Não dependo de quem votou a favor de Aécio para ter vida política, diz Doria

Prefeito Bruno Covas, que ameaçou deixar o PSDB, diz que insistirá na saída do mineiro

Carolina Linhares
São Paulo

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), minimizou nesta quinta (22) a derrota política que sofreu na véspera, quando a executiva nacional do PSDB rejeitou dois pedidos de expulsão do deputado Aécio neves (PSDB-MG). 

Doria, que defende a saída de Aécio e quer disputar a Presidência em 2022, disse que não depende politicamente daqueles que votaram a favor do mineiro na cúpula do partido. Foram 30 votos a favor de Aécio e apenas 4 contrários. 

"Fui eleito com mais de 13 milhões de votos, eu não dependo de 34 votos [na verdade, foram 30 a favor de Aécio] para ter vida política, e muito menos o Bruno Covas, que foi eleito comigo prefeito da capital de São Paulo", disse.

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O governador de São Paulo, João Doria, e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas - Futura Press/Folhapress

O prefeito de São Paulo, que busca a reeleição no ano que vem, também defende a saída de Aécio e chegou a dizer "ou eu ou ele", condicionando sua permanência no PSDB à expulsão do mineiro. Nesta quinta, ao falar com jornalistas ao lado de Doria, Covas deu a entender que não deve deixar a sigla por ora. Seu plano é insistir em tirar Aécio. 

"Perdemos a batalha, mas não perdemos a guerra. Continuamos a trabalhar para que ele possa sair do PSDB", disse. O diretório municipal do PSDB estuda recorrer ao diretório nacional, órgão com mais membros do que a executiva, para que o caso de Aécio seja levado a julgamento pelo conselho de ética do partido. 

Covas também cogita recorrer à Justiça. "Quero lamentar a decisão do PSDB, dizer que estou extremamente decepcionado com a decisão. O PSDB de Aécio definitivamente não é o meu PSDB", completou. 

Os pedidos de expulsão rejeitados pela executiva do PSDB nesta quarta (21) foram formulados pelos diretórios municipal e estadual de São Paulo, controlados por Covas e Doria, respectivamente. 

Relator e aliado do mineiro, o deputado Celso Sabino (PSDB-PA) apresentou parecer contrário à admissibilidade das representações. A maioria da executiva acompanhou o entendimento, travando a possibilidade de os casos avançarem para o conselho de ética do partido.

Se não encontrou respaldo em seu partido para a investida contra Aécio, Doria afirmou que está em sintonia "com aqueles que têm opinião próxima da nossa, de renovação, de decência, de modernidade e de honestidade". 

"Nosso compromisso é com a população brasileira, não com 34 [na verdade 30]... Respeitamos o voto dos 34 da executiva que foram favoráveis a Aécio Neves. Eles que respondam para a opinião pública por que mantiveram Aécio Neves dentro do PSDB", completou.

Desde que venceu as eleições de 2018, na qual o PSDB teve resultado ruim na disputa presidencial e também no Congresso, Doria tem buscado controlar o partido e repaginá-lo, chamando de "novo PSDB". Seu objetivo é concorrer à Presidência em 2022 e, para evitar nova derrota eleitoral, quer afastar aqueles envolvidos em corrupção.

O governador afirmou que Aécio deveria se afastar "permitindo que o partido não viva essa idiossincrasia, não viva esse conflito". E disse também que continuará defendendo o "novo PSDB", "com princípios éticos". 

"Vamos ter que fazer um enfrentamento daqueles que ainda querem o velho PSDB, o PSDB antigo, que esconde sujeiras e problemas debaixo do tapete, que adia decisões, que gosta de caminhar acima do muro", disse. 

"Como sou perseverante, vou levar isso até o fim. Saberemos o lado bom, o lado daqueles que querem um partido moderno, vibrante, próximo da população, para ser vencedor e não ser um partido de derrotados, será o partido que praticará a justiça, a decência e a transparência", completou. 

Doria afirmou ainda que a saída de Aécio é necessária "para que não haja prejuízo ao PSDB" e mencionou as eleições do ano que vem. Essa é também a preocupação de Covas. Pesquisas internas mostram que Aécio atrapalha o desempenho eleitoral dos tucanos.

"Vou insistir para que o partido possa compreender a derrota que sofreu na última eleição, e parte dessa derrota se deve ao fato de não fazer esse tipo de limpeza, de não fazer esse tipo de ação, de colocar para fora aqueles que estão envolvidos em casos de corrupção", disse Covas. 

Doria voltou a defender a solução que considera melhor para o impasse tucano: que Aécio peça afastamento e se defenda das acusações de corrupção na Justiça fora do PSDB. Se absolvido, poderia retornar ao partido. 

"Eu não quero a condenação do Aécio Neves, eu não sou juiz. [...] Não estamos condenando Aécio Neves, estamos dando a ele o direito de se defender. Direito aliás que ele deve exercer na plenitude, confiando na sua inocência e confiando na Justiça brasileira. [...] Para quem tem a consciência tranquila, não há medo de enfrentar a Justiça", afirmou. 

Presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo afirmou que a decisão desta quarta é “definitiva”. “O assunto Aécio Neves em relação aos fatos apresentados está encerrado”, disse.

​Aécio é investigado em uma série de inquéritos e se tornou réu, em abril de 2018, sob acusação de corrupção passiva e obstrução da Justiça. O deputado ainda não foi julgado.

O deputado é réu no processo relativo ao episódio em que foi gravado, em março de 2017, pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS. Aécio nega a prática de crimes e diz que o dinheiro era um empréstimo pedido a Joesley.

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