Descrição de chapéu 6º Fórum A Saúde do Brasil

SUS pode ser laboratório para implementação de novas tecnologias

Em evento realizado pela Folha, pesquisadora defendeu papel do setor público na incorporação de inovações para a saúde

Laura Castanho
São Paulo

O sistema público de saúde brasileiro, um dos maiores do mundo, pode funcionar como um laboratório para a implementação de tecnologias como o big data e a inteligência artificial — inovações capazes de desenvolver tratamentos mais eficazes, melhorar o acesso à saúde e reduzir os custos do tratamento.

A constatação é da pesquisadora Fernanda de Negri, coordenadora do recém-criado Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). De Negri debateu as contribuições da tecnologia para a medicina na segunda-feira (27), na sexta edição do fórum A Saúde no Brasil.

O evento foi realizado pela Folha, com patrocínio do Hospital Israelita Albert Einstein, da Associação Nacional das Administradoras de Benefícios (Anab) e da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde).

 
 

Apesar do potencial do setor público para a adoção de tecnologias, há no Brasil um gargalo de qualificação, investimento em pesquisa e agilidade. Não há uma estratégia estatal de investimento, pesquisa ou implementação tecnológicas em saúde, de acordo com a pesquisadora.

“O setor público tem papel importantíssimo de liderança no processo de investir em tecnologias, mas não tem conseguido fazer isso”, disse de Negri. Segundo ela, a verba federal para pesquisas não deve estar restrita ao Ministério de Ciência e Tecnologia, mas deve ser estendida ao Ministério da Saúde também. “Ali você está mais próximo dos problemas que precisa resolver.”

Outro desafio é o vácuo de legislação em torno da proteção de dados do sistema de saúde. Se, por um lado, a análise de grandes quantidades de informação pode diagnosticar problemas estruturais no SUS e aperfeiçoar o sistema, a lei não determina até que ponto é ético ou justificável acessar os dados de milhões de pessoas para essa finalidade.

“Não estamos devidamente conscientes dos impactos que isso pode ter no futuro. Ao mesmo tempo que é preciso proteger os dados das pessoas, a gente precisa estar atento que eles podem ser uma fonte de inovações tecnológicas”, disse de Negri. “Tenho dúvidas sobre até que ponto a nossa lei de proteção de dados pessoais não vai fechar essa porta.”

No sistema privado, tecnologias recentes já são utilizadas na prevenção de doenças, no uso mais racional de insumos dos hospitais e clínicas, e na maior eficácia dos tratamentos disponíveis. No Hospital Albert Einstein, por exemplo, um sistema de agendamento de internações que usa inteligência artificial diminuiu o tempo de permanência dos pacientes em 13%, e evitou a construção desnecessária de um novo prédio para conter mais leitos.

Segundo Sidney Klajner, presidente da fundação que gere o hospital, um outro sistema utilizado pelo Einstein é capaz de antecipar se a saúde do paciente irá piorar nas próximas oito horas. E ainda outro programa consegue otimizar cada sala de cirurgia para receber de três a quatro pessoas a mais em um dia.

“A tecnologia por si só não vai levar à melhoria do sistema de saúde, mas vai transpor barreiras que os sistemas têm enfrentado em todos os países”, afirmou Klajner. “Quando você adota uma tecnologia médica que não permitiu a entrega de um resultado melhor, é uma má adoção tecnológica.” Um exemplo disso seria o uso disseminado de cirurgias feitas por robôs, que nem sempre têm eficácia comprovadamente maior que as feitas por médicos de carne e osso.

Klajner também apontou uma certa resistência da própria classe médica com o uso de novas tecnologias, como no caso da telemedicina. Na prática, ela existe há décadas — os pacientes sempre ligaram para os médicos de família para tirar dúvidas sobre sintomas — e é praticada por 83% dos médicos no estado de São Paulo.

Mesmo assim, profissionais da saúde questionam se os atendimentos a distância podem reduzir as contratações de profissionais em estados no Norte e Nordeste, servir de paliativo para o problema da desigualdade estrutural de acesso à saúde no Brasil ou desumanizar o atendimento ao paciente.

Klajner, que é cirurgião do aparelho digestivo, discorda dessas hipóteses. “O feedback que tenho recebido desse tipo de atendimento é o melhor do mundo, porque o paciente não sai do seu local de trabalho.” O aplicativo que o Einstein utiliza para as teleconsultas grava o atendimento e emite seu prontuário imediatamente. “Não deixei de ter contato com esse paciente. Não preciso examiná-lo [presencialmente] se não houver queixa.”

Para Leonardo Framil, presidente para o Brasil e América Latina da Accenture, o uso amplamente disseminado de tecnologias na saúde é um caminho sem volta, uma vez que tende a baixar os custos de prevenção e tratamento.

Framil diz acreditar que a aplicação da tecnologia na saúde não irá substituir a atividade humana, mas torná-la mais eficaz e precisa. “Se a gente combinar [as duas funções], acho que é muito pelo contrário. Eu acho que humaniza mais.”

O mercado brasileiro de saúde privada é o sétimo maior do mundo, e deve logo incorporar em larga escala as tecnologias que, por ora, só existem em hospitais-laboratório ou instituições de elite. Um exemplo disso seria a adaptação do paciente à disponibilidade do médico que o atenderá — o fato de as consultas médicas serem marcadas com semanas de antecedência e atrasarem horas no dia combinado deve deixar de existir.

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