Descrição de chapéu 3º Seminário Economia da Arte

Mostra exibe bibliotecas e reflete sobre pretensão de abarcar o saber do mundo

Exposição com realidade virtual, no Rio, é inspirada em livro do argentino Alberto Manguel

Bruno Lee
Rio de Janeiro

Para o escritor argentino Alberto Manguel, 71, a mesma biblioteca pode ser símbolo da ordem, durante o dia, e do caos, durante a noite. 

O período noturno, quando os espaços parecem "deleitar-se na alegre e essencial mixórdia do mundo", é o que mais o agrada. Não à toa, ele batizou um ensaio sobre esses lugares de "A Biblioteca à Noite" (Companhia das Letras, 304 págs., R$ 59,90).

"Quem sabe devido à familiaridade da noite com as visões espectrais e os sonhos reveladores, elas [histórias contadas nos livros] se tornam mais vividamente presentes depois que o sol se põe", diz um trecho da obra.

O ponto de partida do ensaio, de 2006, é a montagem da biblioteca particular do argentino, em um celeiro do século 15 na França. A intenção era reunir seus livros, espalhados pelo mundo. Filho de um diplomata, o escritor cresceu e viveu em diversos países.

Ele, então, discorre sobre vários aspectos desses lugares: sua história, os diferentes métodos de catalogação e o dilema entre a falta de espaço físico e a pretensão de abarcar todo o conhecimento do mundo, entre outros.

O acervo de Manguel (uma réplica dele) é a base da exposição "A Biblioteca à Noite", que usa realidade virtual para levar visitantes a dez desses espaços pelo mundo. A mostra está em cartaz no Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, até 26 de janeiro.

A exposição foi criada pelo diretor de teatro e artista canadense Robert Lepage junto com a sua companhia, Ex Machina, a partir do livro do argentino. O motivo original era celebrar os dez anos da Biblioteca e Arquivos Nacionais do Québec (Canadá), em 2016.

Desde então, a mostra já passou por Moscou (Rússia), Nantes (França) e São Paulo. 

Minutos após a entrada dos visitantes, as luzes na biblioteca de Manguel, o primeiro de dois espaços, vão se apagando, enquanto começa a tocar uma gravação. Um narrador lê um compilado das ideias presentes no livro do argentino.

Inicia-se também um jogo de acende e apaga, que faz as pessoas circularem pela sala.

A certa altura, com as luzes desligadas, acende-se um quadro com uma ilustração da Torre de Babel. Os visitantes se reúnem em torno dele.

"Uma biblioteca é nossa esperança de derrubar as barreiras do tempo e do espaço. Cada biblioteca se ergue à sombra da Torre de Babel, esta vã tentativa de abarcar todas as coisas (...)", afirma a locução.

De certa maneira, o segundo espaço da exposição também pretende acabar com as fronteiras do tempo e do espaço. 

Trata-se de uma "floresta" de bétulas, cujas copas são formadas por livros. O espaço é mobiliado com mesas e luminárias típicas de bibliotecas. 

A cenografia é explicada pela gravação, na antessala: "Entramos em uma biblioteca como entramos numa floresta. Fileiras de livros dão a impressão de uma certa ordem, assim como fileiras de árvores".

Partindo do meio dos troncos, o espectador pode ir à biblioteca da Abadia de Admont, na Áustria, à de Vasconcelos, no México, à do Parlamento de Ottawa, no Canadá, e a outras sete, basta colocar óculos de realidade virtual.

A lista inclui também o acervo do Nautilus, submarino do livro "Vinte Mil Léguas Submarinas", de Julio Verne, e o de Alexandria, no Egito.

No mundo por trás das lentes, o visitante é posto em posição de observador central. 

O que se vê são filmes em 360 graus de até 5 minutos. Os vídeos misturam cenas gravadas in loco e computação gráfica. A história dos espaços é contada por meio de narrações. Há ação, a cargo de atores, e detalhes por todos os lados --os monitores incentivam as pessoas a rodarem à vontade nas cadeiras.

A imersão é tal que a reportagem se pegou olhando para baixo, mais de uma vez, à procura dos próprios pés (que não estavam em cena, claro).

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