Em reunião, Bolsonaro diz ter sistema de informações 'particular' e reclama de órgãos oficiais

Segundo vídeo tornado público nesta sexta, presidente afirma que órgãos oficiais 'desinformam'

Brasília

Na reunião ministerial de 22 de abril, o presidente Jair Bolsonaro disse contar com um sistema de informações particular, alheio aos oficiais, geridos por órgãos como a Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

A declaração consta da transcrição do vídeo do encontro, feita pela Polícia Federal e divulgada nesta sexta (22), após autorização do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello.

“Se reunindo de madrugada pra lá, pra cá. Sistemas de informações: o meu funciona”, afirmou Bolsonaro. “O meu, particular, funciona. Os ofi... que tem oficialmente, desinforma [sic]. Prefiro não ter informação do que ser desinformado por sistema de informações que eu tenho”, continuou o presidente.

No trecho, o mandatário não é claro sobre o que seria esse sistema privado.

Segundo interlocutores do ex-ministro Sergio Moro, a queixa de Bolsonaro era um ataque direto ao então titular da pasta da Justiça, presente à agenda no Planalto.

O presidente havia requerido à equipe de Moro que levantasse dados de que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), havia se reunido com outras autoridades numa madrugada para tramar um processo de impeachment.

Dois dias antes, o próprio Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo na internet, na qual o presidente nacional do PTB, o ex-deputado Robertto Jefferson, denunciava a suposta conspiração.

Bolsonaro teria solicitado a Moro informações sobre a reunião e o então ministro disse que o encontro não existiu. Diante disso, o presidente se irritou e disse que sua rede de informações privada era mais eficiente.

Naquele momento da reunião ministerial, Bolsonaro se queixava, em tom irritado, da falta de dados dos órgãos de inteligência e de uma suposta perseguição a seus irmãos.

“Então, pessoal, muitos vão poder sair do Brasil, mas não quero sair e ver a minha a irmã de Eldorado, outra de Cajati, o coitado do meu irmão, capitão do Exército de Miracatu, se foder, porra! Como é perseguido o tempo todo.”

É na sequência que o presidente dá uma declaração central para o inquérito que apura se ele tentou, de fato, interferir indevidamente na Polícia Federal, especialmente na superintendência da corporação no Rio, para ter acesso a investigações com potencial de atingir seus parentes e aliados.

“Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”, bradou o presidente.

Em depoimento, Moro afirmou que Bolsonaro se referia, naquele contexto, à mudança em alguns postos-chave da PF, ante sua preocupação com apurações em curso.

O mandatário sustenta, contudo, que sua fala era a respeito da troca de equipes do Gabinete de Segurança Institucional, responsáveis por proteger seus familiares.

Dois dias depois do encontro com os ministros no Palácio do Planalto, no entanto, foi o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, quem Bolsonaro demitiu. O primeiro ato da nova gestão do órgão foi trocar o superintendente da corporação no Rio.

A exoneração de Valeixo foi o estopim para a saída de Moro do governo e para a abertura do inquérito que avalia se houve algum tipo de crime na conduta do presidente relativa à PF.

Outro trecho da reunião, anterior, confirma o interesse do presidente em intervir na polícia, mas também em outros órgãos do Executivo. Ele cita “PF” (sigla de Polícia Federal) num contexto de insatisfação com a falta de informações de inteligência. E a relaciona entre os órgãos que seriam objeto de sua interferência.

O presidente primeiro falou sobre o risco de queda de seu governo e pediu o comprometimento dos ministros com a política. “A pessoa tem que entender. Se não quer entender, paciência, pô! E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção”, declarou.

Em seguida, ponderou que nunca teve problemas com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e avisou que, nas demais pastas, iria, sim, mexer.

“Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema. Agora, os demais, vou!", disse.

Logo depois, Bolsonaro se queixa de que não estava recebendo informações dos órgãos de inteligência e cita a PF.

“Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações. Eu tenho as... as inteligências das Forças Armadas, que não tenho informações. Abin tem os seus problemas, tenho algumas informações. Só não tenho mais porque tá faltando, realmente, temos problemas.”

Na sequência, Bolsonaro volta a reclamar.

“A questão estratégica, que não estamos tendo. E me desculpe, o serviço de informações nosso, todos, é uma... são uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado! E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma... uma extrapolação da minha parte. É uma verdade. Como eu falei, né? Dei os ministérios pros senhores. O poder de veto. Mudou agora. Tem que mudar, pô. E eu quero, realmente, é governar o Brasil”.

O conteúdo da reunião foi divulgado quase que na íntegra por decisão do ministro do Supremo, apesar de a AGU (Advocacia-Geral da União) e a PGR (Procuradoria-Geral da República) terem pedido a supressão da maioria dos trechos.

Em nota, a defesa de Moro informou que recebeu “com respeito e serenidade a decisão do ministro Celso de Mello, que entendeu pela divulgação do conteúdo substancial da reunião ministerial”.

“A decisão possibilita às autoridades e à sociedade civil constatar a veracidade das afirmações do ex-ministro em seu pronunciamento de saída do governo e em seu depoimento à Polícia Federal, em 2 de maio. A decisão do Ministro Celso de Mello ressalta o avanço democrático brasileiro, coibindo qualquer tipo de arroubo autoritário e reafirmando a soberania da lei e dos valores da Constituição”, diz o comunicado.

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