Resistência à prisão isolou 'doleiro dos doleiros' e inviabilizou delação

Dario Messer não conseguiu acordo, que já foi obtido por filhos e ex-mulher

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Vem de Enrico Machado, ex-sócio de Dario Messer, uma definição sobre o “doleiros dos doleiros” que explica a sequência de decisões do empresário que levaram nesta quarta-feira (31) à sua prisão.

“Ele tem uma realidade dele. Ele acha determinada coisa. [Messer dizia:] ‘Eu sou um cara que não tem problema nenhum com a Justiça e não faço nada errado. Eu financio o câmbio. É isso que eu faço’”, disse Machado ao juiz Marcelo Bretas em junho do ano passado.

Foi essa postura que fez, segundo relatos ouvidos pela Folha, o doleiro perder em dois anos e meio a chance de se tornar um colaborador da Lava Jato e virar o alvo número um após um ano e três meses foragido.

Messer começou a discutir uma delação com seus advogados no primeiro trimestre de 2017. Mas a recusa em permanecer um dia sequer preso dificultou qualquer tratativa. Acabou detido isolado, após a colaboração premiada de seus dois sócios, uma funcionária, três filhos e a ex-mulher.

O doleiro Dario Messer, ao ser preso em São Paulo nesta quarta-feira (31/7)
O doleiro Dario Messer, ao ser preso em São Paulo nesta quarta-feira (31/7) - Divulgação

O doleiro era quem dava lastro financeiro e de confiança no mercado ilegal para a dupla Vinicius Claret e Cláudio Barboza, sócios minoritários num banco paralelo que movimentou US$ 1,6 bilhões (o equivalente a cerca de R$ 5,3 bilhões) entre 2011 e 2017 envolvendo mais de 3.000 offshores em 52 países.

O empresário herdou o dinheiro, clientes e o sobrenome do pai, Mordko Messer, doleiro que dominava a operação dólar-cabo no Rio de Janeiro por meio de agências de turismo na década de 1980. Claret e Barboza trabalharam com o patriarca e se mantiveram no esquema junto com o filho de seu mentor até março de 2017, quando foram presos.

A estrutura mantida por Messer era uma das poucas que conseguia operar as duas pontas do dólar-cabo: ao mesmo tempo, oferecer dinheiro vivo no país e ter caixa disponível em contas no exterior, em paraísos fiscais. Mais de 50 doleiros usavam o esquema dele para atender seus clientes.

Eram Claret e Barboza que operavam o sistema. Conheciam as contas usadas no exterior, bem como as formas de obter e armazenar o dinheiro vivo no Brasil. Mas era a fortuna de Messer que dava lastro para as operações. E era o seu sobrenome que, num mercado que exige confiança e discrição, levava os clientes.

A delação se tornou uma opção discutida por Messer no início da 2017, após a homologação da colaboração de executivos da Odebrecht. Os nomes de Claret e Barboza já havia aparecido nos registros da empreiteira, uma das principais clientes do banco paralelo do doleiro.

A partir daquele momento, se discutia uma delação conjunta, incluindo os três, além dos familiares de Messer. O doleiro aceitava perder boa parte da fortuna, mas não queria ir para a cadeia. Fortalecia a resistência dele o fato da opção pela colaboração não ser unânime na extensa equipe de advogados.

Numa reunião em 3 de março de 2017, a equipe discutia com Messer o cenário. O advogado uruguaio Oscar Algorta —também suspeito de lavar dinheiro— sugeriu que o doleiro poderia ir para o seu país, onde, garantia ele, as investigações não alcançariam seu cliente.

A sugestão mostrou-se equivocada no mesmo dia, quando a dupla Claret e Barboza foi presa no Uruguai, a pedido da Justiça brasileira.

Eles tinham mandados de prisão expedidos por Marcelo Bretas em decorrência da Operação Eficiência, em fevereiro de 2017. Pela estrutura gigantesca gerida pelos dois, passaram cerca de US$ 3 milhões do ex-governador Sérgio Cabral.

Claret e Barboza foram classificados na ocasião como doleiros do emedebista, mas eles só se conheceram na prisão. Os reais operadores de Cabral, os irmãos Renato e Marcelo Chebar, usaram o sistema de Messer para movimentar os recursos do ex-governador.

Mesmo com a prisão, as equipes dos doleiros mantiveram a discussão de uma colaboração em conjunto. Os relatos dos três eram vistos como complementares.

Em julho, Dario Messer encontrou-se com o procurador José Augusto Vagos, membro da força-tarefa da Lava Jato que atuou em investigações sobre o doleiro desde o início dos anos 2000, para iniciar a negociação sobre uma possível delação.

O encontro foi visto como desastroso para o investigado, já que manteve a postura descrita por Enrico, ex-sócio com quem rompeu em 2011. Ele evitou assumir responsabilidade e citou uma atuação tímida no esquema.

De fato, eram Claret e Barboza quem operavam todo o sistema dólar-cabo e detinham as informações sobre os doleiros que utilizavam sua estrutura. Mas enquanto cada um dos dois ficavam com 18% dos rendimentos do negócio, Messer retinha 60% —outros 4% eram destinados aos custos operacionais.

Entre 2011 e 2017, seus rendimentos com o banco paralelo chegaram a ao menos US$ 24 milhões, segundo as investigações

Aos poucos, a dupla se distanciou das negociações de Messer. De posse de todos os arquivos eletrônicos do banco paralelo que montaram, Claret e Barboza firmaram a própria delação no início de 2018. Aceitaram ficar presos por, no total, um ano e dois meses. Foram soltos no dia 3 de maio de 2018, data da deflagração da Operação Câmbio, Desligo, que teve como alvo 53 doleiros, entre eles Messer.

A partir dali, ele se tornou foragido.

Mesmo antes da Câmbio, Desligo, Messer manteve canais de discussão com o Ministério Público Federal para negociar sua delação. Mas uma escuta telefônica de Marcelo Rezinszki, um dos acusados de usar a estrutura do doleiro, jogou um balde de água fria nas negociações. Investigadores viram no diálogo indícios de que o doleiro repassara informações das tratativas com os procuradores ao outro investigado.

Após um ano de fuga, Messer anuiu com a delação de seus três filhos, a ex-mulher e uma funcionária. Eles entregaram R$ 270 milhões às autoridades, além de relatar como o dinheiro era usado para manter seus bens no Brasil. Eles também se comprometeram a informar o paradeiro do doleiro foragido, caso soubessem —os novos colaboradores negavam ter ciência de onde ele estava.

As investigações da PF indicam que, enquanto esteve foragido, Messer transitou com identidades falsas entre Paraguai e Brasil. Ele foi preso na casa de uma amiga nos Jardins, em São Paulo, com um RG falso e a fisionomia distinta da que exibia nas festas cariocas. 

Procuradores esperam que esses elementos, que indicam sua indisposição em se entregar, sejam o suficiente para que sua prisão preventiva não seja revogada. É também um empecilho para uma eventual tentativa de colaboração sem um período extenso em regime fechado —o que Messer queria evitar.

Mesmo que se disponha a falar, há resistência entre procuradores que atuam no caso para um acordo. Messer virou um símbolo no combate aos crimes financeiros, uma espécie de "Cabral dos doleiros", nas palavras de uma pessoa envolvida no caso.

Na Polícia Federal nesta quinta-feira (1º), Messer ficou calado. A Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro não divulgou para qual presídio ele foi levado.

Durante a tarde, o advogado dele, Atila Machado, pediu a reconsideração de uma decisão do ministro do  Superior Tribunal de Justiça Rogério Schietti que negou habeas corpus ao doleiro em maio.

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