Bolsonaro atribui agressão a jornalistas a 'algum maluco' infiltrado em frente ao Palácio do Planalto

Repórter-fotográfico de O Estado de S. Paulo foi derrubado, levou soco e chutes; outros jornalistas foram agredidos verbal e fisicamente

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atribuiu nesta segunda-feira (4) a "alguns possíveis infiltrados" as agressões a jornalistas na manifestação que ocorreu no domingo (3) em frente ao Palácio do Planalto. Em uma rede social, também fez novos ataques à TV Globo.

"A TV Globo no Fantástico de ontem [domingo] se dedicou a ataques ao presidente Jair Bolsonaro, pelo fato de um fotógrafo do Jornal O Estado de SP ter sido agredido por alguns possíveis infiltrados na pacífica manifestação", escreveu o presidente.

Bolsonaro disse condenar a violência e afirmou não ter visto a agressão, embora um assessor seu tenha dito a ele, no alto de rampa do Planalto, que uma equipe da Globo estava sendo expulsa da manifestação.

"Também condenamos a violência. Contudo, não vi tal ato, pois estava nos limites do Palácio do Planalto e apenas assisti a alegria de um povo que, espontaneamente, defendia um governo eleito, a democracia e a liberdade", escreveu.

Em seguida, em rápida conversa com apoiadores diante do Alvorada, Bolsonaro chamou o ato de "uma manifestação espontânea da democracia" e atribuiu as agressões a "algum maluco" que, segundo ele, "deve ser punido".

O fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de S. Paulo, é agredido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro
O fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de S. Paulo, é agredido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro - Ueslei Marcelino 03.mai.2020 /Reuters

"Vocês viram que o Fantástico deu um espaço enorme para me criticar. Teria havido uma agressão lá. Teria havido, não sei. Nós condenamos qualquer agressão", disse Bolsonaro. "Eu não vi nada, eu estava dentro do Palácio, estava na rampa, não vi. Recriminamos qualquer agressão que porventura tenha havido. Se houve agressão, alguém que está infiltrado, algum maluco, deve ser punido. Não existe agressão da nossa parte. Agora, vaia, apupo, isso é natural da democracia", disse aos apoiadores.​

Aos apoiadores e, depois, aos jornalistas, Bolsonaro mostrou um papel em sua mão onde estava impressa a conversa de Whatsapp entre ele e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro. O trecho foi apresentado por Moro no dia 24 de abril ao Jornal Nacional. Nesta segunda, dez dias depois da acusação, ele chamou a mensagem de fofoca.

"Esta é a acusação mais grave contra a minha pessoa. Tem um print da matéria do Antagonista. Eu escrevi embaixo 'mais um motivo para troca'. Estão me acusando por causa disso, dizendo que estou interferindo na Polícia Federal. Não é isso? Eu estou dizendo que é fofoca embaixo, tá ok? O complemento vem depois", disse Bolsonaro.

"Não vou falar com a imprensa. Apenas mostrar para vocês, tem aqui um print do Antagonista. Está escrito embaixo 'mais um motivo para troca'. Realmente eu escrevi isso embaixo, tá ok? Embaixo desta matéria. E estou dizendo que isso é fofoca, tá legal?", indagou aos jornalistas, sem permitir perguntas.

O presidente Jair Bolsonaro mostra a apoiadores papel impresso com cópia de sua conversa com Moro que agora é alvo de investigação no STF (Supremo Tribunal Federal)
O presidente Jair Bolsonaro mostra a apoiadores papel impresso com cópia de sua conversa com Moro que agora é alvo de investigação no STF (Supremo Tribunal Federal) - Pedro Ladeira/Folhapress

Neste domingo, manifestantes pró-governo Jair Bolsonaro agrediram, ameaçaram e expulsaram jornalistas que cobriam o ato na rampa do Palácio do Planalto realizado neste domingo com a presença do presidente da República.

Enquanto o presidente acenava para apoiadores, o grupo passou a dirigir ofensas ao repórter fotográfico Dida Sampaio, de O Estado de S. Paulo, que registrava o momento. ​

Um grupo se formou ao redor do fotógrafo, que foi derrubado por duas vezes e chutado pelas costas, além de tomar um soco no estômago. Além dele, o motorista do jornal, Marcos Pereira, também foi agredido.

Outros repórteres e profissionais de imprensa foram então empurrados e ofendidos verbalmente, incluindo os da Folha. Um repórter do site Poder360 também foi agredido pelos manifestantes.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro foi alertado, segundo imagens transmitidas pela live de sua rede social, da confusão envolvendo jornalistas.

Ele prestigiou pessoalmente a manifestação de apoiadores a ele e com críticas ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao Congresso. "Expulsaram os repórteres da Globo, expulsaram os repórteres", disse uma pessoa ao presidente.

Bolsonaro então respondeu: "Pessoal da Globo vem aqui falar besteira. Essa TV foi longe demais", disse, sem repudiar as agressões aos repórteres.​

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, classificou de "covardia" as agressões sofridas por jornalistas nas manifestações pró-governo. Questionado pela Folha sobre o episódio, Mourão respondeu: "Sou contra qualquer tipo de covardia e agredir quem está fazendo seu trabalho não faz parte da minha cultura".

A Polícia Militar, que acompanhou o ato durante todo o momento, não apartou a confusão ao ser acionada pela Folha. Somente em​ segundo momento, quando repórteres foram expulsos do local, a PM cercou a imprensa para fazer o isolamento. Profissionais foram retirados do local depois sob a escolta e veículo da polícia.

No sábado (2), um cinegrafista da TV Record foi agredido por manifestantes que estavam na porta da Polícia Federal, onde o ex-ministro Sergio Moro tinha depoimento marcado sobre as acusações sobre Bolsonaro.

Na sexta-feira, um grupo de 60 enfermeiros que protestava na Praça dos Três Poderes, em defesa do isolamento social e em homenagem aos profissionais de saúde que morreram no combate à pandemia, foram agredidos verbalmente por alguns militantes bolsonaristas.

Usando máscara, os enfermeiros carregavam cruzes e faziam uma manifestação silenciosa. Um grupo menor, com roupas verde-amarela, chegou insultando os profissionais, chamando-os de "analfabetos funcionais"e "covardes".

O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal (Coren-DF) afirmou que vai processar os agressores. Um dos agressores foi à porta do Palácio da Alvorada nesta segunda-feira.

"Agora não vi, em dias anteriores, a TV Globo sair em defesa de uma senhora e filha que foram colocadas a força dentro de um camburão por estarem nadando em Copacabana, outra ser algemada por estar numa praça em Araraquara/SP ou um trabalhador também ser algemado e conduzido brutalmente para uma DP no Piauí", escreveu Bolsonaro nesta segunda-feira, referindo-se às detenções ocorridas em municípios onde a circulação de pessoas está restrita como forma de enfrentamento ao coronavírus.

"A maior violência que o povo sofre no Brasil é aquela contra seus direitos fundamentais, com o apoio ou omissão da Rede Globo", escreveu.

Na porta do Alvorada, ao ser informado por uma apoiadora que era acompanhado por ela desde uma de suas participações em um programa de TV, Bolsonaro fez menção que, nesta atração, houve uma "briga lá com o negócio LGBT".

"Não é a briga LGBT. Defendo a família. Nada contra quem tem esse comportamento aí. Cada um cuida da tua vida", disse o presidente após o primeiro comentário.

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