Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro tenta encerrar crise, mas mantém desconforto com militares

Presidente diz que ideólogo do bolsonarismo é ícone e dono do nariz ao fazer críticas a generais

Brasília e São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) buscou encerrar o atual capítulo da crise entre os militares e a ala ideológica de seu governo. Só que o fez defendendo o pivô da confusão, o escritor Olavo de Carvalho, o que manteve o desconforto entre vários altos oficiais.

A Folha ouviu de alguns deles a avaliação de que a própria presença de militares no governo deveria ser reavaliada caso o que chamam de ataque institucional do bolsonarismo organizado em redes sociais se mantenha contra as Forças.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) fala com a imprensa durante assinatura de decreto presidencial que flexibiliza regras para atiradores esportivos, caçadores e colecionadores de armas
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) fala com a imprensa durante assinatura de decreto presidencial que flexibiliza regras para atiradores esportivos, caçadores e colecionadores de armas - Pedro Ladeira - 7.mai.2019/Folhapress

Após um evento no Palácio do Planalto, o presidente disse que "o Olavo é dono do seu nariz". "Como eu sou do meu e você é do seu. Então, liberdade de expressão. Eu recebo críticas muito graves todo dia e não reclamo", disse.

"Inclusive, olha só. O pessoal fala muito em engolir sapo. Eu engulo sapo pela fosseta lacrimal e estou quieto aqui, OK?", disse (talvez o presidente estivesse se referindo a fossas lacrimais ou a fossas nasais, já que fosseta lacrimal é um órgão sensorial de algumas espécies de serpentes).

As críticas de Olavo se repetem há semanas contra generais da reserva que integram o governo, com foco no vice-presidente, Hamilton Mourão, e no ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo).

Além disso, o escritor foi acompanhado nos ataques pelo filho de Bolsonaro responsável por suas redes sociais, o vereador carioca Carlos (PSC). Não houve um enquadramento incisivo deles pelo presidente.

Assim, o Alto Comando do Exército deu seu recado por meio do ex-comandante Eduardo Villas Bôas. Na segunda, o general da reserva criticou Olavo na sua conta no Twitter, o chamando de "Trótski de direita", em referência ao líder revolucionário soviético.

Isso ocorreu após Santos Cruz quase deixar o governo no fim de semana, após queixar-se com o presidente de campanha virtual de olavistas.

Só que Bolsonaro dobrou a aposta na manhã de terça (7), postando também no Twitter um desagravo ao escritor, que chamou de "ícone".

"Continuo admirando o Olavo. Quanto aos desentendimentos ora públicos contra os militares, aos quais devo minha formação e admiração, espero que seja uma página virada", escreveu.

Horas antes, Olavo havia postado no Twitter uma frase que revoltou o alto oficialato. "Há coisas que nunca esperei ver, mas estou vendo. A pior delas foi altos oficiais militares, acossados por afirmações minhas que não conseguem contestar, irem buscar proteção escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas. Nem o [ex-presidente] Lula seria capaz de tamanha baixeza."

O doente em questão é Villas Bôas, que sofre de grave mal degenerativo do neurônio motor e precisa de auxílio constante. Sua doença não afeta as faculdades mentais.

A provocação não recebeu resposta pública, de acordo com o acertado entre os comandantes das três Forças em reunião que já havia sido marcada para esta terça.

Eles almoçaram com Bolsonaro e alguns ministros. O tema principal da conversa foi como executar o já anunciado e amargo contingenciamento de R$ 5,8 bilhões das despesas não-obrigatórias da Defesa deste ano —cerca de 44% do total para investimento e custeio, valor que costuma ser revertido ao longo do ano.

Segundo relatos, todos trataram de minimizar a troca de farpas. O escritor vocaliza críticas ao que considera simpatia pela esquerda por parte dos militares que integram o governo. Além de Carlos, outro filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo (PSL-SP), é muito próximo de Olavo.

No mesmo evento no Planalto, ele defendeu Olavo.

Bruno Boghossian, Gustavo Uribe , Talita Fernandes e Igor Gielow
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.