Deputados e secretário receberam agentes da PF com computadores vazios e diploma à mão

Suspeita de 'vazamento' de operação Furna da Onça levou à conversão das prisões temporárias em preventiva

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Casas sem computadores. WhatsApp sem conversas. Um investigado vestindo roupa social às 6h com um diploma devidamente separado.

Foram indícios como esses que levaram o juiz federal Abel Gomes, relator da Operação Furna da Onça no TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região), a converter a prisão temporária em preventiva de 10 investigados, entre eles 6 deputados. O magistrado também manteve outros três parlamentares, presos desde o ano passado, na cadeia.

Gomes concordou com a análise da Polícia Federal e da Procuradoria Regional da República de que o cenário encontrado por agentes no momentos da prisão dos investigados indica um vazamento da operação.

O deputado Coronel Jairo (SD), por exemplo, tinha um computador em casa com todos os arquivos e histórico de navegação apagados, segundo a PF. Ele a filha do parlamentar também saíram de todos os grupos do WhatsApp de que faziam parte.

Na residência de Marcus Vinicius 'Neskau' (PTB) não foi encontrado nenhum computador. O mesmo ocorreu em seu gabinete na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) e em sua casa em Petrópolis.

"Não é crível, na realidade de hoje, que em nenhum desses endereços tenha sido possível encontrar qualquer espécie de referência documental em aparelhos de informática de alguém que trabalha como deputado estadual", escreveu Gomes.

O ex-secretário de Governo Affonso Monnerat, exonerado da gestão Luiz Fernando Pezão (MDB) após sua prisão, recebeu a equipe de agentes da PF "vestido socialmente e com seu diploma de formação acadêmica em envelope devidamente separado", descreveu o magistrado.

Secretário de governo do Rio, Affonso Monnerat, chega a sede da PF

"Em sua residência não foram localizados computadores ou documentos, sendo também constatado a partir de acesso ao seu aparelho celular que conversas de aplicativo (WhatsApp) teriam sido apagadas, restando pouquíssimos diálogos", afirma o juiz do TRF-2.

Outros investigados tiveram a prisão preventiva decretada em razão da alta quantia de dinheiro vivo encontrado em suas residências. Também foi considerada prova para a medida relatório da Receita Federal que apontou recente movimentação de recursos sem comprovação de origem.

Gomes também determinou a prisão preventiva de dois assessores de Paulo Melo (MDB), preso há um ano em razão da Operação Cadeia Velha, em razão de documentos apreendidos na residências deles. São manuscritos com a grafia de Fábio Nascimento encontrados com a irmã Andreia Nascimento, ambos funcionários do gabinete do parlamentar.

Um deles diz: "Digitar esse papel, não circular com isso com minha letra não, por favor". Segundo a decisão de Gomes, os escritos orientam para a destruição de registros de conversas, emails, fotos em redes sociais, entre outras potenciais provas.

Gomes tomou a decisão de converter as prisões temporárias em preventivas monocraticamente. Ele vai submeter seu voto à 1ª Seção Especializada do TRF-2 até esta quarta-feira (14).

A Alerj foi comunicada sobre a decisão. Mas foi mantido o entendimento de que a Assembleia não tem poder para se pronunciar sobre as prisões dos deputados, como manda a Constituição estadual.

A decisão foi tomada em razão dos desdobramentos da Operação Cadeia Velha, deflagrada há um ano. Na ocasião, a Alerj aprovou resolução para libertar os três deputados da cúpula do MDB e enviou um alvará de soltura direto para a Secretaria de Administração Penitenciária, sem informar o TRF-2, que havia determinado as prisões.

A Corte, em seguida, exigiu nova prisão e não consultou mais a Assembleia. Os deputados Jorge Picciani, Paulo Mello e Edson Albertassi, todos do MDB, seguem presos em razão da Cadeia Velha, e tiveram novo mandado expedido na operação Furna da Onça, desta quinta.

A nova investigação sobre a Alerj tem como base a delação premiada do economista Carlos Miranda, espécie de gerente da propina arrecadada por Cabral. Ele era o responsável por administrar todos os recursos ilegais obtidos pelo emedebista.

O colaborador do Ministério Público Federal afirmou que um grupo de políticos recebia dinheiro de Cabral, em seu segundo mandato (2011-2014) , em troca de apoio parlamentar —chamado de mensalinho pelo Ministério Público Federal. Os valores pagos mensalmente variavam de R$ 20 mil a R$ 100 mil, dependendo da posição ocupada pelo deputado.

Arquivos de um sistema de contabilidade entregues pelos doleiros delatores Vinicius Claret e Cláudio Barboza, que operacionalizavam parte da propina de Cabral, corroboraram as informações do economista. Cruzamento de ligações telefônicas também confirmaram o contato entre portadores do dinheiro em espécie com assessores dos deputados suspeitos.

O superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi, afirmou que os deputados movimentaram cerca de R$ 54 milhões em propina.

“A Alerj se transformou numa verdadeira propinolândia”, disse o procurador regional da República Carlos Aguiar.

Há a suspeita de que outros deputados tenham recebido os pagamentos, já que o presidente da Assembleia —posto ocupado tanto por Picciani como por Paulo Mello— recebia valores maiores a serem distribuídos com outros colegas, segundo as investigações.

Um dos responsáveis por entregar e receber propinas de Cabral, Sérgio de Castro Oliveira, afirma que o número de envolvidos no esquema da Alerj pode chegar a 60 deputados —a Casa tem 70 membros. Funcionário da família desde a década de 1980, ele afirma que o dinheiro da “caixinha” das empresas de ônibus do estado era entregue diretamente aos deputados ou ao presidente da Casa para redistribuição.

“Quando Cabral virou governador havia uma lista do presidente da Casa, que continha esse número de mais de 40 parlamentares; que a segunda lista era de pessoas que não se sentiam à vontade de ficar sob o comando do presidente e era uma lista composta por, mais ou menos, 20 nomes como, por exemplo, Chiquinho da Mangueira”, afirma a transcrição do depoimento de Serjão, como ele é chamado.

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