Delegado muda versão e diz que Ramagem decidiu trocar PF do Rio antes de ser nomeado

Comando do órgão no estado está no centro do inquérito que apura se Bolsonaro tentou interferir na corporação

Brasília

O diretor-executivo da Polícia Federal, Carlos Henrique Oliveira de Souza, disse em novo depoimento, prestado nesta terça-feira (19), que o diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Alexandre Ramagem, já tratava da troca da chefia da superintendência da PF no Rio de Janeiro antes mesmo de ser nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro para a diretoria-geral da corporação.

O comando do órgão no Rio está no centro do inquérito que apura se Bolsonaro tentou interferir na PF para ter acesso a investigações com potencial de atingir sua família e aliados.

Oliveira era o superintendente naquele estado e assumiu recentemente a diretoria-executiva, segundo cargo na hierarquia da PF. Ele prestou depoimento da semana passada, mas pediu para ser reinquirido.

Na primeira oitiva, questionado se algum cotado para a diretoria-geral da PF o havia sondado para o cargo que ocupa atualmente, ele disse que não.

Alexandre Ramagem, que Jair Bolsonaro tentou nomear para comandar a PF
Alexandre Ramagem, que Jair Bolsonaro tentou nomear para comandar a PF - Adriano Machado/Reuters

Nesta terça, mudou a versão e afirmou que, “na verdade”, foi procurado por Ramagem em 27 de abril, o qual lhe perguntou se aceitaria ser o diretor-executivo em sua gestão. Oliveira afirmou ter aceitado o convite no dia seguinte.

Ramagem foi nomeado em 28 de abril por Bolsonaro, mas o STF (Supremo Tribunal Federal) barrou o ato por indícios de desvio de finalidade.

Com o veto, assumiu o posto máximo da corporação o delegado Rolando Alexandre de Souza, ligado a Ramagem, que manteve os planos e alçou Oliveira à diretoria-executiva.

Ao depor na semana passada, Ramagem declarou não ter tido “qualquer influência” na nomeação de Oliveira para a diretoria-executiva. Assumiu a PF no Rio Tácio Muzzi.

A troca do comando na superintendência é alvo de suspeitas desde agosto do ano passado, quando Bolsonaro fez a primeira investida por mudança. O presidente sempre negou interesse nas investigações em curso no estado.

Em novo depoimento nesta terça, Oliveira narrou também outro episódio não citado no primeiro.

Disse que, no segundo semestre de 2019, Ramagem o chamou para uma reunião com Bolsonaro no Planalto. Na época, ele chefiava a PF em Pernambuco e era cotado para o cargo no Rio.

O encontro, noticiado pelo Painel na semana passada, foi fora dos padrões, uma vez que nem o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, nem o então ministro da Justiça, Sergio Moro, compareceram.

Além disso, os indicados para as demais superintendências não foram convidados para agenda com o presidente.

Moro e Valeixo, segundo o depoente, foram comunicados da reunião e a autorizaram. Eles não teriam participado, segundo ele, porque estavam fora de Brasília.

O número 2 da PF contou que estava na capital federal para um curso de formação de policiais, mas já havia um convite prévio de Ramagem para a agenda.

Ele disse que já era público, na ocasião, que estava cotado para a PF no Rio. Afirmou que, em cerca de 30 minutos, Bolsonaro fez uma explanação de sua trajetória até a eleição e dos desafios que enfrentou.

Questionado se o mandatário fez algum questionamento sobre investigações no Rio, Oliveira disse que não e que nenhum objetivo específico para a audiência lhe foi relatado.

“Ramagem apenas pontuou que seria importante o depoente conhecer o presidente Bolsonaro”, diz transcrição da oitiva desta terça, à qual a Folha teve acesso.

O diretor-geral registrou também que Bolsonaro não mencionou a investigação da Polícia Federal sobre a facada sofrida por ele em Juiz de Fora (MG) na eleição.

“Perguntado se nessa reunião o presidente questionou o depoente a respeito de produtividade ou de encaminhamento de relatórios de inteligência pela Polícia Federal, respondeu que não.”

O depoimento de Oliveira se deu na sede da PF em Brasília.

Os investigadores perguntaram sobre o possível vazamento da operação Furna da Onça, em 2018, cujos desdobramentos envolveram Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na Assembleia no Rio, e o próprio congressista em um suposto esquema de “rachadinha” de salários de servidores.

Em entrevista publicada pela Folha no domingo (17), o empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio e pré-candidato do PSDB à Prefeitura do Rio, disse que um delegado antecipou a investigação ao senador.

Afirmou também que a operação foi adiada para depois do segundo turno para não atrapalhar a eleição de Bolsonaro.

Oliveira disse não se lembrar quando um relatório de inteligência financeira do Coaf, com detalhes sobre movimentações suspeitas de Queiroz, chegou às investigações que eram conduzidas pela PF.

Ele afirmou não se recordar das datas de expedição dos mandados, mas pontuou que a operação teve tramitação atípica, pois o juiz federal Abel Gomes, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, não decidiu monocraticamente sobre ela, levando-a para apreciação da turma criminal.

Segundo ele, a investigação que culminou na prisão do então governador Luiz Fernando Pezão (MDB), em curso naquela época, também trouxe consequências na logística das operações da época.

O diretor-executivo alegou que foi aberto um inquérito para apurar suspeitas de vazamento da operação que vieram à tona na época, mas que ele não apontou “onde” ocorreu.

No contexto desse assunto, questionado se saberia de algum policial que seria próximo de Bolsonaro, seus familiares e amigos, Oliveira citou o delegado Márcio Derenne.

Ele relatou que Derenne, atualmente a serviço da Interpol, no exterior, seria ligado aos filhos do presidente, não sabendo precisar qual.

Afirmou também não saber informar se, na época da Furna da Onça, em 2018, o delegado estava trabalhando na PF no Rio ou cedido para algum outro órgão ou setor da corporação.

Ao falar sobre o policial, registrou também que ele já trabalhou para políticos, entre eles o ex-ministro “Picciani Filho” (Leonardo Picciani). Ele é filho do ex-presidente da Assembleia do Rio Jorge Picciani, investigado na Furna da Onça.

Os investigadores também questionaram Oliveira sobre sua relação com Bruno Malvacini, agente da Polícia Federal.

O diretor-executivo da PF respondeu que conhecia Malvacini porque o agente foi lotado na superintendência no Rio, mas disse que não saberia informar se o policial era próximo de Bolsonaro.

O agente foi citado no depoimento do superintendente da PF no Amazonas, Alexandre Saraiva, na semana passada.

Saraiva relatou que, após Bolsonaro ter sido eleito, foi sondado para ser ministro do Meio Ambiente e que o responsável por fazer a ponte com o então presidente eleito foi Malvacini.

Saraiva esteve com Bolsonaro e ambos conversaram por volta de duas horas “sobre temas ligados a questões ambientais”.

Também prestou depoimento nesta terça-feira o diretor de inteligência da PF, Cláudio Ferreira Gomes.

O diretor afirmou que nunca recebeu notícia sobre uma suposta falta de atuação da PF no fornecimento de informações de inteligência ao chefe do Executivo, como reclamou Bolsonaro em reunião em 22 de abril.

Segundo ele, o departamento que chefia atendeu a todos os pedidos feitos pelo Sistema Brasileiro de Inteligência, que conta com a participação do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

Gomes também disse que em sua gestão nunca houve encaminhamento de informações ao presidente, mas que não haveria ilegalidade no envio direto de documentos de inteligência, de acordo com a urgência do caso, a Bolsonaro ou a outros órgãos do governo.

Como exemplo, citou a hipótese de a corporação receber informações sobre suposta ameaça à vida do presidente.

Ele também relatou ter entregado uma vez ao então ministro da Justiça, Sergio Moro, sem que o chefe da pasta tenha pedido, um “relatório de inteligência que dizia respeito a uma investigação já concluída no âmbito da PF".

Ele não detalhou qual apuração se referiu, mas disse que desconhece qualquer trabalho da PF relacionado a crimes cometidos por integrantes da família Bolsonaro nem sobre fake news.

Em relação ao assassinato da ex-vereadora Marielle Franco, afirmou que o trabalho da diretoria de inteligência se limitou ao cumprimento de um requerimento da PGR para apurar eventual obstrução de Justiça, sem ter adentrado na apuração da autoria do crime.

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