Não sabia de delação, diz Deltan sobre empresa que o contratou para palestra

Procurador afirma que não leu documento que mencionava a Neoway que circulou em chat que ele participava

Flávio Ferreira
São Paulo

O procurador da República Deltan Dallagnol afirmou que antes de dar palestra remunerada para a empresa Neoway não teve conhecimento de que a companhia já havia sido citada na Lava Jato.

Em entrevista à Folha, Deltan também defendeu a realização de palestras para várias empresas e negou que esse trabalho cause prejuízos à sua atividade como procurador.

O coordenador da Lava Jato salientou que já recusou convites quando verificou que eles levavam a situações de conflitos de interesses e enviou à reportagem três e-mails que demonstram situaçōes nas quais não aceitou ofertas em razão desse problema.

Deltan Dallagnol, durante palestra em evento sobre cirurgia plástica, em 2017, em São Paulo
Deltan Dallagnol, durante palestra em evento sobre cirurgia plástica, em 2017, em São Paulo - Marcelo Justo - 14.jun.17/Folhapress

O procurador também ressaltou que o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) analisou a atividade de palestras dele em 2017 e considerou que ela se enquadra na hipótese de docência permitida em lei.

Quanto ao fato de a Neoway ter sido mencionada em documentos de delação premiada que circularam em 2016 e 2017 em um grupo de conversa dos procuradores, Deltan não quis comentar sobre o chat especificamente, mas disse que participava de centenas de diálogos, e não tinha como ler tudo que era postado.

“Não reconheço a autenticidade e a integridade dessas mensagens, mas o que posso afirmar, e é fato, é que eu participava de centenas de grupos de mensagens, assim como estou incluído em mais de mil processos da Lava Jato. Esse fato não me faz conhecer o teor de cada um desses processos. Se, por acaso, por hipótese, eu tivesse feito parte [do grupo no qual a Neoway apareceu em documentos], certamente não tomei conhecimento. Se soubesse não teria feito, e, sabendo, me afastei.”

O afastamento ocorreu formalmente em junho de 2019, quando ele informou à Justiça sua suspeição para participar dos casos relativos à Neoway.

Deltan também negou irregularidade por ter acionado um assessor da Procuradoria para avaliar o desempenho dele em vídeo da Neoway.

“Não vou entrar em conteúdo de supostas mensagens, mas normalmente quando vou a eventos, somos chamados a falar para várias pessoas, inclusive do evento, e todas essas falas podem tocar em aspectos do caso Lava Jato, em aspectos institucionais. Supondo que essa mensagem tenha existido, a preocupação ali não era se eu apareci bem ou mal, não seria por um interesse privado, seria pela questão institucional, porque eu vou lá falar de um tema de cidadania, de ética, de combate à corrupção.”

Indagado sobre se não seria inadequado o relacionamento dele com muitas empresas, por aumentar o risco de situações de conflito de interesses, Deltan disse que os limites estão definidos em lei.

“A questão que você coloca em relação às palestras poderia ser colocada em relação à vida social das pessoas. Será que é conveniente que se tenha vida social? Isso pode gerar um risco de conflito de interesses. A questão não é essa, a questão deve ser se a atividade de palestras é legal e legítima”, afirmou o procurador.

O procurador também rebate os críticos que afirmam que ele está usando um cargo e um caso público para ter um proveito pessoal indevido.

“O fato de você estar em um caso grande não deve ser um impeditivo para que você tenha uma atividade docente, para que você leve boas mensagens para a sociedade. Essa é uma atividade na qual eu acredito, é um propósito legítimo. É como um médico que presta um serviço. Ele recebe por isso, mas isso está subordinado à saúde, ele fez um juramento de proteger a saúde. Isso é coerente com minha história”, afirmou.

A Folha também abordou o tema de reportagem anterior, sobre as mensagens terem mostrado que Deltan tinha feito planos para montar uma empresa e lucrar com a fama obtida na Lava Jato.

O procurador disse que nunca adotou qualquer procedimento para abrir empresa e que as mensagens publicadas não correspondem à realidade.

“Sempre que nós desempenhamos uma atividade foi no aspecto docente. Não tenho empresa, não tive empresa, não fiz nenhum procedimento para constituir empresa, não fiz nenhuma parceria. Se fosse em algum momento cogitado, isso seria cogitado de modo legal. Eu não me reconheço naqueles supostos diálogos em que se coloca ‘vamos lucrar’. Aquilo não reflete a realidade”, disse.

Questionado sobre se não seria apropriado tornar públicas todas as informações sobre suas palestras, Deltan disse que elas são de cunho pessoal e são encaminhadas à Corregedoria do Ministério Público e à Receita.

“Eu atuo de acordo com a regulamentação. A atividade traz um benefício social, que é coerente com os propósitos do meu trabalho. A maior parte das palestras é gratuita.”

Após falar sobre as palestras, o procurador disse que não iria responder questōes sobre outros temas ligados às mensagens analisadas pela Folha e pelo Intercept.

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