de combustível. O empresário se afastou do Conselho de Administração neste ano para se dedicar à campanha.

Banheiro

Ao participar nesta terça (23) de reunião no TRE, Zema foi questionado sobre a filiação por jornalistas, mas dizendo que ia ao banheiro, foi levado por assessores até a saída. Os assessores afirmaram que Zema não trataria do assunto e o orientaram a não dar declarações.

Ainda assim, ele falou: “Estamos falando de fatos de 20 anos atrás, que infelizmente eu não me recordo”. Questionado sobre ter sido filiado, disse: “que eu me recordo não”.

“Já pedi uma verificação, eu assino mil papeis por dia”, completou. Em nota enviada à Folha mais cedo, porém, Zema admitiu que assinou a ficha de filiação. Segundo sua assessoria, o que ele não se lembrava era se de fato a filiação tinha sido efetivada.

Momentos depois, a assessoria de Zema comunicou que o candidato não iria participar do debate promovido pelo SBT na noite desta terça.

Anastasia lamentou a ausência de Zema no debate e o criticou por ter omitido a filiação ao PR. “Acho estranho porque toda a informação que tinha era que ele era, como ele próprio se intitula, o novo na política, sem nenhuma vinculação com os outros partidos. E vinculado ao PR, um partido que tem suas dificuldades.”

Doação

O segundo maior doador da campanha de Zema, sem contar os repasses do próprio Partido Novo, é o empresário Ricardo Antônio Vicintin, que colaborou com R$ 300 mil no segundo turno —10,5% do total arrecadado. Ele não doou a nenhum outro candidato até agora, segundo o TSE.

O empresário e engenheiro é presidente da Rima Industrial S/A, que produz ligas à base de silício e desenvolve outras atividades ligadas ao setor, como engenharia e mineração. Vicintin é sogro do ex-deputado federal Bernardo Santana (PR), que integra família tradicional da política mineira.

O pai de Bernardo, José Santana (PR), foi deputado estadual em Minas de 1975 a 1987, quando passou a ocupar o cargo de deputado federal, até 2011. Irmão de Bernardo, Gustavo Santana também foi deputado estadual pelo PR.

Bernardo, por sua vez, chegou a exercer por um ano e três meses, no governo Pimentel, o cargo de secretário de Estado de Defesa Social. Também já foi diretor no grupo empresarial do sogro e aparece na lista da Odebrecht como destinatário de contribuições ilegais.

Procurados pela reportagem, Vicintin e Bernardo não responderam aos contatos.

A campanha de Zema respondeu em nora que as doações de apoiadores do Novo estão em total conformidade com as regras da Justiça Eleitoral. “O Novo é o único partido que não utiliza o fundo partidário, que é proveniente de impostos pagos por todos cidadãos brasileiros”, conclui.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do publicado em versão anterior deste texto, Romeu Zema se filiou ao Novo em 22 de janeiro de 2018, portanto cumpriu o prazo legal. Em abril, quando o sistema do TRE verificou as filiações de candidatos, cancelou automaticamente a sua inscrição mais antiga, no PR. No sistema, a data de cancelamento é 14 de abril de 2018.

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