Católicos conservadores veem comunismo em sínodo sobre Amazônia no Vaticano

Alinhados a Bolsonaro, eles lutam contra o que consideram a 'esquerdização' da igreja no encontro

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Comum no guarda-roupa do papa e de seu bispado, o vermelho tem várias simbologias, como a de representar o sangue do martírio de Jesus Cristo. Para alas direitistas da Igreja Católica, poderia servir também de dica para a infiltração comunista no Vaticano, e o Sínodo da Amazônia nada mais seria do que uma peça desse quebra-cabeça marxista. 

O encontro entre pontífice e bispos da região amazônica, que começou no último domingo (6) e se estende até o fim deste mês, teria como meta espalhar a "utopia comunotribalista pela qual uma minoria de antropólogos neomarxistas pretende manter nossos irmãos indígenas no subdesenvolvimento, confinando-os num gueto étnico-cultural, verdadeiros 'zoológicos humanos'".

Esse trecho consta num abaixo-assinado proposto pelo IPCO (Instituto Plínio Corrêa de Oliveira), entidade que traz no nome o fundador da ultraconservadora organização católica TFP (Tradição, Família e Propriedade).

Foi esse texto que deu a tônica de uma conferência que reuniu cerca de 200 pessoas no hotel Quirinale, em Roma, no fim de semana de estreia do sínodo

Bertrand de Orleans e Bragança, herdeiro da família real brasileira e autor de 'Psicose Ambientalista', durante evento em Roma (Itália) crítico ao Sínodo da Amazônia
Bertrand de Orleans e Bragança, herdeiro da família real brasileira e autor de 'Psicose Ambientalista', durante evento em Roma (Itália) crítico ao Sínodo da Amazônia - Tiziana Fabi - 5.out.2019/AFP

Falavam ali vozes que por anos habitaram as franjas do catolicismo brasileiro, mas que agora ganham projeção, em boa parte por causa da simpatia que lhes tem a família Bolsonaro.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), por exemplo, participou em maio de um evento promovido pelo IPCO, conhecido pelas intervenções de seu grupo jovem, que levava sua fanfarra às ruas para combater a descriminalização do aborto e outras causas progressistas.

Pois a causa agora é lutar contra o que percebem como esquerdização da Igreja Católica. Para tanto, contaram com palestras de Bertrand de Orleans e Bragança, herdeiro da família real brasileira e autor de "Psicose Ambientalista", e Jonas Marcolino, da etnia macuxi, um porta-voz dos indígenas de direita. Bernardo Küster, youtuber católico e dono de um dos 389 perfis seguidos pelo presidente Jair Bolsonaro no Twitter,  esteve presente como ouvinte.

Também palestrou o meteorologista e professor da Universidade Federal de Alagoas Luiz Carlos Molion. Coqueluche dos negacionistas da crise climática, ele sustentou no hotel romano que "tudo o que se diz sobre a Amazônia é balela".

Assim relatou à Folha o chileno José Antonio Ureta, líder da "pró-vida e pró-família" Fundación Romana e articulista do IPCO. Para ele, a conferência se prestou a "balançar um pouco reportagens excessivamente parciais, mostrando que há vozes dissonantes", na Igreja, sobre a serventia do evento convocado pelo papa Francisco. 

"Cantávamos fora do coro, e quem canta fora do tom parece estridente." Ureta reproduz uma ideia recorrente entre grupos conservadores, católicos ou não: a mídia seria massivamente de esquerda e acobertaria as reais intenções do encontro do bispado.

Daí a necessidade de nadar contra a corrente, o que Bertrand fez muito bem ao dizer que "o caráter muito doce e afetuoso do brasileiro vinha da caridade cristã", afirma Ureta.

O chileno mesmo deu seus pitacos, ao defender que a Teologia da Libertação, movimento latino-americano que clama por mudança social, "pregava o ódio das raças, colocava indígenas contra brancos e fazendeiros". 

Jonas Marcolino, da etnia macuxi, um porta-voz dos indígenas de direita, também participa de conferência anti-Sínodo da Amazônia em hotel de Roma
Jonas Marcolino, da etnia macuxi, um porta-voz dos indígenas de direita, também participa de conferência anti-Sínodo da Amazônia em hotel de Roma - Tiziana Fabi - 5.out.2019/AFP

Um artigo no site do IPCO resume a crítica contra o sínodo: seu objetivo seria "pregar a fossilização dos índios em seus costumes tribais" e "ir contra o mandato de Nosso Senhor: 'Ide, e evangelizai todos os povos'". Isso acontecerá, segundo o texto, caso a igreja ceda a "ritos pagãos" para se aproximar dos indígenas. 

O sinal vermelho acendeu com a fala de abertura do papa Francisco no sínodo: ele disse que a ação pastoral deve se esquivar de "colonizações ideológicas" e lembrou que, em sua Argentina natal, "um lema 'civilização e barbárie' serviu para dividir, aniquilar".

Se Francisco é visto com ressalvas, o que dizer de dom Cláudio Hummes, o brasileiro que preside a Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e é um dos cardeais mais próximos do pontífice e amigo também do ex-presidente Lula? O youtuber Bernardo Küster o tem na mira há tempos, e antes de embarcar para Roma postou uma foto em que dom Cláudio posava com membros do MST. 

"Não se trata de tomar partido", ele diz à reportagem. "Mas de trabalhar para que não haja excessos, distorções e perversões da fé católica de 2.000 anos."

Possibilidades aventadas para responder à crônica escassez de padres na região amazônica são vistas com descrença por Küster. Questiona: que papo é esse de deixar mulheres serem diaconisas ou ordenar clérigos casados? Isso seria "colocar remendo velho em pano novo, o rasgo fica maior", afirma. "E mais: o papa já se mostrou indisposto em várias ocasiões a não abrir essa exceção para a Amazônia."

Embora o Vaticano dê sinais de que essas cartas estão na mesa, o papa já declarou que a proibição de mulheres se tornarem padres (o que seria um passo além da função do diácono) é irremovível, por exemplo. 

Para o paranense Küster, o sínodo não pode deturpar o papel que ele atribui à igreja: "Ela está aqui, em primeiro lugar, para evangelizar e converter a todos para Deus. As obras sociais devem se centrar nesse objetivo primordial de conversão. Perdendo isso, a igreja vira apenas uma ONG de assistência social."

Nas redes sociais, o influenciador católico usou uma frase associada a um santo que viveu no século 4 para responder àqueles que "acham que pego pesado com padres, bispos e religiosos".

Aconselhou: "Leiam só São João Crisóstomo: 'O caminho para o inferno está pavimentado com ossos de padres e monges, e os crânios dos bispos são postes que iluminam o caminho'."

ENTENDA O SÍNODO

O que é - O Sínodo dos Bispos é uma reunião episcopal de especialistas. Convocado e presidido pelo papa, discute temas gerais da Igreja Católica (como juventude, em 2018), extraordinários (considerados urgentes) e especiais (sobre uma região). Instituído em 1965, acontece neste ano pela 16ª vez

Especial Amazônia - Anunciado em 2017, o Sínodo da Amazônia trata de assuntos comuns aos nove países do bioma, organizados em dois eixos: pastoral católica e ambiental
 
Para que serve - É um mecanismo de consulta do papa. Os convocados debatem e fornecem material para que ele dê diretrizes ao clero, expressas em um documento chamado exortação apostólica. As últimas duas exortações pós-sinodais foram publicadas cerca de cinco meses depois de cada assembleia

Quem participa - O Sínodo da Amazônia reúne 185 padres sinodais (como são chamados os bispos participantes), sendo 57 brasileiros. Além dos bispos da região, há convidados de outros países e de congregações religiosas. Também participam líderes de outras comunidades cristãs, da população e especialistas --no total, há 35 mulheres. O papa costuma presidir todas as sessões

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do que afirmou versão anterior desta reportagem, o youtuber Bernardo Küster não deu palestra na conferência de católicos conservadores realizada no hotel Quirinale, em Roma. Ele esteve presente como ouvinte. O texto foi corrigido.

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