Voto antipetista e por mudança pauta cidade mais bolsonarista, no RS

Em Nova Pádua, capitão reformado obteve 93% dos votos válidos

Centro de Nova Pádua
Centro de Nova Pádua, cidade onde Bolsonaro fez 93% dos votos válidos - Felipe Bächtold / Folhapress
Felipe Bächtold
Nova Pádua (RS)

O prefeito de Nova Pádua (RS) até tentou no primeiro turno convencer os eleitores da cidade a votar no candidato de seu partido à Presidência, Geraldo Alckmin

Fazia campanha como costuma ser em um pequeno município: boca a boca, de modo discreto, sem a pirotecnia de eventos eleitorais.

Diante de tantas reações negativas, desistiu. Todos só falavam em Jair Bolsonaro (PSL).

Cercada por vinícolas e parreirais na serra gaúcha, o município de 2.548 habitantes, a maioria descendentes de italianos, tenta se projetar como destino turístico. Mas, nas últimas duas eleições para presidente, se tornou conhecido nacionalmente por outro motivo: os recordes de votação contra o PT.

No segundo turno de 2014, Aécio Neves (PSDB) venceu no município com 88,1% dos votos válidos. No primeiro turno deste ano, Bolsonaro fez 82,7%. No último domingo (28), o capitão reformado se aproximou da unanimidade na cidade gaúcha: ampliou a votação para 93%.

Foram 1.770 votos para o candidato do PSL e apenas 134 para o petista Fernando Haddad. O PT, aliás, nem sequer possui representação no município. 

Os poucos partidos estabelecidos em Nova Pádua formam uma coalizão na prefeitura que foi eleita literalmente sem concorrência em 2016. Apenas um candidato, o atual prefeito Ronaldo Boniatti, 37, foi lançado. Não há vereadores de oposição na Câmara.

Prefeito de Nova Pádua, Ronaldo Boniatti (PSDB)
Prefeito de Nova Pádua, Ronaldo Boniatti (PSDB) - Felipe Bächtold / Folhapress

Boniatti, que é professor de educação física, cita como um dos motivos para o índice de 93% um "repúdio à política assistencialista do PT, que não combina muito com a ideologia daqui". 

Ele tenta explicar a circunstância: "É uma questão cultural, de trabalho. São pessoas que trabalharam muito para conquistar o sucesso financeiro. Desde a colonização até hoje, é a herança cultural."

Também eleitor de Bolsonaro no segundo turno, o tucano diz que quem votou em Haddad geralmente é de fora da cidade.

O padre Mário Pasqual, da paróquia local, menciona outro argumento para o sucesso bolsonarista: a população formada por pequenos proprietários rurais tem um perfil parecido com o de empresários, mais inclinados a se identificar com partidos de direita. "Eles querem alguém [na Presidência] que valorize a produção agrícola", diz ele.

Bolsonaro ao longo da campanha acenou ao agronegócio e se tornou o presidenciável preferido do setor.

A bandeira da segurança, um dos trunfos do eleito, não tem muito propósito na pacata localidade gaúcha, apelidada pelos locais de "pequeno paraíso italiano". Não houve homicídios nos últimos anos, e as ocorrências mais graves foram tentativas de explosão de caixas eletrônicos feitas por grupos de fora da cidade.

A longa crise econômica nacional também não parece ser um tema de apelo entre os eleitores da localidade. Os relatos são até de falta de mão de obra para o trabalho no campo. 

O motivo principal para o voto no candidato do PSL, segundo moradores ouvidos pela reportagem, é seu perfil de "mudança". "Foram anos de PT, PT e PT. Que agora pelo menos comece a melhorar", diz o comerciante Volmar Vezzaro, 65.

A forte rejeição ao PT é recorrente nas conversas e está nas listas de argumentos para o voto no militar reformado. Escolher Haddad, dizem, seria permitir a volta do grupo responsável por escândalos políticos em série.

Nesta segunda (29), quase não havia resquícios de material de campanha nas ruas e nos carros do município. Com escassa divergência, o clima na cidade durante a eleição em nada lembrava o da acirrada polarização pelo país, que incluiu casos de violência. 

A tendência pró-Bolsonaro foi se consolidando como uma onda local. "Aqui todo mundo se conhece. Vai virando uma bola de neve. A votação fala por si", diz Éder Salvador, 40. No Rio Grande do Sul, o novo presidente venceu nos dois turnos e obteve 63,2% dos votos no domingo.

O apoio em massa em Nova Pádua não significa, porém, uma sintonia completa com as ideias do militar reformado. Moradores fazem como ressalva a incerteza sobre pontos pouco detalhados da campanha dele, como a agenda econômica. 

Eleitor de João Amoêdo (Novo) no primeiro turno, Cristian Menegat, 30, considera o candidato vitorioso muito "extremista". "Com ele é tudo 80 ou 8. Esse é o meu maior medo, como ele vai administrar", diz.

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