Jean Wyllys sai como herói, passando o bastão para mim, afirma David Miranda

Político do PSOL diz que assume vaga na Câmara com medo, mas acostumado a enfrentamentos

Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

"A primeira vez que eu vi um corpo no chão eu tinha oito anos", diz o vereador David Miranda (PSOL). É assim que o suplente de Jean Wyllys na Câmara dos Deputados explica que está preparado para substituí-lo. Jean anunciou na quinta (24) que não assumirá o mandato e que deixará o Brasil após diversas ameaças.

O deputado David Miranda (PSOL-RJ), que vai assumir a vaga deixada pelo correligionário Jean Wyllys na Câmara
O deputado David Miranda (PSOL-RJ), que vai assumir a vaga deixada pelo correligionário Jean Wyllys na Câmara - Ricardo Borges/Folhapress

Criado no Jacarezinho, favela da zona norte do Rio, Miranda, 33, promete uma política de enfrentamento, pautada na defesa dos direitos humanos, e afirma que está pronto para incendiar Brasília para garantir a democracia.

O vereador é casado há 14 anos com o jornalista Glenn Greenwald, que revelou o esquema de espionagem norte-americano denunciado por Edward Snowden.

 

O deputado Jean Wyllys já havia contado ao sr. as ameaças que vinha recebendo? A gente sempre soube dentro do partido. Eu já recebi ameaça na rua. Nós somos o país que mais mata defensores dos direitos humanos. O que agrava mais a nossa situação é que temos um presidente eleito, que não me representa, que está sempre falando que defensor de direitos humanos é defensor de bandido.

O sr. tem medo de se tornar alvo? Sinto medo, mas sou um cara do Jacarezinho [favela na zona norte do Rio]. A primeira vez que eu vi um corpo no chão eu tinha oito anos. Com 12 anos, tomei tapa na cara de policial quando estava voltando do trabalho. Sofri várias violências policiais.

Em 2013, fui numa luta muito grande contra os Estados Unidos e seus aliados, fui torturado pelo governo da Inglaterra durante nove horas. Medo eu tenho, mas tenho bastante coragem e resiliência.

E tenho uma responsabilidade enorme porque minha companheira foi assassinada. Até encontrar a resposta sobre o assassinato [de Marielle Franco], eu não vou descansar. Não se engane que o Jean está saindo acovardado. O Jean sai como um herói, passando o bastão para mim.

Como foi exatamente esse episódio no aeroporto de Londres em 2013? Estava trabalhando nas publicações [do caso Snowden], fui para a Alemanha pegar um arquivo. Na volta, fui detido no aeroporto de Heathrow [Londres]. Em 2012, eu estava fazendo um trabalho sobre pessoas presas e levadas para Guantánamo, então eu já sabia exatamente onde iria parar. Sete agentes diferentes me interrogaram durante oito horas e 15 minutos. Não bebi água, não comi, não fui ao banheiro.

Mandei ligar pro [jornal] The Guardian para enviar um advogado para mim. Quando finalmente me deram acesso, conversei com ele e me levaram pro saguão principal de Heathrow. Lá comecei a fazer um escândalo, o favelado que eu sou, minha filha... Estava todo mundo ali, [gritei] "Eles estão me prendendo, eles estão me deixando aqui!".

Aí o líder deles veio e mandou eu ficar quieto, dizendo que eu só iria poder voltar [para o Brasil] no dia seguinte e que iriam me botar num hotel dentro do país. Eu virei e falei: "Se você me colocar no seu país eu vou em todas as emissoras de televisão e vou falar tudo o que vocês fizeram comigo". Mais três horas, conseguiram um avião da TAM. Eu falei: "Eu não vou voltar de econômica, pode me colocar em 'business' [classe executiva]". E a rainha pagou a 'business' para eu poder voltar.

Sobre o mandato, quais serão os temas prioritários? A classe trabalhadora, que tem sido massacrada com as reformas que querem passar. Com certeza a pauta LGBT, o genocídio da juventude negra, o aprisionamento, a política de descriminalização das drogas. Toda questão que envolva direitos humanos.
Tem uma população enorme que precisa de representantes que vão estar lutando por políticas públicas reais. A galera que está chegando lá pelo PSL não entende de política. Não sabe fazer uma CPI, não sabe utilizar uma comissão, os órgãos internacionais. Eles vão querer bater boca, fazer esse discurso, mas vão estar muito debilitados.

O Jean brigou diversas vezes com deputados conservadores, inclusive cuspiu no atual presidente Jair Bolsonaro. Podemos esperar o mesmo enfrentamento do sr.? Eu vou enfrentar, ser propositivo e ter diálogo com qualquer instância quando for necessário. Sou um dos parlamentares que mais passou projeto nesses últimos dois anos na Câmara do Rio. Um dos projetos coloca o aposentado como prioridade máxima na folha de pagamento dos servidores do município. É um projeto que tem um viés completamente econômico, que tive diálogo com a casa inteira e inclusive dei coautoria para o Carlos Bolsonaro (PSC).

Então é possível estabelecer diálogo com o conservadorismo? É possível em determinado momento. Passei um projeto de nome social para travestis e transgêneros. Consegui convencer o prefeito e vereadores o que significava a dignidade para essas pessoas. Tem figuras que você não consegue manter um diálogo porque são personagens. Nos corredores te tratam de uma forma, mas no plenário querem viver uma vida de vídeo para a internet.

Quem são essas figuras em Brasília? O Otoni de Paula [PSC], vereador daqui que está indo para lá. Temos Alexandre Frota [PSL], temos Kim [DEM]... Como é o sobrenome dele? Kataguri.

Kataguiri. Isso aí. E essa galera eleita dentro do surfe do WhatsApp do Bolsonaro. Estou sempre disposto ao diálogo. Eu vou ter essa paciência, mas vão ter momentos que vou mandar tomar no cu. Venho do Jacarezinho mesmo, e se esses caras quiserem enfrentamento vão saber que vou estar levando a favela.

Como era a relação com o Carlos Bolsonaro na Câmara dos Vereadores? O Carlos só sabe falar nas redes sociais. Quando o pai dele fez uma apologia à tortura fiz os trâmites aqui na casa para botá-lo no Conselho de Ética e tirá-lo da Comissão de Direitos Humanos [bate na mesa]. Uma das situações mais bizarras que existem. Não tivemos muitos embates porque ele ficava mais quieto na dele, mas se me chamasse para briga eu estava ali disposto.

Agora na Câmara o senhor vai encontrar o irmão dele, o Eduardo. É, o outro filhote. Eles procriam, né?

Se pudesse mandar um recado para ele, o que diria? O mesmo que falei para o pai dele ontem. Estou chegando em Brasília, se vocês acham que vão continuar utilizando kit gay, falando que a população LGBT é pedófila, vocês estão muito errados. Pode deixar, Eduardo, que eu estou chegando aí em Brasília.

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