Descrição de chapéu Eleições 2022 STF

Jantar mostra avanço na chapa Lula-Alckmin, mas também expõe arestas

Principal obstáculo é SP; há tentativa de atrair PSD e MDB para aliança com Solidariedade e PC do B

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São Paulo

O jantar que reuniu o ex-presidente Lula (PT) e o ex-governador Geraldo Alckmin (ex-PSDB), no domingo (19), explicitou o avanço da chapa conjunta para a Presidência da República na eleição de 2022, mas também evidenciou arestas a serem aparadas.

O principal obstáculo é o acerto em São Paulo que deriva da aliança nacional —o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e o ex-governador Márcio França (PSB) são pré-candidatos ao Governo de São Paulo, e um dos dois teria que abrir mão desse plano.

A reunião do ex-presidente Lula (PT) e do ex-governador Geraldo Alckmin (ex-PSDB) em um jantar, neste domingo (19), promovido pelo grupo de advogados Prerrogativas - Ricardo Stuckert / Divulgação

A amplitude e os limites da aliança em torno de Lula também foram simbolicamente desenhados —a maior parte dos políticos presentes era ligada ao PT ou ao PSB, que discutem a formação de uma federação para as eleições.

O barco tende a incluir Solidariedade e PC do B, representados no jantar, e há a tentativa de atrair PSD e MDB, cujos presidentes estiveram no evento, mas seus presidenciáveis, não —o que evitou a leitura de uma adesão desde já.

Parlamentares e dirigentes petistas e pessebistas se mostraram, no jantar do grupo de advogados Prerrogativas, animados com a possibilidade de que Alckmin concorra como vice de Lula. Mais do que isso, parte deles dava a aliança como certa e a ser anunciada no início do ano que vem.

Em seu discurso Lula falou em respeito a Alckmin e minimizou rivalidades no geral. "Não importa se no passado fomos adversários", disse. O ex-governador disse ser hora de "grandeza política, espírito público e união".

A leitura geral foi a de que a aparição em público selou a parceria entre os ex-adversários e de que o jantar foi representativo e cumpriu seu papel.

"Foi um dos maiores eventos políticos do ano, não só no tamanho, mas no significado. Foi uma sinalização que fez o ano terminar bem. Até aqui os passos dados foram dados e muito bem dados", resume o deputado estadual Emidio de Souza (PT).

"É preciso chamar todo mundo que queira reconstruir o país, precisamos nos guiar pelo futuro e superar problemas do passado", completa.

Quando a pergunta era sobre Haddad ou França, porém, não havia acordo. Da parte dos petistas, a avaliação é a de que o partido não pode deixar de lançar um candidato em São Paulo —principalmente porque Haddad tem chances de vencer.

​​Pesquisa Datafolha mostra que, num cenário sem Alckmin e com França, Haddad lidera com 28%. O pessebista marca 19% e lidera com 28% em cenário sem o petista. Já na hipótese em que os três concorrem ao Palácio dos Bandeirantes, Alckmin tem 28%; Haddad soma 19% e França, 13%.

Aliados do ex-prefeito afirmaram que a candidatura dele ao Governo de São Paulo está consolidada e não há volta atrás. Petistas dizem ainda que Lula está empenhado em eleger Haddad governador com o apoio de Alckmin.

Um argumento evocado por parlamentares do PT, além da dianteira de Haddad na pesquisa, é a maior estrutura e capilaridade do PT em São Paulo em comparação ao PSB.

Deputados estaduais do PSB, por exemplo, fazem parte da base do governo João Doria (PSDB), pré-candidato à Presidência, e devem apoiar seu sucessor, o vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB), na corrida estadual.

Há ainda outros estados envolvidos, em que o PSB pleiteia que o PT não tenha candidatura própria e os apoie: Rio Grande do Sul, Pernambuco, Acre, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Por isso, dizem petistas, Haddad não deve abrir mão em São Paulo.

"Acredito que vai haver entendimento. Todo mundo está com juízo. Queremos construir a possibilidade de vitória em São Paulo. Precisamos ter uma candidatura só. Vamos fazer uma construção com respeito ao PSB, com diálogo e não faca no pescoço. Não queremos impor nada a ninguém", diz Emidio, aliado de Haddad.

Já membros do PSB apostam na candidatura de França e afirmam haver vantagens em relação a Haddad, como a menor rejeição (34% contra 16%). A leitura, nesse caso, é a de que Haddad não agregaria votos a Lula em São Paulo, pois são votados nos mesmos grupos.

França, por sua vez, poderia, como palanque de Lula, agregar votos do interior de São Paulo e de policiais.
A equação tem ainda Guilherme Boulos (PSOL), que também é pré-candidato ao Governo de São Paulo e pode dividir votos com Haddad e até com França.

Entusiastas da chapa Lula-Alckmin minimizavam o embate entre Haddad e França, prevendo um entendimento ao final, com ou sem Boulos. Mas havia também quem apontasse o potencial de mágoas e feridas abertas ao longo do processo.

Uma questão é a do eleitor de esquerda que torce o nariz para Alckmin. Na entrada, um grupo de apoiadores de Lula gritava "Alckmin não!", o que foi mencionado por presentes como um "desconforto", mas que não seria incontornável.

Por outro lado, o ex-governador foi também bastante tietado com pedidos de fotos.

Como lembrou Lula em seu discurso, outro impasse a ser resolvido é o futuro partido de Alckmin, que anunciou sua desfiliação do PSDB na semana passada.

"Eu tenho que respeitar o Alckmin. Ele deixou o PSDB, ele ainda não tem partido, não sei a qual partido ele vai se filiar. E quem vai dizer se a gente pode se juntar ou não é o partido dele e o meu partido. Então a gente tem que ter paciência", afirmou o ex-presidente.

Para ser vice de Lula, Alckmin se filiaria ao PSB, de França. O Solidariedade também fez o convite ao ex-governador.

Outra opção é o PSD, mas, nesse caso, a candidatura mais provável de Alckmin seria para o Governo de São Paulo e não como vice-presidente. Isso porque, no plano nacional, o PSD lançou o senador Rodrigo Pacheco (MG) à Presidência.

Embora o partido se mantenha no radar de Lula, filiar Alckmin e bancá-lo como vice seria abraçar de vez o plano petista, algo que o PSD não busca agora. De acordo com petistas, um apoio do PSD pode vir só no segundo turno.

Nesse sentido, o jantar também demonstrou o alcance e as fronteiras da aliança que Lula pretende costurar —além de deixar claro quem não faz parte do diálogo que objetiva derrotar o presidente Jair Bolsonaro (PL).

PT, PSB, PC do B e Solidariedade formam a parte convertida do projeto, que acenou para fora com as presenças dos presidentes do PSD, Gilberto Kassab, e do MDB, Baleia Rossi.

A ausência de nomes importantes do PSD, como Pacheco e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, foram lidas como um sinal de que a presença de Kassab representava antes sua boa relação com Lula do que um embarque em sua candidatura.

A presidenciável do MDB, senadora Simone Tebet (MS), também faltou. Saudado pelos presentes como o próximo presidente do Brasil, Lula foi o único pré-candidato ao Planalto presente no restaurante A Figueira Rubaiyat, em região nobre da capital paulista.

Questionado pela Folha, Rossi respondeu apenas que o jantar era "apolítico e não eleitoral", também evitando vincular seu MDB a Lula.

No jantar, a ponte de Lula para fora da esquerda foi construída também pela cúpula da CPI da Covid presente no evento —os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Omar Aziz (PSD-AM). Opositor de Bolsonaro, o deputado Marcelo Ramos (PL-AM) foi outra presença no local.

Falando sobre o PSD e o MDB, petistas afirmam que as presenças de Kassab e Rossi foram uma boa sinalização, mas que Lula deve respeitar se a decisão dos partidos for mesmo a de lançar seus candidatos —estratégia usada para alavancar a bancada de deputados.

Um apoio no segundo turno e no governo já seria importante e, por isso, é preciso mantê-los próximos. Com larga vantagem sobre Bolsonaro nas pesquisas, Lula já estaria preocupado com a governabilidade, de acordo com políticos próximos a ele. A ideia é evitar ser prisioneiro do centrão, segundo petistas.

"Sei que o Brasil que vou pegar em 2023 é muito pior que o país que eu peguei em 2003", disse o petista em seu discurso.

O jantar delimitou ainda o campo adversário a Lula —formado notadamente por Bolsonaro, Sergio Moro (Podemos) e Doria, considerados "personas non grata" pelo coordenador do Prerrogativas, o advogado Marco Aurélio Carvalho. O grupo é progressista e crítico da Lava Jato.

No Twitter, Moro ironizou o jantar: "Impressão minha ou ontem assistimos a um jantar comemorativo da impunidade da grande corrupção?".

Nomes próximos a Doria, porém, foram ao evento, como o ex-senador Arthur Virgílio (AM), que fez dobradinha com o governador paulista nas prévias do PSDB, e o secretário da gestão do tucano e ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (sem partido-RJ).

Virgílio afirmou ter tido "uma conversa rápida e fraterna" com Lula. O tucano disse ainda que, simbolicamente, Lula apresentou Alckmin, mas que segue entusiasta de uma união da 3ª via.

Ele reconheceu ainda que o petista tenta furar sua bolha, mas, como ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), avaliou como tímida a menção à situação do país em 2003. "Lula reconhecer que pegou um governo organizado seria mais acertado."

O jantar tampouco alcançou o entorno de Ciro Gomes (PDT), pré-candidato ao Planalto que vem se descolando de Lula com duras críticas ao petista —apesar de acenos entre ambos na última semana, após o pedetista ter sido alvo da Polícia Federal.

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