Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Símbolo de superação, Villas Bôas traz voz moderada ao novo Planalto

Acometido de degeneração muscular grave, ex-chefe do Exército vai assessorar Heleno no GSI

Igor Gielow
São Paulo

Eduardo Villas Bôas deve desembarcar no Palácio do Planalto com o paradoxal objetivo de, sendo um general, ajudar a limitar o eventual apetite que as Forças Armadas possam ter pelo protagonismo que receberam no governo do capitão reformado Jair Bolsonaro (PSL).

Se a decisão de Villas Bôas de aceitar assessorar o também general da reserva Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) pegou de surpresa alguns em Brasília, para o círculo próximo do homem que comandou o Exército até a semana passada ela não constituiu novidade.

O general Eduardo Villas Bôas durante a cerimônia em que deixou o comando do Exército
O general Eduardo Villas Bôas durante a cerimônia em que deixou o comando do Exército - Marcos Corrêa - 11.jan.2019/PR

O militar de 67 anos está sempre fazendo planos, dizem esses amigos, que creditam a isso o fato de ele ter completado seu período à frente da Força na inusual condição de paciente de doença degenerativa do neurônio motor.

A visão pública de um comandante em cadeira de rodas, sem movimentos nos membros e usando um respirador, não é algo comum em exércitos mundo afora.

VB, como é conhecido, rejeita dramatizar sua doença, diagnosticada sem total precisão pelos sintomas comuns a outras enfermidades, a partir do surgimento de tremores na mão esquerda em 2016.

Concedeu entrevistas sobre o tema sempre repetindo o que o presidente Michel Temer (MDB) lhe disse quando colocou o cargo à disposição, no começo de 2017: se a cabeça estava em ordem para fazer o trabalho, seria o suficiente.

E estava, pois o cérebro não é afetado enquanto os músculos param de funcionar.

Adotou um tom mais emotivo no seu discurso de despedida, lido por um mestre de cerimônia após breve introdução do general, em que falou de seus médicos, além de creditar à mulher, Cida, a vontade de seguir em frente.

Homenageou aqueles que o ajudaram a "mitigar as limitações pessoais". Um auxiliar conta como não conseguia demover o general de ir a eventos públicos, ainda que sua agenda tenha sido reduzida.

Ao longo de 2017, ele perdeu progressivamente a capacidade de andar. Ao fim do ano, usava eventualmente o respirador.

Naquele período, já atribulado na esteira do impeachment de Dilma Rousseff (PT) no ano anterior e com denúncias de corrupção tornando Temer um espectro no Planalto, Villas Bôas enfrentou uma de suas grandes crises.

O estopim foi um general de quatro estrelas que, dois anos antes, já havia sido punido por VB —perdera o prestigioso Comando Militar do Sul após criticar o governo Dilma.

Em setembro de 2017, ele sugeriu uma intervenção militar e, em novembro, desancou Temer numa palestra.

Era Hamilton Mourão, hoje o vice-presidente. Influente no meio militar, ele ganhava páginas na internet defendendo que emulasse outro general Mourão famoso, o de 1964, e liderasse um golpe.

Tendo sido acusado de amaciar para o amigo no episódio de setembro, VB discretamente o dispensou da geladeira em que se encontrava, a Secretaria de Economia e Finanças do Exército. O comandante viu o colega ir à reserva no começo de 2018.

No Planalto, segundo um ex-ministro de Temer, havia o temor de que um chefe militar incapacitado poderia inspirar mais ebulições do gênero na elite da tropa.

Pior: ao dizer que ele só sairia se quisesse, o presidente tornara VB indemissível, o que gerou insatisfação nos generais mais velhos que chegavam ao limite da reserva sem oportunidade de assumir o comando. Como Mourão.

Villas Bôas passou a externar mais emoções. Chorou em alguns episódios, como na solenidade em que o hoje vice foi para a reserva. Para um ex-ministro dos anos do PT no poder, essa humanização não foi bem absorvida pelo Alto Comando, colegiado de 17 generais, mas a resistência de VB à severidade da doença falava mais alto.

Seu braço esquerdo perdeu movimento naquele ano. Em 2018, foi a vez do braço direito e, ao fim, da mão direita.

A partir de meados do ano, o respirador não era mais desligado e ele passou a fazer sessões de fisioterapia respiratória ao longo do dia —dois auxiliares estavam com ele o tempo todo, auxiliando com alimentação e medicação.

Enquanto isso, o Exército foi chamado para comandar a intervenção federal na segurança do Rio e um capitão reformado da Força virou favorito para ocupar a Presidência.

Bolsonaro nunca foi bem visto na cúpula militar, mas o fato de ter se cercado de generais como Heleno facilitou a aproximação.

VB foi externando sua preocupação com a identificação inevitável entre um governo Bolsonaro e os militares.

Em novembro, em entrevista à Folha, ele enfim disse isso com todas as letras e ainda definiu Bolsonaro como um político. Dois dias antes da conversa, ele havia se encontrado com o então presidente eleito —acompanhado, entre outros, de Mourão.

Outro ministro de Temer vê ali o estabelecimento de uma tutela tácita do novo governo pelo poder militar. O fato de Bolsonaro ter agradecido VB em discurso este ano e dizer que ele "é um dos responsáveis por eu estar aqui" só reforçou essa suspeita.

Amigos do ex-comandante leem o oposto, uma espécie de separação Estado-igreja necessária para evitar o que chamam de contaminação política dos quartéis em caso de crise no governo.

Eles enxergam isso também no momento que VB disse ter sido o mais delicado de sua chefia, quando sugeriu que o Supremo não deveria soltar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Como o próprio general admitiu à Folha, ele o fez "no limite" e porque precisava tomar as rédeas do radicalismo.

De todo modo, eles concordam que Villas Bôas será uma força moderadora, ainda que trabalhando à sombra. Ele deve assumir em fevereiro.

Doença não afeta a cognição, mas demanda atenção total

Pessoas que estão com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) em grau avançado de desenvolvimento ou doenças similares, como é o caso do general Eduardo Villas Bôas, precisam de grande suporte de terapias, equipamentos, cuidados básicos e médicos, além de medicamentos, para terem uma condição regular de vida.

A enfermidade neurodegenerativa afeta não só a capacidade motora, tirando progressivamente os movimentos do paciente, como também atinge a função respiratória, de fala e de deglutição. A capacidade cognitiva continua intacta no indivíduo.

Para seguir desenvolvendo atividades laborais, além de uma singular disposição, o paciente necessita basicamente de acesso a respiradores portáteis, com baterias extras, um profissional cuidador que o auxilie na rotina de cuidados pessoais e de alimentação. Ter acesso a um fisioterapeuta, a um fonoaudiólogo e a um nutricionista também é considerado fundamental.

No caso de pessoas que se alimentam por uma sonda gástrica, o custo médio mensal da dieta é de R$ 1.000.

De acordo com a Associação Pró-Cura da ELA, ONG de maior atuação no país no trato com a doença, anualmente o país tem, em média, 5.000 diagnósticos da esclerose, que afeta em quase sua maioria homens a partir dos 40 anos.

Novas tecnologias, intervenções e tratamentos têm ampliado a expectativa de vida dos pacientes. O físico britânico Stephen Hawking, morto no ano passado, aos 76 anos, por exemplo, conviveu décadas com a doença.

Embora haja um protocolo de cuidados para que o SUS atenda pacientes com ELA, Jorge Abdalla, presidente da associação, avalia que a vagareza e a burocracia das ações públicas de apoio acabam colocando pacientes em risco.

As causas que podem levar a ELA não são totalmente conhecidas pela ciência e o diagnóstico é complexo, envolvendo exame clínico e testes de laboratório. 

Pesquisadores de várias partes do mundo buscam uma cura para a doença, que ficou muito conhecida após a campanha "balde de gelo". Jairo Marques

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