Após atraso e quase desastre com protótipo, Embraer entrega cargueiro para FAB

Governo investiu R$ 5 bi desde 2008 no projeto e anunciou a compra de 28 aeronaves por R$ 7,2 bi

Igor Gielow
Rio de Janeiro

A Embraer anunciou que irá entregar o primeiro cargueiro militar KC-390 para a FAB (Força Aérea Brasileira) neste semestre, após atrasos devido à falta de pagamento por parte do governo e dois incidentes com protótipos terem adiado o cronograma inicial.

A previsão, anunciada na edição de 2017 da feira militar LAAD, era de entrega de cinco aviões até 2019. Mas soluços orçamentários nos anos da recessão (2015 e 2016) se somaram a um quase desastre em 2017 com um dos protótipos e a uma saída de pista com danos a outro, no ano passado.

O avião cargueiro KC 390, projeto da FAB em parceria com a Embraer
O avião cargueiro KC 390, projeto da FAB em parceria com a Embraer - Pedro Ladeira - 7.set.2018/Folhapress


“Estamos entregando dentro do previsto nas repactuações contratuais com a FAB”, disse nesta terça (2) o diretor do programa KC-390, Wagner Pinto Júnior, na abertura da edição 2019 da LAAD. O governo investiu R$ 5 bilhões desde 2008 no projeto e anunciou a compra de 28 aeronaves por R$ 7,2 bilhões. A Embraer pagará 3,2% de royalties para cada contrato de exportação do avião, que será feito a partir daqui pela joint-venture comandada pela Embraer em parceria com a norte-americana Boeing só para a venda do modelo.

O avião está em fase avançada de certificação. Já tem a civil e deverá obter até o fim do ano a militar completa, o que não impede que a FAB opere o avião que receberá. Outros dois aviões de linha de produção já estão em fase de montagem. Para receber o aval final, faltam alguns testes, como o de reabastecimento aéreo com caças e helicópteros.

A nova empresa deverá ter uma linha final de montagem do modelo nos EUA, mas Pinto Júnior disse que isso ainda estava em discussão entre os brasileiros, que detêm 51% da joint-venture, e os americanos, que têm 49%.


O acerto faz parte de uma negociação maior, na qual a Boeing comprou a linha de aviação civil da Embraer no começo deste ano. Uma outra empresa será criada, com 80% de controle dos americanos e 20%, da Embraer. Para trás, fica a divisão de Defesa e Segurança e de aviação executiva da fabricante paulista.

No mercado, havia dúvidas sobre a solidez futura da Embraer remanescente, dado que o KC-390 é seu principal novo produto e as 28 unidades da FAB serão as únicas tratadas pela empresa —além de, talvez, também um contrato de exportação para Portugal.

“Somos uma grande companhia de segurança, teremos mais de 2.000 aeronaves voando. E dominamos ciclos completos, mantendo o papel de empresa estratégica de defesa brasileira para as Forças Armadas”, disse o CEO da Embraer Defesa, Jackson Schneider.

Ele participou na LAAD da assinatura de um contrato, anunciado na semana passada, que ajuda a lhe dar argumentos na discussão. A Marinha brasileira vai comprar quatro corvetas, a serem entregues entre 2024 e 2028 por valor hoje na casa de R$ 6,4 bilhões. E o consórcio vencedor, liderado pelos alemães da TKMS, é integrado justamente pela Embraer Defesa. A empresa fornecerá sistemas eletrônicos e deverá participar da montagem dos navios, que ocorrerá no Brasil e terá conteúdo nacional (31,6% na primeira unidade e 41% nas demais).

O negócio foi viabilizado por uma capitalização até aqui de R$ 2 bilhões de uma estatal de projetos navais no ano passado, criatividade contábil que chegou a ser questionada pelo Tribunal de Contas da União. A previsão é a geração de até 2.000 empregos diretos.

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