Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Chegada de Bolsonaro à Presidência muda mapa do poder de Brasília

Equipe de presidente eleito tem hábitos simples se comparados aos do entorno de Temer

Bolsonaro com Alexandre Frota durante protesto em Brasília, em abril
Bolsonaro com Alexandre Frota durante protesto em Brasília, em abril - Gustavo Uribe - 4.abr.18/Folhapress
Thais Bilenky Marina Dias
Brasília

A chegada de Jair Bolsonaro ao governo muda o mapa do poder de Brasília. 

Saem restaurantes sofisticados, charutos importados e academia à beira do Lago Paranoá frequentados pelo alto escalão do governo Michel Temer. Entram locais de comida nordestina a quilo, self-services em bairro de classe média e espaço fitness de baixo custo, ambientes preferidos pelo entorno do presidente eleito.

Nos últimos dois anos e meio, para encontrar deputados, senadores e ministros influentes, bastava ir a restaurantes de alto padrão tradicionais da capital federal, como Lakes ou Piantella. 

Uma mesa na varanda do refinado Tejo, de cozinha portuguesa, é diariamente reservada ao ministro Moreira Franco (Minas e Energia).

De propriedade de um amigo de longa data de Moreira, o restaurante foi escolhido, por exemplo, para celebrar o primeiro ano do governo Michel Temer. Em maio do ano passado, o ministro e equipe ocuparam uma sala reservada no segundo andar. 

Foram servidos petiscos de frutos do mar e pratos individuais que custam em torno de R$ 100, garrafas de vinho e charutos cubanos que são fumados na área externa do ambiente (a R$ 75 cada).

A partir do dia 1º, a vida civil dos políticos terá outros ares. 

Nas últimas semanas, os filhos de Bolsonaro estiveram em restaurantes como o Mangai, uma rede de culinária nordestina a quilo. 

Garçons viram os filhos do eleito e notaram o frisson de alguns clientes pedindo permissão para selfies. Mesmo com a notoriedade, a casa não chegou a oferecer aos clientes ilustres tratamento VIP, mantendo-os misturados aos demais no salão com capacidade para 1.100 pessoas. 

No Mangai, o buffet com comidas típicas do Nordeste sai por R$ 73,90 o quilo durante a semana. Há um cardápio à la carte, cujo prato mais caro é uma moqueca de camarão e peixe, a R$ 156, que serve até três pessoas. 

Na última quinta-feira (27), quem esteve no restaurante foi o vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão. O funcionário que o recepcionou tampouco ofereceu regalias pelo cargo que passará a ocupar a partir do dia 1º. O vice eleito gosta de consumir bebida alcoólica na hora do almoço, de preferência uísque. 

No argentino Toro, onde esteve duas vezes nas últimas semanas, Mourão preferiu caipirinha (R$ 14 a R$ 22 a depender da bebida escolhida) para acompanhar um bife de vacio (R$ 76 o corte de 300 gramas e R$ 118 o de 600 gramas). O ambiente do Toro é discreto, mas não requintado. Uniformizados, os funcionários vestem polo preta com o patrocínio do café que é servido nas mesas. As geladeiras no bar estampam marcas de refrigerante.

Prédio de Brasília em que Jair Bolsonaro tem um apartamento
Prédio de Brasília em que Jair Bolsonaro tem um apartamento - Ranier Bragon - 5.jan.18/Folhapress

Dois conselheiros importantes de Bolsonaro, os irmão Artur e Abraham Weintraub, gostam de ir ao Tchê Garoto, um all-you-can-eat de salada, arroz, feijão e grelhados a R$ 20, na Vila Planalto, bairro de classe média de Brasília.

O futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, escolheu, nas poucas ocasiões em que foi a lugares públicos desde a eleição, o Coco Bambu do Lago Sul, parte da rede de restaurantes de frutos do mar com salões enormes e atendimento expresso.

No andar de baixo do Coco Bambu fica a BodyTech, academia cuja mensalidade sai por até R$ 800. É esta a preferida por ministros de Temer.

Já o deputado federal reeleito Eduardo Bolsonaro, 34, surfista nas horas vagas, frequentou, de junho a agosto, uma academia de baixo custo. Em uma unidade mais antiga da Smart Fit na Asa Norte, o filho do presidente eleito treinou dez vezes, a última delas em 7 de agosto, embora o plano fosse válido até setembro.

O pacote de R$ 89 por mês deu-lhe acesso a equipamentos de musculação e aeróbico e treinos de ginástica funcional (cross fit).

Em todas as ocasiões, Eduardo chegou pouco depois das 8h, fim do pico matinal, e quase passou despercebido.

Recepcionistas o notaram uma vez. Um instrutor disse que o seu perfil, malhado, de cabeça raspada, é o que mais tem. Ficou difícil reconhecer o filho de Bolsonaro entre os quase 8.000 alunos da unidade.

O perfil mais simples também se aplica à moradia. Até mudar-se para a Granja do Torto, o presidente eleito residia e um dos apartamentos que tem na capital federal —um funcional na Asa Norte e outro, propriedade sua, no Sudoeste. O bairro fica fora do plano piloto, a 15 minutos da Praça dos Três Poderes. O tipo escolhido foi o menor, de dois ou três quartos. No mesmo prédio, havia opções de três e quatro dormitórios.

O edifício fica em uma quadra padrão, com espaço esportivo, parque infantil e bancos públicos na área comum. 

O presidente, parlamentar por 27 anos, porém, não costumava usufruir das comodidades. Até a campanha eleitoral, Bolsonaro em geral saía de carro de manhã e voltava à noite. 

Mesmo que brevemente, não deixava de cumprimentar os funcionários e puxar papo, contou um porteiro que não quis se identificar.

Sua mulher, Michelle, e a filha caçula, Laura, 8, não eram vistas por lá, apenas os filhos políticos, Carlos, Flávio e Eduardo. Mas a família de outro presidenciável, sim. João Goulart Filho (PPL) mora lá. Outro morador do bairro é o ex-ministro petista José Dirceu.

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