Descrição de chapéu Lava Jato

Bolsonaro esperou impacto para apoiar Moro ainda popular, mas enfraquecido

Para presidente, ministro ainda tem apoio público, mas candidatura em 2022 perdeu força

Igor Gielow
São Paulo

A demora do presidente Jair Bolsonaro (PSL) em apoiar abertamente o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) no episódio de suas conversas vazadas com o procurador Deltan Dallganol foi baseada em um cálculo político com duas variáveis centrais e uma resultante de seu interesse.

Segundo aliados do presidente, a primeira variável era a óbvia: esperar a repercussão das conversas publicadas pelo site The Intercept Brasil. Ainda que elas tenham tornado bastante delicada a situação de Moro no campo ético, com eventual repercussão jurídica sobre sua decisão que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no caso do tríplex, Bolsonaro avaliou a interlocutores que o ministro sobreviveu à primeira saraivada.

Jair Bolsonaro e Sergio Moro durante jogo do Flamengo, na quarta-feira (12)
Jair Bolsonaro e Sergio Moro durante jogo do Flamengo, na quarta-feira (12) - Alex Farias/Photopress/Folhapress

O temor inicial era de que uma segunda barragem de diálogos comprometedores surgisse imediatamente, obrigando a retirada de Moro do ministério. Os militares do governo se preocupavam especialmente com essa possibilidade, dados que Moro é o ministro mais próximo da agenda que eles dizem defender de combate à corrupção.

O segundo fator na conta é mais subjetivo. Chegaram ao Planalto dados de empresas que fazem acompanhamento de comportamento de redes sociais segundo os quais Moro ainda mantém boa parte de seu capital político. Perdeu algo, em especial nos primeiros dias após a revelação das conversas no domingo (9), mas a reação em seu favor comandada pela guerrilha virtual à direita parece ter contido os danos até aqui.

Hashtags em favor de Moro e até uma manifestação convocada pelo movimento direitista Vem Pra Rua. Aqui, a equipe presidencial teve de fazer uma constatação: o apoio ao ex-juiz da Lava Jato suplantou a bolha bolsonarista, indicando uma musculatura política que independe do presidente. Não houve nenhuma casualidade ver o presidente puxar o coro “Moro, Moro” junto a um constrangido ministro envergando uma camiseta do Flamengo no estádio Mané Garrincha, em Brasília, na noite de quarta (12).

Por óbvio, esse é um arranjo bastante provisório por depender do imponderável: o surgimento de alguma “bala de prata” contra o ministro. A revelação de que a invasão do celular ocorreu em aparelho de Dallagnol fez refluir a impressão inicial entre ministros de cortes superiores que seria inevitável surgir algo que envolvesse, por exemplo, o Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, que atuava em linha com Moro. A essa altura, contudo, trata-se mais de chute ou torcida do que avaliação objetiva.

Entre governistas, há uma avaliação de que a ofensiva prometida no Supremo Tribunal Federal contra Moro e a Lava Jato terá de enfrentar uma pressão popular muito grande, e poderá ser refreada.

O primeiro round tem data marcada: 25 de junho, quando a Segunda Turma do STF julgará o pedido de suspeição de Moro no caso do tríplex, que se aceito suspenderá a pena do ex-presidente e o fará ser julgado novamente. Já o pacote anticrime proposto pelo ministro, este deverá sofrer bastante alterações num Congresso que nunca tolerou a cruzada da Lava Jato e considera Moro inábil no trato.

Além disso, o entorno de Bolsonaro conta com um apoio indireto bastante inusual, que é a cobertura do caso pela Rede Globo, vista na opinião deles como favorável a Moro pelo enfoque que consideram ser prioritário à questão do crime do hackeamento das mensagens em detrimento ao seu conteúdo.

A avaliação é carregada de ironia, já que, como se sabe, a relação de Bolsonaro com a Globo é de ruim a péssima. O presidente teve um áudio vazado de conversa sua chamando a emissora de “inimiga”, e prometeu reiteradas vezes retirar verbas públicas de publicidade da maior rede de TV do país. Desde que assumiu, Bolsonaro é frequentador assíduo de programas na rival global SBT, por exemplo. Logo, na avaliação do Planalto, se a cobertura da Globo é melhor para Moro, o é por causa do ministro e da Lava Jato, não pelo presidente.

O quadro leva à resultante do momento, que é favorável ao presidente. Nela, Moro está enfraquecido, um pato manco para ficar na expressão norte-americana para presidentes em fim de mandato. Assim, sua projeção como eventual candidato à Presidência em 2022 fica prejudicada de saída. E Bolsonaro surge como seu fiador público após meia semana de suspense, buscando associar-se à popularidade ainda alta do ministro e da Lava Jato. É um cenário bastante precário por instável, mas melhor do que os bolsonaristas previam no começo da semana.

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