Crescem casos de recall de veículos; total de reparos é baixo

Em 2018, campanhas para substituir defeitos envolveram 2,2 mi de unidades, mas só 324,8 mil foram consertadas

Foto aérea do cruzamento entre a avenida Paulista e a rua da Consolação, no centro de São Paulo

Foto aérea do cruzamento entre a avenida Paulista e a rua da Consolação, no centro de São Paulo Eduardo Knapp/Folhapress

Eduardo Sodré
São Paulo

O número de veículos que precisam voltar às concessionárias para o conserto de um defeito de fabricação cresce ano após ano. O recorde de 2017 foi batido em 2018: o número de recalls passou de 130 para 142, de acordo com o Procon-SP.

Os números contabilizam carros, motos, quadriciclos, ônibus e caminhões, e cada um desses chamados pode incluir diferentes modelos de uma mesma montadora.

No ano passado, as campanhas envolveram 2,2 milhões de unidades, mas somente 324,8 mil veículos foram reparados no período, segundo o levantamento do Procon-SP.

O índice de comparecimento, que não chegou a 15%, expõe o problema dos comunicados. Muitos motoristas desconhecem possuir um veículo defeituoso —e todo recall é feito por haver risco de acidente grave, com danos a ocupantes e terceiros.

O profissional de TI Rodrigo Coutinho ficou sabendo por acaso que seu Chevrolet Vectra precisava de conserto. Descobriu o problema ao buscar informações sobre o carro no site da montadora. Ele diz que logo agendou o reparo, feito gratuitamente em uma concessionária, como manda a lei.

Coutinho era o segundo dono carro e, por isso, não recebeu nenhum comunicado. Em geral, as fabricantes enviam mensagens ao primeiro proprietário, cujo nome consta no banco de dados.

Por lei, as montadoras precisam divulgar o recall em mídia impressa, TVs e rádios, além de expor o problema em seus sites.

Há um padrão a ser seguido para que a informação seja considerada clara pelo DPDC (Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor). É por isso que os anúncios têm tom parecido.

Rodolfo Rizzotto, advogado e autor do livro “Recall – O que as Montadoras não Contam”, considera que a forma atual de divulgação é insuficiente. “As empresas pagam para fazer o comunicado, mas se tivessem o real interesse no comparecimento, fariam também divulgação ostensiva via assessoria de imprensa.”
Montadoras afirmam que têm investido na melhor divulgação das campanhas.

Em nota, a Nissan diz que entra em contato com os consumidores desde que o cadastro esteja atualizado. Segundo a empresa, o índice de comparecimento é de aproximadamente 80% para veículos mais novos, que estão dentro do prazo de garantia.

A BMW inseriu no seu aplicativo Connected uma função que dispara mensagem aos donos de carros envolvidos em um recall. O aviso permanece ativo até que o carro seja levado para o conserto.
Outro procedimento adotado pelas fabricantes é detectar o problema durante uma revisão de rotina e fazer o reparo necessário, sem custos.

“Deixei o carro na concessionária e, quando fui buscá-lo, me disseram que a bomba de combustível havia sido substituída sem custo”, diz a enfermeira Janaína Moraes, dona de um Honda Fit 2014.

Ela ainda teve de fazer a troca do airbag do passageiro: seu carro era um dos mais de 50 milhões envolvidos na maior convocação da história.

Em caso de colisão, o equipamento feito pela japonesa Takata libera partículas metálicas que podem causar ferimentos graves. Segundo dados do aplicativo Papa Recall, cerca de 25% de todos os chamados cadastrados na plataforma se devem a esse defeito.

Para Rizzoto, as convocações teriam maior retorno caso fosse possível levar o carro a oficinas credenciadas, e não apenas a concessionárias. Esse modelo é adotado nos Estados Unidos.

O advogado diz que se o dono de um carro envolvido em um recall morar no interior, talvez tenha de viajar centenas de quilômetros para resolver o problema. Dessa forma, haverá gastos com deslocamento e o procedimento deixará de ser gratuito.

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