Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro defende Olavo e diz esperar fim de embates com militares

Ex-comandante do Exército chamou guru do presidente de 'Trótski de direita'

Gustavo Uribe
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro elogiou publicamente nesta terça-feira (7) o escritor Olavo de Carvalho e disse esperar que os recentes desentendimentos entre o ideólogo e os militares se tornem página virada.

Em sua página nas redes sociais, Bolsonaro afirmou que a obra do ideólogo de direita contribuiu para a sua vitória na disputa eleitoral do ano passado, ressaltou que ele se tornou rapidamente um “ícone” e fez questão de dizer que o admira.

“Sempre o terei nesse conceito, continuo admirando o Olavo. Quanto aos desentendimentos ora públicos contra os militares, aos quais devo minha formação e admiração, espero que seja uma página virada por ambas as partes”, escreveu o presidente.

O elogio do presidente não era esperado pela cúpula militar, que se incomodou com a apatia de Bolsonaro e cobrava desde segunda-feira (6) uma manifestação enfática dele em defesa das Forças Armadas.

Na tentativa de evitar a deflagração de uma crise, o presidente comparecerá nesta terça-feira (7) a almoço com o comando militar. A expectativa é que, no encontro, os comandantes presentes manifestem insatisfação pela postura do escritor.
 

Nos últimos dias, o agravamento da crise entre os militares e a chamada ala ideológica do governo Jair Bolsonaro (PSL) levou a uma reação do Alto Comando do Exército, que considera o presidente omisso na disputa e quer estabelecer um limite ao que vê como desrespeito institucional.

O recado foi dado pelo mais respeitado general da reserva, uma vez que oficiais da ativa não poderiam se manifestar.

Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército de 2015 até o começo deste ano, usou as redes sociais para chamar o escritor Olavo de Carvalho de "Trótski de direita", ao criticar o patrono da ala ideológica associando-o ao líder comunista soviético Leon Trótski.

"Mais uma vez o senhor Olavo de Carvalho a partir de seu vazio existencial derrama seus ataques aos militares às Forças Armadas, demonstrando total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de um mínimo de humildade e modéstia", escreveu.

Para ele, Olavo é um "verdadeiro 'Trótski de direita', não compreende que substituindo uma ideologia pela outra não contribui para a elaboração de uma base de pensamento que promova soluções concretas para os problemas brasileiros".

Villas Bôas hoje é assessor do também general da reserva Augusto Heleno no Gabinete de Segurança Institucional, e sua fala reflete o que pensa a maioria do Alto Comando do Exército, mais importante colegiado militar brasileiro.

O grupo já tinha reunião administrativa rotineira marcada para a segunda-feira (6), e a crise foi debatida.

Na manhã desta terça, Olavo voltou a atacar os militares. Em uma rede social, disse que "os generais, para voltar a merecer o respeito popular, só têm de fazer o seguinte: arrepender-se, pedir desculpas e passar a obedecer o presidente sem tentar mudar o curso dos planos dele. É simples".

E prosseguiu: "Há coisas que nunca esperei ver, mas estou vendo. A pior delas foi altos oficiais militares, acossados por afirmações minhas que não conseguem contestar, irem buscar proteção escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas. Nem o Lula seria capaz de tamanha baixeza".

Quando fala de "doente preso a uma cadeira de rodas", Olavo se refere a Villas Bôas, vítima de uma doença degenerativa grave

O atual capítulo da crise gira em torno das críticas de Olavo ao general Carlos Aberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo e responsável pela Secom (Secretaria de Comunicação).

Há semanas Olavo critica Santos. O escritor é a principal influência sobre Carlos e Eduardo, os mais vocais filhos de Bolsonaro, e de um grupo no governo integrado pelos titulares do Itamaraty e do Ministério da Educação.

Para o escritor, Santos Cruz e os militares em geral são um entrave às mudanças sociais propostas pelo bolsonarismo.

No fim de semana, as redes bolsonaristas replicaram uma crítica feita pelo humorista Danilo Gentili. Ele viu numa frase de Santos Cruz durante entrevista em abril a sugestão de censura às redes sociais.

Na verdade, o ministro falava em legislação acerca de abusos. Mas foi o suficiente para que Olavo se manifestasse, postando: "Controlar a internet, Santos Cruz? Controlar a sua boca, seu merda".

O presidente postou no Twitter uma frase pregando a liberdade de expressão na internet, o que levou Santos Cruz a se queixar pessoalmente com ele.

Segundo a Folha apurou junto a interlocutores de ambos, a conversa na noite de domingo (5) foi dura. Bolsonaro e Santos Cruz se conhecem há três décadas e, segundo um oficial, nunca haviam se estranhado tanto.

Isso dito, combinaram de tentar abafar a crise, e Santos Cruz manteve uma agenda na Amazônia na segunda.

O próprio Bolsonaro falou sobre o tema. "Temos coisas muito mais importantes para discutir no Brasil. Aqueles que, por ventura, não têm tato político, estão pagando um preço junto à mídia. Mas não existe grupo de militares nem grupo de Olavos entre nós, é tudo um time só", afirmou.

Já o vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, foi menos diplomático. "Esses ataques [do escritor] são totalmente sem nexo. Se nós ignorarmos, será muito melhor para todo mundo", disse.

Mourão era o alvo principal das críticas de Olavo até há pouco tempo. Na semana retrasada, a crise havia atingido outro pico com as críticas diretas de Carlos Bolsonaro, que é vereador pelo PSC do Rio, ao general. Ele o considera um candidato a usurpar a cadeira do pai.

Bolsonaro não enquadrou o filho, mas a ação de oficiais como Heleno acabou por reduzir a intensidade dos atritos —até este final de semana, como a manifestação de Villas Bôas deixou claro.

A novidade é que a crítica do ex-comandante veio após Bolsonaro tomar partido contra Santos Cruz no episódio da suposta censura às redes sociais. Isso é um indicativo do desconforto de oficiais da ativa, que gostariam de ver uma defesa mais assertiva da corporação.

No Planalto, a ordem é baixar a fervura. Cogita-se a saída da Secom —comandada por um empresário próximo de Bolsonaro, Fábio —Wajngarten da alçada de Santos Cruz.

Há divergências sobre os rumos da comunicação. Carlos, gestor da estratégia digital do pai, já fez críticas diretas ao setor. No entorno familiar do presidente, há queixas sobre o poder do general da ativa Otávio do Rêgo Barros, o porta-voz do Planalto.

OLAVO X MILITARES

Relação familiar
Bolsonaro conheceu Olavo de Carvalho a partir de seus filhos, que são admiradores do escritor. Em março, durante a viagem presidencial aos EUA, Bolsonaro, Eduardo e Olavo estiveram em um jantar na residência oficial do embaixador do Brasil em Washington

Indicações para o governo
Apontado como guru de Bolsonaro, Olavo foi responsável pela indicação de dois ministros: Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Vélez Rodríguez, demitido do MEC no início do mês

Conflitos com militares
Olavo tem feito críticas públicas à atuação dos militares no governo Bolsonaro, o que inclui o vice-presidente, Hamilton Mourão, e já pediu a seus ex-alunos que deixem o governo. A disputa entre olavistas e membros das Forças Armadas chegou a travar as atividades do MEC e culminou na demissão de Vélez

Vídeo apagado
Em abril, um vídeo em que Olavo criticava os militares foi postado no canal oficial de Bolsonaro no YouTube, mas a publicação foi apagada. Um dia depois, Mourão disse que Olavo deveria se limitar à "função de astrólogo", e Bolsonaro afirmou que as críticas do escritor não contribuem com o governo

Redes sociais
No fim de semana de 04 e 05 de maio, Olavo xingou o general Santos Cruz ao criticar um comentário do militar sobre redes sociais. Ex-comandante das Forças Armadas, o general Villas Bôas saiu em defesa do chefe da Secretaria de Governo e fez reprimendas a Olavo, a quem chamou de "Trótski de direita"

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