Em contraponto a Carlos, Mourão diz que democracia é um pilar da sociedade

Presidente interino disse ser possível acelerar iniciativas do governo por meio do diálogo com o Legislativo

Gustavo Uribe
Brasília

Em um contraponto ao vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), o presidente interino, Hamilton Mourão, defendeu nesta terça-feira (10) a importância do regime democrático e disse que é possível aprovar medidas com mais celeridade negociando com o Poder Legislativo.

O general da reserva salientou que, se não fosse o regime democrático, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) não teria chegado ao comando do Poder Executivo e afirmou que o atual sistema político representa um dos "pilares da civilização ocidental".

"[A democracia é] fundamental, são pilares da civilização ocidental. Vou repetir para você: pacto de gerações, democracia, capitalismo e sociedade civil forte. Sem isso, a civilização ocidental não existe."

Segundo pesquisa Datafolha feita no mês passado, 70% da população diz acreditar que os filhos de Jair Bolsonaro mais atrapalham do que ajudam seu governo. 

Nas redes sociais, o filho do presidente escreveu na segunda-feira (9) que, por meios democráticos, não haverá as mudanças rápidas desejadas no país, o que foi visto como uma ameaça e criticado tanto por entidades civis como pela classe política.

"Lógico [dá para fazer mudanças], senão a gente não tinha sido eleito", disse Mourão. "Temos de negociar com a rapaziada do outro lado da praça [dos Três Poderes]. É assim que funciona. Com clareza, determinação e muita paciência."

Alvo recorrente de ataques de Carlos, Mourão ficará no comando da Presidência da República até quinta-feira (12).

As postagens de Carlos foram feitas enquanto seu pai está internado em São Paulo após passar por cirurgia no domingo (8), a quarta decorrente da facada que levou há um ano durante ato de campanha em Juiz de Fora (MG).

Carlos Bolsonaro pediu licença não remunerada da Câmara Municipal do Rio de Janeiro no último dia 6 de setembro. A comunicação foi publicada nesta terça-feira no Diário Oficial da Casa. Desde sábado (7) acompanhando o pai, ele tem dormido no Hospital Vila Nova Star, na zona sul de São Paulo.

Mourão foi questionado nesta terça, mas preferiu não emitir juízo de valor sobre a declaração do vereador. "Carlos Bolsonaro vocês perguntam para ele", disse o general. "Isso é problema dele, pergunte a ele."

Em conversas reservadas, integrantes tanto do núcleo militar como da equipe econômica têm criticado a postura do filho do presidente. Para eles, mais uma vez, Carlos tem atrapalhado o andamento do governo, gerando um desgaste de imagem.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o ex-governador do Ceará e ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT), criticaram nesta segunda a declaração de Carlos.

"Sem entrar na polêmica, eu penso o oposto. Só com a democracia é que nós podemos ter um país soberano, livre e capaz de produzir políticas sociais e políticas econômicas. É só com a democracia, não há nenhum outro caminho possível para o país. E eu estarei ao lado dos democratas", afirmou Doria.

Ciro cobrou uma manifestação de Bolsonaro a respeito e chamou Carlos de "percevejo". "É preciso que todos nós cobremos do Bolsonaro uma declaração explícita, clara, se esse menino está falando mais uma bobagem, mal-amado que é, percevejo da vida brasileira."

Um assessor do Palácio do Planalto ressaltou à Folha que o posicionamento ocorreu no pior momento, quando o Brasil já enfrenta críticas internacionais por conta das queimadas na floresta amazônica.

A equipe ministerial, contudo, tem evitado fazer críticas públicas ao filho do presidente, com receio de retaliações. O general Carlos Santos Cruz foi afastado do comando da Secretaria de Governo após protagonizar um embate público com o vereador.

"Isso não é da minha área", respondeu nesta terça-feira (10) o ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, ao ser questionado sobre a declaração polêmica.

Em episódios anteriores, auxiliares do presidente chegaram a defender que Bolsonaro chamasse a atenção do filho. Ele, no entanto, não seguiu o conselho, o que levou o núcleo militar a desistir de fazer um enfrentamento público com o vereador.

Dizendo-se desgostoso com a política, Carlos tem dito a aliados que desistiu de concorrer à reeleição à Câmara do Rio —está em seu quinto mandato seguido— e lançou a própria mãe, Rogéria, para a disputa. 

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), afirmou que declarações como a de Carlos Bolsonaro "merecem desprezo".

"O Senado Federal, o Parlamento brasileiro, a democracia estão fortalecidos. As instituições todas estão pujantes, trabalhamos a favor do Brasil. Então, uma manifestação ou outra em relação a este enfraquecimento tem, da minha parte, o meu desprezo", reagiu.

Histórico

A família Bolsonaro tem um histórico de declarações de exaltação ao período da ditadura militar, que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

Na campanha de 2018, uma declaração de outro filho do atual presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), sobre fechar o STF (Supremo Tribunal Federal) foi repudiada no meio jurídico e político.

Em vídeo gravado em julho e disponível na internet, mas que veio à tona a uma semana do segundo turno, ele respondia a pergunta sobre uma hipotética possibilidade de ação do Exército em caso de o STF impedir que Bolsonaro assuma a Presidência.

"Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não", disse.

Outro filho político do presidente, senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), virou alvo de investigação após movimentações atípicas de seu ex-assessor Fabrício Queiroz. 

Em resposta às postagens de Carlos, alguns internautas aproveitaram para cobrar uma ação de Flávio a favor da CPI da Lava Toga, cujo propósito é investigar ministros de cortes superiores.

No entanto, Flávio tem trabalhado para que parlamentares retirem assinaturas para inviabilizar a criação da CPI.

Nesta terça, inclusive, a senadora Juíza Selma (PSL-MT) divulgou nota em que afirma que pode deixar o partido por causa de pressão para retirar apoio à comissão para investigar integrantes do Supremo.

"A senadora juíza Selma esclarece que devido a divergências políticas internas, entre elas a pressão partidária pela derrubada da CPI da Lava Toga, está avaliando a possibilidade de não permanecer no PSL", diz a nota.

OUTRAS POLÊMICAS DE CARLOS BOLSONARO NO TWITTER

Demissão de Bebianno
Em fevereiro, Gustavo Bebianno foi demitido da Secretaria-Geral da Presidência após uma crise desencadeada por uma postagem de Carlos. O filho do presidente postou no Twitter que o então ministro havia mentido ao jornal O Globo ao dizer que conversara com Bolsonaro três vezes na véspera, negando a turbulência política causada pelas denúncias das candidaturas laranjas no PSL. O post foi reproduzido na página de Bolsonaro.

Críticas a Mourão
Nas redes sociais, Carlos já fez diversas críticas ao vice-presidente, o general Hamilton Mourão. Em abril, quando o vice foi convidado a dar uma palestra nos EUA e foi anunciado como “uma voz de razão e moderação, capaz de orientar a direção em assuntos nacionais e internacionais”, Carlos escreveu um comentário recheado de ironias e disse que o jogo de Mourão estava muito claro

Ele também disse que o general tinha um estranho alinhamento com políticos que detestam o presidente, em referência a um comentário de Mourão lamentando a decisão de Jean Wyllys de deixar o Brasil e não tomar posse como deputado federal. 

Em outro episódio, desta vez em junho, quando Bolsonaro estava em visita oficial na Argentina, Carlos escreveu que tinha saudades do presidente de verdade “pró-armamento da população e contra o aborto”.

Demissão de Santos Cruz
Carlos foi acusado pelo general Carlos Alberto Santos Cruz, então chefe da Secretaria de Governo, de ter promovido um ataque virtual ao ministro. O caso aconteceu em maio, e a hashtag #ForaSantosCruz ficou entre as mais populares do Twitter. A disputa teria sido motivada pelo descontentamento de Carlos com a estratégia de comunicação da Presidência, a cargo do general. Em junho, Santos Cruz foi demitido.

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