Descrição de chapéu 4º Fórum Inovação Educativa

Separe os conceitos verdadeiros dos mitos que rondam a neurociência aplicada à educação

Avanços no estudo do sistema nervoso ampliam estratégias de ensino, mas também inspiram fake news

Iara Biderman
São Paulo

Descobertas da neurociência sobre o desenvolvimento cognitivo abriram um campo enorme para a criação de estratégias educacionais inovadoras, mas também uma zona nebulosa de interpretações simplistas, exageradas ou mesmo falsas.

São os chamados neuromitos, conceitos distorcidos de neurociências e suas supostas aplicações cotidianas, que não contam com qualquer comprovação científica. 

“Ciência começa com evidência. Na saúde, a aplicação errada de um conceito mata. Erros na educação não matam imediatamente, mas podem fazer a pessoa morrer culturalmente”, diz Roberto Lent.

Professor do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, Lent vê uma gradação de neuromitos. “Alguns são completamente absurdos, como afirmar que usamos só 10% do nosso cérebro”, exemplifica. “Outros têm um fundo de verdade, mas perdem valor quando usados de forma exagerada.”

Herman Takasey

Exageros e distorções das descobertas científicas estão disseminados entre educadores e escolas no mundo todo.

A popularidade alcançada por alguns neuromitos levou um grupo de cientistas da área a escrever uma carta ao jornal britânico The Guardian alertando contra os abusos.

Pesquisadores, doutores e professores de instituições como a Universidade de Londres, Oxford e Cambridge (Reino Unido), Harvard, Columbia e Universidade da Califórnia (EUA) e Instituto Max Plank (Alemanha), assinaram a carta, preocupados com o gasto de recursos e os eventuais danos a alunos causados por teorias ineficazes na área da educação.

Essas pseudoteorias fazem sucesso em um mundo ávido por novidades e pelo que Roberta Ekuni, coordenadora do grupo de estudos em neurociência da Uenp (Universidade Estadual do Norte do Paraná) chama de “raio neurocientificador”, o primo intelectual do raio gourmetizador

“Colocar que algo é supostamente baseado em neurociência deixa uma teoria mais apetitosa, as pessoas acreditam ser uma verdade absoluta”, diz Ekuni. Ela, junto com outros pesquisadores brasileiros e colaboradores internacionais, criou o projeto Caçadores de Neuromitos. 

Confira a seguir os mitos mais em voga hoje no universo da educação, algumas neuroverdades e também algumas hipóteses promissoras da neurociência.


NEUROMITOS

É mais eficaz educar segundo o estilo de aprendizagem de cada aluno  

A afirmação é baseada na hipótese de que algumas pessoas respondem melhor a estímulos auditivos, outras, a visuais, ou ainda, cinestésicos. A partir disso, foram categorizados alguns “estilos” de ensinar. O principal problema é que os estudantes são colocados em grupos fechados, para que se encaixem em determinado estilo. Além disso, a classificação é feita, em geral, a partir de preferências autodeclaradas. Gostos e aptidões pessoais podem influenciar a adesão ao estudo, mas isso não significa aprender melhor.

Além disso, ser exposto a formas de estudar diferentes das preferidas ou mais fáceis é uma forma de estimular mais habilidades cognitivas. Finalmente, os estudos científicos mais sólidos (feitos com maior número de participantes, grupo de controle e critérios consistentes para avaliação dos resultados) mostram que a educação “customizada” ao estilo de cada aluno não influencia positivamente o desempenho escolar. 

Pessoas criativas usam o hemisfério direito do cérebro; as mais lógicas, o esquerdo

Conceito popular tanto na criação de algumas estratégias educacionais quanto nos livros de autoajuda, a hipótese não é corroborada pela neurociência. Embora o cérebro seja anatomicamente dividido em dois hemisférios e exames de neuroimagem identifiquem a lateralização de certas capacidades cognitivas (por exemplo a linguagem é acionada no lado esquerdo), o cérebro como um todo é usado para a realização de tarefas intelectuais. Por exemplo, para aprender uma língua, entram em ação a parte esquerda (da linguagem) e a direita (controle da atenção). Pesquisas feitas com scanners cerebrais também mostram que, na maioria das pessoas, não há prevalência de um dos lados do cérebro.

Há períodos críticos para desenvolver certos conhecimentos

Há fases mais propícias para se aprender certas coisas, mas é a interpretação fundamentalista deste conceito que o coloca na categoria de neuromito. Em consequência desses exageros, os pesquisadores preferem chamar de “período sensível” a fase em que o desenvolvimento de uma capacidade cognitiva exige menos esforço do ser humano. Mas isso não significa que se perde a oportunidade de desenvolver habilidades. O período para a aquisição de qualquer conhecimento é indefinido, como mostram as últimas descobertas sobre a plasticidade cerebral. É, sim, possível, fazer novas ligações entre os neurônios (sinapses) durante toda a vida.

É preciso estimular ao máximo a criança até os três anos

Essa noção está relacionada ao período sensível para aquisição de habilidades cognitivas. Como nos primeiros anos de vida a produção de sinapses, que permitem a transmissão de informações entre os neurônios, é mais intensa do que em outras fases da vida, oferecer uma quantidade enorme de estímulos e informações poderia tornar a criança mais inteligente.

O problema aqui é o exagero. Sabe-se que a privação de estímulos, como não conversar com a criança ou privá-la de interações sociais, é muito prejudicial ao seu desenvolvimento cognitivo e emocional. Mas não há comprovação científica sobre a relação entre uma quantidade elevada de estímulos nos primeiros anos de vida e a consolidação de conhecimento. Além disso, existem suspeitas de que uma estimulação excessiva e não compatível com a idade pode provocar efeitos indesejáveis. 

Ginástica cerebral melhora o desempenho em provas

Métodos para exercitar o cérebro tornaram-se um produto, e franquias de academias de ginástica cerebral proliferam. Tudo bem, só que, em seu material publicitário, essas empresas costumam afirmar que o cérebro é um músculo. Não é. Basicamente, é tecido nervoso. A analogia serve apenas para explicar a necessidade de manter o cérebro em uso de forma que não perca conexões neurais e siga sempre formando novas conexões. É o que as pessoas fazem quando tentam resolver um problema matemático, quando aprendem uma nova língua ou as regras do jogo de xadrez.

A partir desse pressuposto, empresas oferecem uma série de fórmulas e de joguinhos para supostamente aumentar a capacidade cognitiva, criar novos caminhos neurais, ajudar alguém a ir bem em um exame. Mas não há sistema de avaliação para medir a eficácia desses produtos.

​NEUROVERDADES

Qualidade e período do sono têm impacto na aprendizagem 

Muitos grupos de estudos pesquisam a relação entre sono, memória e desenvolvimento cognitivo. Já existe evidência suficiente para afirmar que uma noite bem dormida ou uma sesta após o almoço tem efeito positivo no aprendizado.

Também há pesquisas científicas mostrando como o ritmo circadiano (período de sono e vigília) interfere na aquisição de conhecimento de alunos de diferentes faixas etárias. Experiências em escolas que retardaram o horário do início das aulas têm comprovado a melhora no desempenho acadêmico causada por mais horas de sono. Essas evidências estão de acordo com descobertas da neurociência sobre consolidação e reestruturação da memória quando dormimos e a necessidade do sono para a concentração e para a recombinação de ideias que leva à resolução de problemas.

Dieta certa está ligada ao desenvolvimento cognitivo 

Há uma correlação direta entre consumo de nutrientes e atividade cerebral e muita evidência científica mostrando como dietas deficitárias prejudicam o desenvolvimento cognitivo. A ciência indica que alimentação equilibrada, em que produtos ultraprocessados não substituem ingredientes naturais, é também uma questão de boa educação.

Uma série de estudos mostra como o café da manhã influencia o aproveitamento das aulas. De acordo com as pesquisas, não fazer a primeira refeição do dia prejudica a realização de tarefas intelectuais mais complexas e a memória de curto prazo. Mas é bom lembrar que a relação positiva entre nutrientes e cognição se aplica à qualidade e variedade de alimentos “in natura”, e não a determinados suplementos; não há evidência de que cápsulas de vitaminas tenham efeito no desempenho intelectual.

NEUROAPOSTAS

Educação bilíngue traz vantagens cognitivas

A análise de diferentes estudos com crianças bilíngues aponta para algumas vantagens, como maior rapidez em avaliar diferentes informações, focalizar nas informações que são mais relevantes e resolver problemas. Em pesquisas realizadas em escolas dos Estados Unidos e do Reino Unido, alunos bilíngues também apresentaram maior facilidade para mudar de uma tarefa para outra e para controlar a atenção. Mas ainda são necessários mais estudos para determinar variáveis que podem interferir nesses resultados, como condições sociais e econômicas dos estudantes.

Meditação melhora o desempenho escolar

Técnicas de meditação, como ioga e mindfulness, são objeto de estudo da neurociência há algum tempo. Há desde pesquisas sobre melhora de sintomas em pessoas com stress pós-traumático a imagens computadorizadas do aumento e da redução da atividade em certas áreas do cérebro que podem explicar efeitos como maior concentração e diminuição da ansiedade.

Esses resultados têm efeito na cognição e no desempenho intelectual e começam a ser testados em escolas. Mas, por enquanto, os estudos mais amplos sobre os efeitos da meditação são os realizados com adultos. Ainda é preciso pesquisar um número maior de crianças e adolescentes e, por enquanto, não está estabelecido como as práticas podem ser replicadas em diferentes ambientes escolares e para quais faixas etárias são mais indicadas.

Fontes: Roberto Lent, da UFRJ e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino; Roberta Ekuni, coordenadora do grupo de Estudos em Neurociência da Uenp (Universidade Estadual do Norte do Paraná) e editora da coleção “Caçadores de Neuromitos”; estudo do Centre for Educational Neuroscience da Universidade de Londres
 

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