Bolsonaro se queixa a aliados de cerco contra Flávio e pede que governo evite o assunto

Para ministro, há 'zero possibilidade' de o caso afetar o governo

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro já esperava que o Ministério Público do Rio de Janeiro deflagrasse uma operação que envolvesse o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ). Ele, no entanto, acreditava que ela ficaria apenas para o ano que vem.

Nesta quarta (18), quase dois anos após o início das investigações contra o ex-assessor Fabrício Queiroz, foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra 24 alvos, incluindo ele. A apuração, de responsabilidade do Ministério Público do Rio, corre sob sigilo. 

O senador Flávio Bolsonaro com Jair Bolsonaro, em evento de lançamento do partido Aliança pelo Brasil
O senador Flávio Bolsonaro com Jair Bolsonaro, em evento de lançamento do partido Aliança pelo Brasil - Ueslei Marcelino - 21.nov.19/Reuters

Nas últimas semanas, deputados e senadores que conversaram com o presidente relataram à Folha que o presidente demonstrava sinais de abatimento com o receio de que a investigação contra o seu filho mais velho tivesse novas reviravoltas. 

O assunto, segundo eles, era o que mais incomodava Bolsonaro neste fim de ano. Nas palavras de um aliado do presidente, desde o fim de novembro, Bolsonaro temia uma possibilidade de prisão e, "de cada dez assuntos que discutia, dois se referiam à situação do filho". 

Na semana passada, o presidente disse que em breve viriam outras acusações contra seus parentes, mas não deu detalhes do que se tratava. 

Ele se reuniu dois dias seguidos com o advogado Frederick Wassef, que responde tanto pela defesa de Bolsonaro como de Flávio. Um dos encontros foi no sábado (14), no Palácio da Alvorada. 

Na segunda-feira (16) à noite, foi a vez de Flávio ir ao encontro do pai na residência oficial. E, nesta quarta-feira (18), após a deflagração da operação, o senador voltou a se reunir com o presidente na residência oficial.

Segundo aliados de Bolsonaro, desde o fim de novembro, quando o ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), liberou a retomada da investigação contra o senador, ele tem se queixado de que o cerco a seu filho tem como objetivo tentar atingi-lo.

Diante do receio do presidente, a ordem repassada à equipe ministerial na quarta-feira (18) foi para que evitem tratar do assunto em público. 

A preocupação é que o tema seja explorado politicamente pelos partidos de oposição, gerando uma "instabilidade desnecessária", como definiu um aliado do presidente.

O ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, disse à Folha que existe "zero possibilidade" de a operação afetar o governo. "Negativo, zero possibilidade", ressaltou Ramos.

Na mesma linha, o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, afirmou que "de jeito nenhum" ela pode prejudicar o andamento da máquina pública.

Na manhã desta quarta, após a deflagração da operação, Bolsonaro evitou responder a perguntas dos veículos de imprensa na entrada do Palácio da Alvorada, onde parou para cumprimentar um grupo de eleitores.

"A imprensa vai ficar esperando ali. Quem sabe à tarde eu falo com vocês? Quem sabe à tarde?", questionou o presidente, ignorando pergunta sobre a operação do Ministério Público.

Ao longo do dia, fez questão de continuar evitando a imprensa. Ele participou de um evento religioso à tarde, mas chegou e saiu do local sem passar pela área onde estavam os jornalistas. 

Na sequência, não fez discurso em cerimônia do Palácio do Planalto e saiu do salão nobre evitando a região reservada à imprensa. 

Nesta quarta, agentes foram a endereços de Queiroz e seus parentes no Rio de Janeiro e de outros ex-assessores do senador. Entre eles, parentes de Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente, alguns que moram em Resende (RJ). Eles cumpriram mandados de busca e apreensão.

Queiroz é pivô de uma investigação que tem como alvo o próprio senador e outras 101 pessoas físicas e jurídicas, que tiveram os sigilos bancário e fiscal quebrados.

A Promotoria suspeita de um esquema conhecido como "rachadinha" no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro no período em que foi deputado estadual e manteve Queiroz como seu funcionário (2007-2018).

A prática consiste em coagir servidores a devolver parte do salário para os deputados. Estão sendo investigados crimes de peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e organização criminosa.

Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral do ano passado
Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral do ano passado - Eduardo Anizelli - 16.set.18/Folhapress
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