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Conservadores não radicais falam sobre como pensam o Brasil hoje

Veja depoimentos de brasileiros com visão 'intermediária' no aspecto político e econômico

Luisa Leite João Valadares Laura Castanho
Recife, São Paulo e Rio de Janeiro

Para uma pesquisa sobre conservadorismo no Brasil, a Fundação Tide Setubal, em parceria com a empresa Plano CDE, entrevistou 120 cidadãos brasileiros considerados “intermediários”, que não estão entre aqueles de renda mais baixa ou alta; não são adeptos mais extremos de opiniões tidas como conservadoras, mas certamente não são de esquerda ou seus eleitores recentes.

Os resultados da pesquisa foram apresentados durante o debate O Conservadorismo e as Questões Sociais, realizado pela Fundação Tide Setubal, com apoio da Folha, no auditório do jornal, na segunda-feira (10).

Para reportagem sobre o evento, a Folha colheu depoimentos de brasileiros com perfil semelhante ao dos que aparecem na pesquisa, e que vivem nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife (PE).

Leonardo Gonçalves França

Carioca, Leonardo Gonçalves França, 41, trabalhava até o ano passado como vendedor. A empresa, segundo ele mal-administrada, fechou durante a crise. Gonçalves vive agora do táxi.

Casado há dois anos, tem um filho e um enteado. O taxista diz que o brasileiro não se tornou mais conservador, sempre foi.

Leonardo Gonçalves França, 41, é morador da Vila da Penha , bairro da zona norte do Rio de Janeiro
Leonardo Gonçalves França, 41, é morador da Vila da Penha , bairro da zona norte do Rio de Janeiro - Raquel Cunha/Folhapress

Viemos de vários governos onde as coisas foram ficando mais difíceis: a criminalidade, a economia, a corrupção. O Bolsonaro foi uma aposta, feita para ver se conseguimos mudar um pouco.

Não acredito que o Brasil tenha se tornado mais conservador. Sempre fomos. As pessoas falam que apoiam os filhos mesmo que sejam gays ou usuários de drogas. Apoiam mesmo. Mas não gostariam que fosse assim. São mães que gostariam de ter netos e vê-los crescer perto da nora ou do genro. No fundo sempre fomos conservadores.

O que houve foi que aumentou essa história de politicamente correto, com novelas com casais que sempre soubemos que existiram, mas que nunca haviam sido mostrados em rede nacional. As pessoas começaram a reagir.

Por mais de 20 anos fui ateu. Vários acontecimentos me fizeram voltar a acreditar em Deus e Jesus. Hoje sou espírita, mas isso não influencia o meu voto. Procuro ver um pouco da história de cada político.

Fiquei anos, mais de quatro eleições sem votar. Não tinha vontade, achava que não tinha uma opção que me agradasse, não me identificava com nenhum político. Então não votava, depois ia lá e pagava a multa.

Em 2005, os políticos nos deram um golpe: quase 64% da população era contra o Estatuto do Desarmamento, mas mesmo assim o Congresso fez a pauta. Eu sou favor da posse, porque hoje qualquer bandido armado sabe que se ele não esbarrar com um policial, bombeiro, agente penitenciário ou delegado, ele não vai encontrar resistência. Mas sou contra o porte.

Hoje a direita assumiu o poder depois de décadas de governos de esquerda. O tempo que tivemos até agora, de cinco meses, o governo está enxugando os gastos, fechando algumas torneiras. Acho que eu esperava algo maior, ou melhor. Mas não dá para fazer uma avaliação do Bolsonaro, ainda está muito cedo.

Nataly Gomes da Silva

Nataly Gomes da Silva tem 27 anos e está desempregada há três. Já foi auxiliar administrativa e porteira. Nascida em Ferreiros, no interior de Pernambuco, veio com a família para São Paulo aos cinco anos.

Cresceu e mora até hoje na favela São Remo, ao lado da USP, na zona oeste. Não tem religião. Frequenta um cursinho popular e estuda para passar em pedagogia —quer trabalhar com crianças pequenas.

Seu marido, segurança de prédio, acha que ainda não está na hora de ter filhos. Os dois votaram em Bolsonaro nos dois turnos no ano passado.

Nataly Gomes da Silva, 27, mora na favela São Remo, na zona oeste da cidade de São Paulo
Nataly Gomes da Silva, 27, mora na favela São Remo, na zona oeste da cidade de São Paulo - Lucas Seixas/Folhapress

Não sou muito de ver política. Votei no Bolsonaro para colocar uma pessoa nova no poder. É difícil votar várias vezes na mesma pessoa e ver que não está resolvendo.

Ele chegou ao poder sem dinheiro e tem quatro anos para arrumar o país. Se não, ninguém vota nele de novo.

Eu votei na Dilma, votei bastante no PT, que fez muitas coisas boas. Onde a avó do meu marido mora, no interior da Bahia, não tinha luz nem água antes do PT. Mas teve coisas ruins que nós temos que falar também.

Não me considero nem de esquerda, nem de direita. O que importa é o bem da sociedade. Se o cara do PT tivesse vencido, eu apoiaria para ele fazer o que tivesse de fazer para mudar.

O pessoal critica muito o Bolsonaro, dizem que ele não faz nada. Você tem que pensar que o outro partido ficou sei lá quantos anos no poder, e um monte de coisa foi cortado, só que ninguém reivindicou. Aí o cara fala que vai cortar verba porque não tem dinheiro e a gente sabe que tem muito estudante que vai na universidade mas não é para estudar.

É muito fácil falar, ‘Ah, ele é machista’. Qualquer um pode ser machista hoje. Tudo que acontece de ruim cai sobre o presidente. Eu acho que não é machista, não. Não vejo nada que me desagrade.

A mídia manipula muito o Bolsonaro, dizendo que ele não gosta de negro, não gosta de gays. Não acho que é verdade. Cada um tem o seu gosto. Quantos aí também não gostam de negro, não gostam de gay? Não é porque ele é presidente que ele não pode dar a opinião dele.

Meu marido é negro e votou nele. Tem muita gente negra que votou nele sem essa burocracia de racismo. Se ele não gostasse dos gays, não ia botar essa lei que ele aprovou agora, da homofobia.

Como também concordo que a maioridade penal deveria diminuir. Se uma pessoa de 11 anos matou [alguém], ela tem que ficar lá [na prisão] pelo resto da vida. Para mim não tinha nem que ter visita íntima, só do pai e da mãe. Vejo muita gente não fazendo nada [na Fundação Casa], voltam cada vez piores.

Acho que, quanto mais polícia na rua, menos bandido vai ficar à solta. Porque eles não vão botar a cara a bater. Tem que ter controle do policiamento, controlar a corrupção dentro da polícia, dentro da política, de todos. Igual esse Coaf, que tiraram do Moro. Por que o pessoal tirou dele? Porque quem é corrupto não quer ser pego.

O povo acha que ele [Bolsonaro] vai aprovar a lei da arma e você vai achar na prateleira do supermercado. É o que muitos acreditam! A violência está ruim. O armamento não vai adiantar em nada. Não sou contra nem a favor, fico no meio-termo. Os policiais é que devem ter arma, nós não. A pessoa já é estressada no dia-a-dia. Com uma arma na mão, ela só vai fazer mais cagada. A arma mais barata deve ser a partir de R$ 5 mil. Eu não tenho nem R$ 2 mil! Então quem tem dinheiro [para comprar]? Quem é classe média-alta, né. Porque na comunidade vai ser muito difícil você achar alguém armado.

Quando a gente parar de criticar e fizer, o mundo vai para frente. Tem que fazer pelo próximo, e não esperar o próximo fazer pela gente.

Severino Gonçalves da Silva​

Evangélico, o servidor público Severino Gonçalves da Silva, 45, acredita que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) está sendo criticado por contrariar interesses históricos no âmbito político.

Agente de ressocialização na secretaria estadual de Pernambuco, ex-segurança privado, Silva é a favor de flexibilizar a posse de armas, acredita que a família tradicional é a base da sociedade e defende que a educação sexual fique longe do ambiente escolar.

Eleitor de Bolsonaro nos dois turnos, diz que a religião é o fundamento de tudo. Divorciado e pai de uma adolescente de 17 anos, Severino ganha R$ 1,3 mil e tem esperança em dias melhores para a economia brasileira.

Severino Gonçalves da Silva, 45, vive em Recife (PE)
Severino Gonçalves da Silva, 45, vive em Recife (PE) - Thiago Lemos/Folhapress

A família é uma instituição divina que precisa ser bastante sólida. É a base necessária para enfrentarmos os problemas individuais e coletivos.

Temos atravessado uma fase muito difícil no nosso país, com diversos escândalos nos mais variados setores.

Os políticos fazem promessas durante a campanha e aproveitam o pouco esclarecimento da população e ausência de meios de fiscalização para perpetuar esta enganação. De uma maneira genérica, é assim que os vejo.

É decepcionante para o eleitor quando promessas não são cumpridas. Acho que, de certa maneira, o presidente Jair Bolsonaro, como tem pouco tempo ainda, está sendo muito firme e determinado naquilo que propôs ao país.

Ainda não é possível fazer uma análise profunda. Até agora, têm aparecido críticas em relação a diversas coisas.

Dizem que ele atua com radicalismo. Não vejo assim. Ele tem contrariado certos interesses no âmbito político e enfrenta obstáculos para executar suas ideias.

A flexibilização da posse de armas é um dos pontos. Eu não sou contra. Evidente que requer bastante cuidado. Em que mãos essas armas estarão? O controle é necessário para não ser algo que gere mais violência.

Defendo os direitos humanos. Acho que são valores importantes. A gente escuta muita gente falar que direitos humanos só servem para defender bandidos. Não é bem assim.

Tudo precisa ter ligação com a religião. É a nossa ligação com Deus. O homem que não tem Deus em sua vida pratica aberrações.

Os homossexuais, por exemplo, do ponto de vista bíblico, estão errados. O homossexualismo desconstrói a base da família. 

Não pode existir família constituída entre pessoas do mesmo sexo. A palavra de Deus criou o homem e a mulher. Criou Adão e Eva. Não criou Adão e Ivo.

A sociedade quer impor uma mudança radical contra os princípios bíblicos. Daí a gente observa situações difíceis porque os princípios morais não são preservados.

A questão da educação sexual, por exemplo, não deve ser tema do ambiente escolar. Educação sexual deve ser papel da família, do pai e da mãe. Não da escola.

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