Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro agora diz que não pretendia criticar Carnaval ao publicar vídeo obsceno

Inicialmente, a assessoria de imprensa do Planalto havia dito que não iria se manifestar sobre o caso

Talita Fernandes
Brasília

Depois de publicar vídeo polêmico nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro disse por meio de nota que não pretendia criticar o Carnaval de forma genérica.

O presidente Jair Bolsonaro, que se envolveu em polêmica sobre o Carnaval
O presidente Jair Bolsonaro, que se envolveu em polêmica sobre o Carnaval - Ueslei Marcelino - 28.fev.2019/Reuters

"Não houve intenção de criticar o carnaval de forma genérica, mas sim caracterizar uma distorção clara do espírito momesco, que simboliza a descontração, a ironia, a crítica saudável e a criatividade da nossa maior e mais democrática festa popular", diz texto divulgado nesta quarta-feira (6) pelo Palácio do Planalto.

A nota foi distribuída à imprensa no início da noite desta quarta após o presidente ter usado sua conta oficial do Twitter na terça (5) para divulgar um vídeo em que um homem aparece dançando sobre um ponto de táxi após introduzir o dedo no próprio ânus. Na sequência, surge outro rapaz que urina na cabeça do que dançava.

Em sua publicação no Twitter, Bolsonaro dizia não se sentir "confortável em mostrar", mas argumentou que tem "que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conslusões [conclusões]".

O presidente diz que a cena escandalizou o país e que se trata de um crime, sem especificar qual. "É um crime, tipificado na legislação brasileira, que violenta os valores familiares e as tradições culturais do carnaval", diz o texto.

Inicialmente, a assessoria de imprensa disse que não iria se manifestar sobre o caso por se tratar de conta pessoal de Bolsonaro.

Depois de um dia de repercussões de negativas e um longo silêncio do Planalto, Bolsonaro foi convencido por aliados a divulgar uma nota de esclarecimento.

Ele recebeu em seu gabinete os generais do Exército Augusto Heleno, ministro-chefe do GSI, e Otávio Rêgo Barros, porta-voz da Presidência. 

Na conversa, os três decidiram fazer um texto mais conciliador: que manteve o discurso conservador sobre as cenas do vídeo, mas que demonstra um recuo do presidente em relação às críticas ao Carnaval, maior festa popular do país.

O tom mais ameno foi adotado depois que reações às críticas de que as cenas do vídeo, com famílias divulgando imagens de crianças e idosos participando da festa.

Na manhã de quarta ele voltou à rede enquanto a hashtag "goldenshowerbolsonaro" era um dos assuntos mais comentados na rede social no Brasil. O presidente fez um post indagando "o que é golden shower?".

Golden shower é o nome popular —em inglês— para o fetiche de urinar na frente de um parceiro ou sobre ele. Novas críticas vieram de oposicionistas e de apoiadores.

Entre os usuários, alguns criticaram o dirigente por ele ter sido o responsável por compartilhar imagens com conteúdo pornográfico, levando esse tipo de mensagem a chegar a crianças e menores.

Bolsonaro se elegeu, entre outras bandeiras, por defender o fim da educação sexual nas escolas. Por meio da bandeira do projeto Escola sem Partido, o presidente diz com frequência que governos de esquerda promoviam a erotização das crianças.

​ Ao deixar o Palácio do Planalto, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, minimizou a repercussão do caso e disse que não queria comentar as publicações porque não pretende ser "ventríloquo do presidente".

"Eu não vou comentar algo que eu não sei. Eu não quero ser o ventríloquo do presidente. O presidente já declarou, o filho dele já declarou, então está ótimo", disse ao ser questionado sobre se o governo não tem criado crises devido às publicações do presidente nas redes sociais.

Mourão também negou que o episódio do Carnaval possa atrapalhar a relação do Poder Executivo com o Congresso e, consequentemente, a votação de pautas importantes, como a reforma da Previdência.

"Acho que não porque é aquela historia, morre amanhã. Está morto amanhã", afirmou.

Sobre a repercussão negativa das postagens na imprensa internacional, ele disse apenas que "isso passa".

Mourão também foi questionado se não teria aconselhado Bolsonaro a mudar o tom nas redes sociais.

"Não é o caso, o presidente é praticamente da minha idade. Somos contemporâneos da academia."

Confira a íntegra da nota:

A respeito de publicação realizada na conta pessoal do Presidente da República, em 5 de março, convém esclarecer que:

- No vídeo, postado pelo Sr Presidente da República em sua conta pessoal de uma rede social, há cenas que escandalizaram, não só o próprio Presidente, bem como grande parte da sociedade.

- É um crime, tipificado na legislação brasileira, que violenta os valores familiares e as tradições culturais do carnaval.

- Não houve intenção de criticar o carnaval de forma genérica, mas sim caracterizar uma distorção clara do espírito momesco, que simboliza a descontração, a ironia, a crítica saudável e a criatividade da nossa maior e mais democrática festa popular.

 

Carnaval com bate-boca e vídeo escatológico

Em seu primeiro Carnaval como presidente da República, Jair Bolsonaro não teve compromissos oficiais, mas se envolveu em discussões no Twitter, a rede social que mais utiliza

Domingo
Usou seu perfil para defender o filho Carlos, criticado após atuar pela queda do ministro Gustavo Bebianno, em fevereiro. Disse que vai continuar "ouvindo suas sugestões"

Segunda-feira
Voltou a prometer uma "Lava Jato da Educação", sem entrar em detalhes. Anteriormente, a expressão derrubou ações de empresas da área

Terça-feira
Foi o dia mais agitado nas redes do presidente. Pela manhã, divulgou marchinha em resposta à música "Proibido o Carnaval", de Daniela Mercury e Caetano Veloso. Sem citar os cantores, criticou "dois famosos" e disse que "esse tipo de artista não mais se locupletará da Lei Rouanet". Bolsonaro vinha sendo alvo de protestos durante blocos de rua pelo país

Durante a tarde, ele chamou o jornalista Guga Noblat de "cérebro mofado" e ainda criticou o perfil de uma rádio. À noite, compartilhou um vídeo em que um homem aparece dançando sobre um ponto de táxi após introduzir o dedo no próprio ânus. Na sequência, a gravação mostra outro rapaz que urina na cabeça do que dançava. O presidente escreveu: "É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro"

Quarta-feira de cinzas
No dia em que o presidente retomou suas agendas oficiais, ele publicou em seu perfil: 'O que é golden shower?" A expressão em inglês se refere ao fetiche de urinar na frente de um parceiro ou sobre ele

Repercussão
As publicações do presidente provocaram críticas em série de usuários da rede social e também de políticos, como o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), que disse que irá acionar Bolsonaro judicialmente. A lei 13.718, de 2018, que trata de importunação sexual, prevê punição para a divulgação de vídeos de sexo ou pornografia

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