Família Bolsonaro atuou para esconder e proteger Fabrício Queiroz? Veja o que se sabe até agora

Há indícios de participação direta de advogados do clã para blindar o ex-assessor de Flávio

Rio de Janeiro

Fabrício Queiroz foi preso, em 18 de junho, em um sítio em Atibaia (SP) do então advogado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de seu filho Flávio, Frederick Wassef.

Na peça em que pediu a prisão do ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, o Ministério Público do Rio de Janeiro apontou indícios de que Wassef teria não só abrigado Queiroz, mas controlado e restringido sua movimentação. Queiroz nunca foi considerado foragido.

Nas últimas semanas, surgiram novos sinais de que Wassef teria atuado para esconder e proteger Queiroz.

Segundo a Promotoria, outro advogado de Flávio, Luis Gustavo Botto Maia, participou da tentativa de criação de um plano de fuga para o ex-assessor.

Apontado pelas investigações como o operador do esquema da “rachadinha” no gabinete do então deputado Flávio na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Queiroz é visto como o homem-bomba da família Bolsonaro. Nas últimas semanas, surgiram rumores de que ele estaria pensando em fechar uma delação –o que seu advogado, Paulo Catta Preta, nega.

Veja abaixo a importância de Queiroz para a investigação e como advogados da família teriam atuado, segundo as investigações, para blindar o ex-assessor.

Quem é Fabrício Queiroz e qual foi seu papel no suposto esquema da “rachadinha”?

Fabrício Queiroz é um policial militar aposentado, que atuou como assessor do senador Flávio Bolsonaro de 2007 a 2018, quando o filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ainda era deputado estadual na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

O Ministério Público do Rio de Janeiro afirma que o ex-servidor atuou como operador financeiro de um esquema de "rachadinha" (devolução de salários) no gabinete de Flávio.

De acordo com o MP-RJ, 11 assessores vinculados ao então deputado estadual repassaram pelo menos R$ 2 milhões a Queiroz, sendo a maior parte por meio de depósitos em espécie.

Por que Queiroz é peça-chave para a investigação?

O ex-assessor, apontado como homem-bomba da família Bolsonaro, tem um papel central na apuração por cinco motivos principais.

Primeiro, como suposto operador, Queiroz teria conhecimento para explicar o esquema de “rachadinha” e de que forma esse dinheiro teria sido lavado pela família Bolsonaro.

Segundo, o ex-servidor poderia ligar o presidente Bolsonaro ao caso. Queiroz e Bolsonaro se conheceram no Exército e são amigos há mais de 30 anos. Foi por meio de Jair que o ex-assessor ingressou no gabinete de Flávio.

Um dos pontos ainda não esclarecidos pela investigação é o cheque de R$ 24 mil que a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, recebeu de Queiroz. O presidente já afirmou tratar-se do pagamento de uma dívida, mas não explicou por que o ex-assessor precisava do dinheiro e também não apresentou comprovante do empréstimo.

Queiroz também poderia indicar se o esquema de “rachadinha” chegou ao gabinete de Jair na Câmara dos Deputados. Em dezembro de 2018, a Folha mostrou que uma das filhas do ex-servidor, Nathalia Queiroz, era funcionária fantasma do então deputado federal. O gabinete manteve, de 1991 a 2018, uma intensa e incomum rotatividade salarial de assessores, atingindo cerca de um terço dos mais de cem que passaram por lá.

Terceiro, Queiroz é apontado como o elo da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro. Foi ele quem indicou para o gabinete de Flávio na Alerj a mãe e a mulher do ex-capitão do Bope e antigo líder da milícia Escritório do Crime, Adriano da Nóbrega, morto em fevereiro dete ano durante operação policial na Bahia.

Segundo mensagens obtidas pela Promotoria, o miliciano ficava com parte do salário obtido pelas duas –não ficou esclarecido, no entanto, o destino dado pela família a esse dinheiro.

Na peça que pediu a prisão de Queiroz, o Ministério Público afirma, ainda, que o ex-assessor mantém influência sobre um grupo paramilitar de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio.

Quarto, o ex-servidor também pode fornecer importantes informações para as investigações que apuram uma suposta interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal e um suposto vazamento da Operação Furna da Onça, que atingiu deputados da Alerj em novembro de 2018.

Segundo relato do empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio, o filho do presidente foi avisado entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018 que Queiroz havia sido citado no inquérito que culminou na operação. Marinho também afirmou que a Furna da Onça teria sido “segurada” para não interferir na disputa.

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam o caso. Até o momento, Queiroz já foi ouvido duas vezes e negou ter conhecimento sobre o suposto vazamento.

Por último, Queiroz poderia explicar a origem do dinheiro que custeou seu tratamento no hospital Albert Einstein, um dos mais caros de São Paulo. Segundo a Promotoria, anotações em uma caderneta apreendida na casa da mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, e os recibos do hospital comprovam que ela recebeu pelo menos R$ 174 mil em espécie para pagar o tratamento do marido.

O Ministério Público também afirma que uma troca de mensagens entre Márcia e sua filha, Mayara Gerbatim, sugere que a família Queiroz recebia dinheiro de terceiros para se manter. A Promotoria não indicou, no entanto, a origem dessas quantias.

Queiroz esteve foragido em algum momento?

Não. Ainda assim, mesmo sem mandado de prisão expedido contra ele, Queiroz saiu de cena sob a tutela do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, dono do sítio em Atibaia (SP) onde o ex-assessor se abrigou.

O não comparecimento a quatro depoimentos marcados pelo MP-RJ e a ausência de informações sobre seu paradeiro levou muitos a questionarem nas redes sociais “onde está o Queiroz?”. Segundo a Promotoria, o policial militar aposentado se escondia porque tinha a intenção de fugir caso fosse alvo de uma ordem de prisão.

Durante quanto tempo Wassef abrigou o ex-assessor?

Reportagem do jornal da Band mostrou que Queiroz passou cerca de cinco meses em um apartamento em Guarujá (SP) de propriedade da família de Wassef, a partir do fim de 2018. Apuração do jornal O Estado de S. Paulo corroborou a informação, ao revelar que, segundo dados do celular de Márcia Aguiar obtidos pelo MP-RJ, a mulher de Queiroz esteve na cidade litorânea pela primeira vez em fevereiro de 2019 e, pela última, em junho do mesmo ano.

Ainda segundo a reportagem do jornal, a mulher do ex-assessor, que segue foragida, teve seu primeiro registro de passagem por Atibaia (SP) em junho do ano passado. Até o fim de 2019, as idas à cidade foram frequentes, o que indicaria que Queiroz já havia se estabelecido no sítio de Wassef.

O jornal O Globo também revelou que Queiroz e um de seus filhos, Felipe, se abrigaram em um apartamento em São Paulo da ex-mulher de Wassef, a empresária Maria Cristina Boner Leo. Em mensagens trocadas por Queiroz, o celular do ex-assessor registrou que os dados foram enviados de um endereço da capital paulista onde Maria Cristina possui um apartamento.

Em junho deste ano, o UOL mostrou que o governo de Jair Bolsonaro fechou novos contratos de R$ 53 milhões com a empresa Globalweb Outsourcing, fundada pela ex-mulher de Wassef.

Quais indícios de que Wassef controlava os passos de Queiroz?

Tratado por familiares de Queiroz e funcionários pela alcunha de “Anjo”, o então advogado do presidente e de Flávio monitorou e controlou a movimentação do ex-assessor, como indicam mensagens apreendidas pelo Ministério Público.

Os promotores que pediram a prisão de Queiroz afirmam que o ex-servidor buscava omitir de Wassef as saídas que fazia do sítio. O MP-RJ diz ainda que o ex-assessor e seus familiares desligavam seus telefones quando se aproximavam da casa, a fim de evitar eventual monitoramento das autoridades policiais.

Em mensagens datadas de outubro de 2019, a mulher de Queiroz pede à filha para informar a uma mulher identificada como Ana (que seria a advogada Ana Flávia Rigamonti) que o casal está a caminho de São Paulo. A mulher responde: “Pode ficar tranquila que não falo nada não”.

Em outro áudio, Ana afirma, segundo os promotores, que não comentou com “Anjo” sobre a viagem do casal.

Outras mensagens mostram Queiroz explicando que precisa desligar o telefone ao se aproximar da casa de Wassef. “A gente vai ter que desligar o telefone, daqui a pouco a gente vai entrar na nossa área”, disse num áudio de julho de 2019.

Os diálogos indicam ainda que Wassef cogitou levar toda a família de Queiroz para Atibaia após a derrota no STF (Supremo Tribunal Federal) no julgamento sobre o compartilhamento de informações financeiras detalhadas em relatórios do Coaf.

“[Wassef está] Querendo mandar para todos [sic] para São Paulo se a gente não ganhar”, disse Queiroz em 24 de novembro de 2019 para a mulher.

O julgamento sobre o compartilhamento de dados do Coaf começou no dia 21 de novembro e se encerrou no dia 28. Na ocasião, Márcia considerou a intenção um exagero. “Mais [sic] só se estivéssemos com prisão decretada. Sabe que isso será impossível, né?”, disse ela.

O jornal O Estado de S. Paulo também revelou que, em uma troca de mensagens com Ana, a mulher de Queiroz reclamou das restrições impostas por Wassef.

Na ocasião, ela disse que não queria mais viver como “marionete do Anjo”.

“‘Ah, você tem que ficar aqui, tem que trazer a família’. Esquece, cara. Deixa a gente viver nossa vida. Qual o problema? Vão matar?”, escreveu Márcia.

Em entrevista ao jornal O Globo, um empresário de Atibaia que frequentava o sítio de Wassef disse que o caseiro do imóvel era olheiro do advogado.

“Nos fundos, ficava o caseiro, que era como se fosse um olheiro. Contava tudo para o patrão”, afirmou Daniel Bezerra Carvalho, dono de uma loja de conveniência na cidade onde Queiroz costumava almoçar.

Quais são os outros indícios de que a família do presidente Jair Bolsonaro ou pessoas próximas podem ter protegido o ex-assessor?

Segundo mensagens obtidas pelo Ministério Público, Luis Gustavo Botto Maia, advogado de Flávio Bolsonaro, se encontrou em Minas Gerais em dezembro de 2019 com a mãe e a mulher do ex-capitão Adriano da Nóbrega e com Márcia Aguiar, mulher de Queiroz. Antes de ir a Minas, Botto teria se reunido previamente com o ex-assessor e com Wassef.

O objetivo do encontro, segundo o Ministério Público, era que a mulher de Adriano levasse a ele, que estava foragido, um recado de Queiroz. A Promotoria acredita que Adriano iria elaborar um plano de fuga para a família do ex-assessor, mas não apresentou na peça os indícios dessa teoria.

Além do envolvimento de Botto, um caderno de Márcia Aguiar apreendido pelo MP-RJ pode ser mais um indício de que a família Bolsonaro tenha atuado para proteger Queiroz.Segundo imagens às quais o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso, Márcia tinha nesse caderno números de celulares atribuídos ao presidente Jair Bolsonaro, a Flávio Bolsonaro, à primeira-dama Michelle e a outras pessoas ligadas à família.

De acordo com a reportagem, não é possível saber a data das anotações, feitas à mão. Algumas referências, no entanto, indicam que foram escritas após a eleição de 2018. Isso porque políticos que estão em primeiro mandato aparecem identificados pelos seus respectivos cargos. É o caso de deputados eleitos pelo PSL, partido pelo qual o presidente se elegeu.

Segundo a investigação, o caderno era uma espécie de guia para Márcia caso o marido fosse preso e ela não continuasse em liberdade, podendo ajudá-lo na prisão.

Quem protegeu ou abrigou Queiroz cometeu algum crime?

Segundo especialistas em direito penal consultados pela Folha, só uma investigação mais aprofundada poderá responder se Wassef cometeu um eventual crime ao abrigar Queiroz.

Por enquanto, não seria possível afirmar que o advogado tenha cometido irregularidades. A depender do que for descoberto, no entanto, pode-se chegar à conclusão de que houve possíveis práticas dos crimes de favorecimento pessoal e de obstrução da Justiça (atrapalhar uma investigação que envolva organização criminosa).

Em quais contradições caíram Wassef e a família Bolsonaro ao falar sobre o caso?

Desde que o suposto esquema da “rachadinha” veio à tona, a família escanteou Queiroz e disse que não mantinha contato com o ex-assessor.

Em junho deste ano, no entanto, ele foi encontrado no sítio de Wassef.

Embora o advogado diga que Jair Bolsonaro não sabia do abrigo dado a Queiroz, o presidente afirmou em live no dia 18 de junho que o ex-assessor estava em Atibaia porque a região fica perto do hospital onde trata um câncer.

Quando Queiroz foi preso, Wassef disse que não havia abrigado o ex-assessor e que não tinha contato com ele. O advogado também afirmou que não era o "Anjo" citado nas mensagens entre os investigados.

No entanto, em uma troca de mensagens obtida pelo Ministério Público e revelada pelo jornal O Globo, a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, relaciona o apelido a Wassef.

"Ele e Felipe foram levar a Ana em São Paulo porque o Anjo queria falar com ela. Aí ele disse que deixou a Ana lá na casa do Fred [Wassef] e quando estava indo embora, falou: 'Felipe, vamo para o Rio?' Vieram para o Rio sem mochila, sem nada. E chegou hoje de manhã aqui, mas pediu para não falar com ninguém não que ele tá aqui", Márcia escreveu ao advogado de Flávio, Luis Gustavo Botto.

Posteriormente, em entrevista à revista Veja, Wassef afirmou que escondeu Queiroz por uma “questão humanitária” porque o ex-servidor estaria sendo ameaçado de morte. O advogado não apresentou provas para essa versão.

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