Veja o que já foi publicado pela Folha com base em mensagens da Lava Jato

Jornal teve acesso ao pacote de mensagens obtido pelo site The Intercept Brasil e passou a publicar material com base no acervo

São Paulo

Em 9 de junho, o site The Intercept Brasil divulgou pela primeira vez mensagens que mostram colaboração entre o então juiz Sergio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol quando ambos integravam a força-tarefa da Operação Lava Jato. 

Moro, que hoje é ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro (PSL), foi o juiz responsável pela operação em Curitiba. Ele deixou a função ao aceitar o convite do presidente, em novembro, após a eleição.

​O site informou que obteve o material de uma fonte anônima, que pediu sigilo. O pacote inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa trocadas no aplicativo Telegram desde 2015.

Para a Polícia Federal, Walter Delgatti Neto, preso na última terça-feira (23) sob suspeita de atuar como hacker, foi a fonte do material.

Em 23 de junho, a Folha começou a publicar, em parceria com o The Intercept Brasil, material com base nas mensagens trocadas entre os membros da operação. O jornal teve acesso ao pacote de mensagens e passou a analisar seu acervo.

Folha não detectou nenhum indício de que ele possa ter sido adulterado. O jornal já publicou dez reportagens decorrentes deste acesso.

Folha não comete ato ilícito para obter informações, nem pede que ato ilícito seja cometido neste sentido; pode, no entanto, publicar informações que foram fruto de ato ilícito se houver interesse público no material apurado.

O então juiz federal Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol
O então juiz federal Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol - Jorge Araújo/Folhapress

Lava Jato articulou apoio a Moro diante de tensão com STF

(23 de junho) Procuradores na linha de frente da Operação Lava Jato se articularam para proteger Sergio Moro e evitar que tensões entre ele e o Supremo Tribunal Federal paralisassem as investigações num momento crítico para a força-tarefa em 2016, segundo as mensagens privadas enviadas anonimamente ao The Intercept Brasil e analisadas pela Folha.

O objetivo era evitar que a divulgação de papéis encontrados pela Polícia Federal na casa de um executivo da Odebrecht acirrasse o confronto com o Supremo ao expor indevidamente dezenas de políticos que tinham direito a foro especial. Na época, Moro pediu a Deltan que ajudasse a conter o grupo antipetista MBL (Movimento Brasil Livre), após um protesto em frente ao apartamento do ministro Teori Zavascki.

Procurado, Moro afirmou que sempre respeitou o MBL e voltou a criticar a invasão de celulares. A equipe de procuradores da Lava Jato não se manifestou até a publicação do texto.

Lava Jato desconfiou de empreiteiro pivô da prisão de Lula

(30 de junho) O empreiteiro que incriminou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no caso que o levou à prisão foi tratado com desconfiança pela Operação Lava Jato durante quase todo o tempo em que se dispôs a colaborar com as investigações, segundo as mensagens.

As conversas indicaram que Léo Pinheiro, ex-presidente da construtora OAS, só passou a ser considerado merecedor de crédito após mudar diversas vezes sua versão sobre o apartamento tríplex de Guarujá (SP) que a empresa afirmou ter reformado para o líder petista. Léo Pinheiro só apresentou a versão que incriminou Lula em abril de 2017, mais de um ano depois do início das negociações com a Lava Jato.

A força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba afirma que o material apresentado pela reportagem não permite constatar o contexto e a veracidade do conteúdo.  A Procuradoria-Geral da República não se manifestou. O advogado da OAS, Bruno Brasil, também não se manifestou. 

Lava Jato e Moro atuaram para expor dados sigilosos sobre Venezuela

(7 de julho) Integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato se mobilizaram para expor informações sigilosas sobre corrupção na Venezuela após receber uma sugestão do então juiz federal Sergio Moro, em agosto de 2017. Os diálogos indicam que o objetivo principal da iniciativa era dar uma resposta política ao endurecimento do regime imposto pelo ditador Nicolás Maduro ao país vizinho.  

As mensagens mostram que a Procuradoria-Geral da República e a força-tarefa de Curitiba dedicaram meses de trabalho ao projeto, chegaram a trocar informações com procuradores venezuelanos perseguidos por Maduro e vasculharam contas usadas pela Odebrecht para pagar suborno a autoridades do regime na Suíça.

O ministro Sergio Moro não quis fazer comentários sobre o conteúdo das mensagens. Ele reafirmou seu posicionamento, pondo em dúvida a autenticidade. A força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba seguiu a mesma linha. A Procuradoria-Geral da República e a Odebrecht não se manifestaram sobre o assunto. 

Deltan montou plano para lucrar com fama da Lava Jato

(14 de julho) O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, montou um plano de negócios de eventos e palestras para lucrar com a fama e contatos obtidos durante as investigações do caso de corrupção, apontam as mensagens analisadas. 

Em um chat sobre o tema criado no fim de 2018, Deltan e um colega da Lava Jato discutiram a constituição de uma empresa na qual eles não apareceriam formalmente como sócios, para evitar questionamentos legais e críticas.

O coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, afirmou que realiza palestras para promover a cidadania e o combate à corrupção e que esse trabalho ocorre de maneira compatível com a atuação no Ministério Público Federal.

Mensagens apontam que Moro interferiu em negociação de delações

(18 de julho) Mensagens privadas trocadas por procuradores da Operação Lava Jato em 2015 mostram que o então juiz federal Sergio Moro interferiu nas negociações das delações de dois executivos da construtora Camargo Corrêa, cruzando limites impostos pela legislação para manter juízes afastados de conversas com colaboradores.

Os diálogos revelam que Moro avisou aos procuradores que só homologaria as delações se a pena proposta aos executivos incluísse pelo menos um ano de prisão em regime fechado. A Lei das Organizações Criminosas, de 2013, que definiu regras para os acordos de colaboração premiada, diz que juízes devem se manter distantes das negociações.

O ministro da Justiça, Sergio Moro, afirmou que não participou das negociações de nenhum acordo de colaboração premiada na época em que foi o juiz responsável pelos processos da Operação Lava Jato no Paraná, de 2014 a 2018. Ele também afirmou que juízes têm o dever de recusar benefícios excessivos para delatores.

A força-tarefa da Lava Jato em Curitiba afirmou que não se manifestaria sobre o assunto sem ver os diálogos, e as defesas dos ex-diretores da Camargo Corrêa que fecharam acordos de colaboração premiada também não quiseram se manifestar.

Deltan foi pago por palestra em empresa citada pela Lava Jato

(26 de julho) O procurador da República Deltan Dallagnol fez uma palestra remunerada no valor de R$ 33 mil para uma empresa que havia sido citada em um acordo de delação em caso de corrupção na própria força-tarefa da Lava Jato, de acordo com as mensagens analisadas.

A firma do setor de tecnologia Neoway, que contratou Deltan, foi mencionada pela primeira vez em um documento de colaboração que foi incluído em um chat dos procuradores da operação em março de 2016, dois anos antes da palestra. 

Além de participar do evento remunerado da companhia, em março de 2018, Deltan aproximou membros da Procuradoria e representantes da Neoway com o objetivo de viabilizar o uso de produtos dela em um trabalho da força-tarefa, da qual é coordenador em Curitiba.

Deltan afirmou à Folha que não sabia que a empresa Neoway era citada em delação. O procurador também voltou a dizer que não reconhece a autenticidade das mensagens.

Moro achava fraca delação de Palocci que divulgou às vésperas de eleição

(29 de julho) Considerações políticas influenciaram a decisão do então juiz Sergio Moro de divulgar parte da delação do ex-ministro Antonio Palocci a seis dias do primeiro turno da eleição presidencial do ano passado, sugerem mensagens trocadas na época por procuradores da Operação Lava Jato.

Os diálogos indicam que Moro tinha dúvidas sobre as provas apresentadas por Palocci, mas achava sua colaboração relevante mesmo assim por representar uma quebra dos vínculos que uniam os petistas desde o início das investigações.

O Ministério da Justiça e a força-tarefa à frente da Operação Lava Jato em Curitiba defenderam a validade da delação do ex-ministro Antonio Palocci, mas não quiseram comentar críticas feitas por procuradores e atribuídas ao então juiz Sergio Moro quando seus termos se tornaram públicos.​

Deltan incentivou cerco da Lava Jato a Toffoli

(1º de agosto) O procurador Deltan Dallagnol incentivou colegas em Brasília e Curitiba a investigar o ministro Dias Toffoli sigilosamente em 2016, numa época em que o atual presidente do Supremo Tribunal Federal começava a ser visto pela Operação Lava Jato como um adversário disposto a frear seu avanço.

Mensagens apontam que Deltan, coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, buscou informações sobre as finanças pessoais de Toffoli e sua mulher e evidências que os ligassem a empreiteiras envolvidas com a corrupção na Petrobras.

A força-tarefa em Curitiba afirmou que é seu dever encaminhar à Procuradoria-Geral da República informações sobre autoridades com direito a foro especial no Supremo Tribunal Federal sempre que as recebe, e que isso tem sido feito de forma legal.

Moro omitiu palestra palestra remunerada em prestação de contas como juiz federal

(4 de agosto) O ministro da Justiça, Sergio Moro, omitiu uma palestra remunerada que deu em setembro de 2016 ao prestar contas de suas atividades quando era o juiz responsável pelas ações da Operação Lava Jato em Curitiba. 

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região, responsável pela revisão dos processos da primeira instância do Paraná, informou à Folha que Moro declarou ter participado de 16 eventos externos em 2016. Mas a lista não inclui uma palestra mencionada em mensagem que ele enviou ao procurador Deltan Dallagnol pelo aplicativo Telegram em 2017.

O Ministério da Justiça afirmou que a omissão da palestra na prestação de contas de Moro pode ter sido um descuido e informou que a maior parte do cachê recebido foi doada a uma entidade beneficente.

Corregedor da Procuradoria viu conduta grave de Deltan, mas não abriu apuração

(8 de agosto) Em julho de 2017, o então corregedor-geral do Ministério Público Federal, Hindemburgo Chateaubriand Filho, criticou informalmente a conduta do procurador da República Deltan Dallagnol na divulgação de uma palestra, ressaltou a gravidade da situação, mas deixou de abrir apuração oficial.

O caso envolveu a divulgação feita por Deltan de uma palestra na qual ele prometia revelações inéditas sobre a Lava Jato e que teria cobrança de ingresso dos participantes.

A Corregedoria-Geral do Ministério Público Federal afirmou que o titular do órgão não precisa ter o distanciamento das partes típico da atividade dos juízes e pode manter contatos e receber informações antecipadas de procuradores. Já a força-tarefa da Lava Jato diz que conversas e antecipações de informações ao corregedor-geral não são ilegais.

Ex-presidente da OAS diz ter liberado R$ 1 milhão em propina a vice de Doria

(16 de agosto) Ex-presidente da OAS preso pela Lava Jato em Curitiba, o empresário Léo Pinheiro disse ter autorizado o pagamento de R$ 1 milhão em espécie a Rodrigo Garcia (DEM) para acelerar liberação de verba para obra da linha 4 do Metrô de São Paulo.

Garcia, em 2018, se elegeu vice na chapa de João Doria (PSDB). Ele nega ter cometido irregularidades.

Esse episódio, segundo Léo Pinheiro afirmou a autoridades, ocorreu em 2007, quando Garcia era deputado estadual. O relato consta em proposta da delação do empresário compartilhada entre procuradores do Ministério Público Federal da Lava Jato no aplicativo Telegram.

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