Progressistas devem reinventar diálogo com conservadores

Para debatedores, é preciso ouvir mais e escolher termos com cautela para obter a atenção do outro lado

Everton Lopes Batista
São Paulo

Os conservadores moderados brasileiros estão dispostos a dialogar, mas para que isso aconteça, é necessário que quem está no campo progressista repense a abordagem, as falas e esteja realmente pronto para ouvir.

“É preciso que o campo progressista se desloque do lugar da fala para o da escuta”, disse a socióloga Esther Solano, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), durante o debate O Conservadorismo e as Questões Sociais, realizado pela Fundação Tide Setubal, com apoio da Folha, no auditório do jornal, na segunda-feira (10).

No evento, foram apresentados os resultados da pesquisa homônima, realizada pela fundação em parceria com a empresa Plano CDE.

O levantamento, feito a partir de 120 entrevistas com eleitores conservadores moderados de quatro capitais brasileiras, mostrou, entre outros pontos, que essas pessoas enxergam desordem e decadência no mundo hoje.

De acordo com Solano, o rápido avanço das pautas modernizadoras dos costumes provocou uma reação algumas vezes violenta de quem não se reconhece dentro dessa nova ordem.

“O conservador ordena o mundo com uma visão heteronormativa, patriarcal, masculina e branca. Ele está assistindo à subversão de tudo isso. Há uma insegurança existencial do conservador, que se sente perdido e tem dificuldade para se enxergar em um mundo que passou por mudanças plurais”, afirmou.
“Essa insegurança faz com que ele sinta um medo que pode ser transformado em ódio. Isso tem uma potência eleitoral muito forte”, completou.

Em meio à polarização política e à estigmatização do que defendem os progressistas, estes teriam perdido a capacidade de comunicação, de acordo com a socióloga. “Temos de nos colocar como interlocutores. Nossa linguagem deve ser depurada se queremos conversar com quem está fora da nossa bolha.”

Termos como feminismo, gênero e LGBT, que fazem referências a questões identitárias, devem ser usados com cautela para furar o bloqueio da resistência conservadora, segundo os debatedores.

“A gente acha que está conversando, mas na verdade está apenas querendo convencer. Devemos fazer uma escuta ativa, fazer mais perguntas do que levar respostas. É necessário encontrar algo em comum para iniciar a conversa”, afirmou Mafoane Odara, psicóloga, coordenadora de projetos no Instituto Avon.

Para o teólogo e pastor Henrique Vieira, líder da Igreja Batista do Caminho, do Rio, a conversa pode começar por assuntos como família, amor e vida, que teriam sido deixados para os conservadores nos últimos anos.

“Em determinados ambientes progressistas, parece que a palavra família é um problema. Dessa maneira você não vai dialogar com a maioria da população. Família tem a ver com moradia, saúde e educação também. Se deixarmos esses conceitos para os conservadores, não sobra nada para a gente falar.”

De acordo com o pastor, que faz parte de uma safra pequena de líderes evangélicos mais abertos às mudanças na sociedade, grande parte dos evangélicos brasileiros são negros e estão nas periferias das cidades. “Podemos falar com essas pessoas sobre transporte, segurança ou salário mínimo. São temas do cotidiano que geram conexão.”

Uma releitura da Bíblia com um viés progressista é parte do processo, segundo Vieira.
Para ele, nas discussões com religiosos mais fundamentalistas, que veem o texto sagrado como verdade absoluta e imutável, é improdutivo citar a Declaração Universal dos Direitos Humanos ou a Constituição Federal, por exemplo.

“É fundamental retomar a leitura comunitária e coletiva da Bíblia para, a partir disso, fomentar noções de dignidade humana e respeito à diversidade. Mostrar que Jesus impediu a violência e que tinha mulheres como protagonistas de seu movimento”, sugeriu.

O conservadorismo que se manifesta no país, porém, não depende dos evangélicos, segundo o pastor. O crescimento desse segmento teve início nas últimas décadas, mas o pensamento que não reconhece as lutas de mulheres e negros é estrutural e histórico.

“Eleger o campo evangélico como um monstro significa fazer uma generalização preconceituosa”, disse.
Vieira lembrou que há um segmento evangélico fundamentalista que tem poder econômico e de mídia, o que dá visibilidade para suas ideias.

Entre os conservadores, há uma percepção de que os problemas estruturais do Brasil são a desigualdade e a pobreza, segundo Solano.

“Muitas pessoas falavam, nas entrevistas, que não queriam a reforma da Previdência, mas que não viam uma alternativa. Há um anseio por retomar pautas clássicas do campo progressista, como a redução da desigualdade e da pobreza”, concluiu.

A mediação do debate foi feita pelo colunista da Folha Vinicius Torres Freire.

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