Descrição de chapéu 4º Fórum Inovação Educativa

Metodologias ativas vieram para ficar, dizem educadores

Aulas em formatos inovadores ganham espaço, mas esbarram em formação deficitária

São Paulo

Para educadores, o monopólio da aula expositiva está com os dias contados. O modelo de aula tradicional não deve morrer, mas tende a perder cada vez mais espaço para as metodologias ativas, um formato de aula horizontal e colaborativa que visa o desenvolvimento integral do estudante, estimula a criatividade e as habilidades socioemocionais e insere o conteúdo aprendido na realidade do aluno.

As possibilidades oferecidas por esse modelo —e as dificuldades de implementá-lo— pautaram uma das mesas do 4º Fórum Inovação Educativa, realizado nesta quarta-feira (13) no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. O evento foi organizado pela Folha e contou com patrocínio da Fundação Telefônica Vivo.

Segundo Júlia Pinheiro Andrade, pesquisadora do Centro de Referências em Educação Integral, as metodologias ativas não são uma prática “novidadeira”, mas fruto de uma nova cultura escolar. “Se você quer aprendizado de longa duração, os métodos expositivos tradicionais não dão conta”, diz. 

Quatro pessoas sentadas em poltronas em um palco
Everton Lopes (esq.), jornalista da Folha, Marcelo Veras, presidente do IBFE (Instituto Brasileiro de Formação de Educadores), da Unità Faculdade, em Campinas/SP, Julia Pinheiro Andrade, pesquisadora do Centro de Referências em Educação Integral, e Débora Sebriam, coordenadora de projetos no Instituto Educadigital - Reinaldo Canato/Folhapress

Mestre em filosofia da educação, ela considera necessário pensar o formato da aula a partir da intenção pedagógica de cada conteúdo. 

As aulas expositivas tradicionais, por exemplo, serviriam bem para ensinar raciocínios abstratos de ciências nos últimos anos da formação escolar, mas não fariam sentido na educação infantil. Nenhum dos dois métodos, diz, serve para tudo; o ideal seria uma combinação de ambos, com atenção às necessidades específicas de cada aluno. 

“Fórmulas prontas não funcionam”, afirma Júlia Andrade. “Não há um jeito único de ensinar tudo.”

Marcelo Veras, presidente do Instituto Brasileiro de Formação de Educadores (IBFE), vê o momento atual mais como uma volta às origens do papel do professor do que, propriamente, como uma revolução.

“Nós sempre fomos, por essência, condutores. Deixamos de fazer isso e passamos a ser meros transmissores de conhecimento [com o avanço tecnológico].” 

Veras acredita que, no futuro próximo, as habilidades socioemocionais e criativas serão muito mais valorizadas que a assimilação de conteúdos. Ela avalia que isso exigirá uma mudança radical na formação de professores, mas também vai gerar uma valorização inédita na profissão. 

A principal dificuldade, no momento atual, seria conscientizar os educadores e a direção das escolas a aderir a essa transição. “É quase uma evangelização, um trabalho de formiguinha”, diz Veras. 

Para além da precariedade ligada ao trabalho do professor no Brasil —que, na maior parte dos casos, precisa dar aula em múltiplas escolas para fechar o mês—, ele aponta uma dificuldade “enorme” em discernir a metodologia do conteúdo. 

Muitos docentes veem o uso de novos métodos como adereço, não como ferramenta de ensino. “Metodologia é metodologia, conteúdo é conteúdo. O método é um caminho, e leva ao mesmo fim [da aula tradicional].”

Para Débora Sebriam, coordenadora de projetos no Instituto Educadigital, que oferece cursos de atualização para professores, é necessário reivindicar mudanças estruturais para democratizar o acesso às metodologias ativas, ainda muito restritas às escolas particulares de elite.

“Temos que pensar em política pública. Não adianta mudar a sala de aula e não mudar a avaliação”, afirma.

Para que isso aconteça, ela defende que os educadores adotem papel mais ativo e se reconheçam como autores de seu trabalho, em vez de ferramentas de disseminação de conteúdo. 

Outras ações possíveis seriam incentivar pequenas mudanças dentro do sistema atual, compartilhar o que funciona dentro da sala de aula e planejar a educação em conjunto, prática ainda pouco comum. 

O uso inteligente de tecnologia na sala de aula também foi um consenso na mesa. “Falar de educação sem tecnologia é como falar de futebol sem bola”, declara Marcelo Veras, do IBFE. “A discussão não é se devemos trazer celular à sala de aula, é como fazer isso.” 

A maior novidade da tecnologia é a possibilidade de customizar o ensino para as necessidades do aluno. Mesmo assim, frisa, é importante entender que a inovação metodológica não se restringe ao uso de celulares e computadores.

Débora Sebriam, do Educadigital, concorda. “Trabalhei em escolas públicas de periferia e todos os alunos tinham celular. A gente conseguia fazer as coisas acontecer com o pouco que tínhamos”, conta. “Com criatividade, dá para progredir juntos.”

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