Milícia, tráfico e intolerância religiosa acossam Duque de Caxias nas eleições

Município da Baixada Fluminense escolherá próximo prefeito em clima entre a cruz e o fuzil

Rio de Janeiro

Município que herdou seu nome do militar conhecido como O Pacificador, Duque de Caxias vive hoje entre a cruz e o fuzil.

É sob este binômio que escolherá o próximo responsável por administrar uma cidade acossada por milicianos, traficantes e intolerância religiosa. Isso em meio a uma pandemia que já matou quase 800 caxienses, o número de vítimas que em março o presidente Jair Bolsonaro previu que o país inteiro teria.

Entre os nove candidatos está o atual prefeito, Washington Reis (MDB), que no começo da crise sanitária pediu calma à população: "Nossa orientação desde a primeira hora foi manter as igrejas abertas, porque a cura virá de lá, dos pés do senhor".

A dele, um fiel da Assembleia de Deus que dias depois receberia o diagnóstico de Covid-19, veio de um hospital particular na zona sul da capital fluminense.

Ex-subsecretário no governo Sérgio Cabral e com pendências judiciais que em última instância podem torná-lo inelegível, Reis lidera as pesquisas e é alvo preferencial dos adversários.

Essa lista inclui a filha de um ex-prefeito (Andreia Zito, do PP), um policial bolsonarista da Igreja Batista (o deputado estadual Marcelo Dino, do PSL), uma feminista antirracista (Ivanete Silva, do PSOL), o vereador mais votado da baixada fluminense nos anos 1990 (Dica, do PL) e o último vereador de esquerda que a cidade já teve, eleito 20 anos atrás (José Zumba, do PSB).

Marcos Lima, 34, em terreiro atacado por criminosos em Duque de Caxias
Marcos Lima, 34, em terreiro atacado por criminosos em Duque de Caxias - Zo Guimarães/Folhapress

Progressistas nunca assumiram a prefeitura da cidade onde Bolsonaro teve, em 2018, sete em cada dez votos válidos no segundo turno contra o petista Fernando Haddad.

"O histórico eleitoral da esquerda tem sido muito ruim", diz Wesley Teixeira (PSOL). Ele próprio tenta quebrar o jejum do campo na Câmara Municipal local, numa campanha com doações do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga (R$ 30 mil) e de João Moreira Salles (R$ 15 mil), da família do Itaú Unibanco. O apoio de figurões da elite lhe rendeu uma ameaça não concretizada de punição pelo partido.

Negro, evangélico e morador do morro do Sapo, Teixeira defende o Estado laico sem desmerecer a importância das igrejas. "Tem a ver com elas estarem na periferia, são o meio de sobrevivência do nosso povo. A pessoa que sai do tráfico geralmente vai para a igreja."

Em Caxias há também os que oram sem largar a arma. Vem de lá o Bonde de Jesus, como se autointitulam traficantes convertidos que vandalizam terreiros locais —para parte dos evangélicos, crenças afrobrasileiras cultuam "falsos deuses", daí os ataques.

Em 2019, a polícia prendeu oito integrantes do grupo que, segundo o delegado Túlio Pelosi, é composto por fiéis da Assembleia de Deus Ministério de Portas Abertas do Sarapuí —que nas redes sociais anuncia cultos como "Conhecendo o Deus da Provisão". Procurado, o presidente da igreja disse apenas: "Nada a declarar, só prego o Evangelho".

O inquérito policial descreve a investida contra uma casa de candomblé liderada por uma ialorixá de 82 anos que, de tão abalada, mudou-se de onde morava havia mais de 40 anos.

No rol de agressões atribuídas a criminosos apelidados de Noventinha, Peixão e Madrinha: lançar trajes sagrados na rua para que fossem queimados e obrigar a mãe de santo a ela mesma quebrar esculturas de entidades, "ameaçando todos os presentes, dizendo que iriam matá-los caso não deixassem o centro, que seriam bandidos de Jesus".

Marcos Lima, 34, conta como seu terreiro também virou alvo. "Havia uma festa, e algumas filhas de santo foram buscar uma encomenda de bolo e doces. [Os bandidos] viram suas roupas litúrgicas, seguiram elas e chegaram em coisa de dois minutos até nós. A rua fechada por quatro motos, eles de fuzil."

A idade dos traficantes chamou a atenção do pai de santo. Aparentavam não mais do que 16 anos. "Disseram 'essa porra aqui não, aqui não pode ter macumba, agora tudo aqui é de Jesus' e dispararam tiros para o alto."

Não foram os únicos episódios de intolerância praticados em 2019 no Parque Paulista, bairro onde vivem mais de 30 mil pessoas. Dos 53 espaços de culto que fecharam em Caxias por causa da violência, nove são de lá, segundo a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.

É o mesmo bairro acuado por uma guerra entre duas facções, Terceiro Comando Puro (no poder) e Comando Vermelho (que quer tomá-lo). E onde, em setembro, circulou um flyer anunciando o aniversário do chefe do tráfico na região, em desacato às recomendações para não aglomerar na pandemia.

A milícia é outro poder paralelo em Caxias, inclusive "com forte presença no cotidiano político", diz o procurador Júlio Araújo. "Sobretudo em questões referentes à apropriação de terras públicas federais —loteamentos, aterros, construções irregulares— e crimes ambientais."

Tudo com apoio de integrantes do Executivo e do Legislativo caxiense, sabidamente milicianos, segundo o membro do Ministério Público Federal, que não os nomeia. No caso da extração ilegal de areia, por exemplo, foi necessário recorrer ao Exército para destruir os areais porque as autoridades locais não cooperavam, afirma Araújo.

Como no tráfico, a disputa entre milicianos é sangrenta e envolve rivais que atendem por alcunhas como Careca e Cuzinho. Em outubro, uma operação da Polícia Civil com o Ministério Público fluminense prendeu nove suspeitos após dezenas de denúncias anônimas.

Uma delas partiu de José, que prefere não revelar o sobrenome. O carroceiro diz que entrega R$ 35 a milicianos para poder vender "tudão" (hambúrguer com vários ingredientes, de bacon a milho) numa área pobre da cidade.

Araújo aponta "uma certa naturalização nas falas dos moradores a respeito das dificuldades em resistir a essa influência". José espelha isso. "Melhor pagar do que morrer, né?"

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