Mentalidade tecnológica deve ser meta de novatos e veteranos

Mais que dominar ferramentas, profissional deve saber como aplicar a tecnologia em sua área

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Lisandra Matias
São Paulo

A transformação digital pela qual as empresas estão passando —acelerada pela pandemia— impacta todas as carreiras e exige que os profissionais saibam lidar com a tecnologia em seu campo de trabalho.

Isso inclui desde o domínio de ferramentas tecnológicas básicas, como as de webconferência ou gestão, a aprender a usar softwares específicos da área e até, dependendo do setor de atuação, trabalhar com dados (big data), algoritmos e inteligência artificial.

Para Danilca Rodrigues Galdini, diretora da Cia de Talentos, empresa de consultoria em RH com foco em jovens em início de carreira, mais importante do que pensar no tipo de tecnologia que vai estar em cada profissão é entender que hoje o mercado também pede uma mentalidade tecnológica.

Essa forma de pensar está relacionada a desenvolver competências e habilidades para saber usar os recursos que a tecnologia proporciona, não necessariamente fazendo a programação, mas entendendo e analisando os resultados gerados e o alcance que podem ter. Também está ligada a um pensamento não linear e mais adaptativo, voltado para um mundo que tem velocidade e complexidade diferentes.

“Não adianta, por exemplo, uma empresa achar que vai fazer toda a transformação digital inserindo um monte de ferramentas tecnológicas se ela não apoiar a mentalidade dos colaboradores nesse sentido”, aponta.

“O mesmo vale para o profissional. De que vale aprender a usar as ferramentas sem entender o impacto que elas têm no todo, na relação com as pessoas, na gestão da equipe?”

Uma forma de garantir isso, segundo ela, é as empresas darem oportunidade para as pessoas participarem de projetos com diferentes áreas, o que amplia a visão do todo. Estruturas menos hierárquicas e mais colaborativas, em que os profissionais trocam mais informações, também podem ajudar, além de se abrir mais ao risco e à experimentação.

“Em algum nível, os profissionais vão precisar ter conhecimentos sobre programação para, por exemplo, encontrar o que é relevante dentro das suas bases de dados e transformar isso em informação estratégica para a tomada de decisões”, diz Samantha Mazzero, responsável pelo desenvolvimento de educação digital do Profuturo, núcleo da FIA (Fundação Instituto de Administração) que trabalha com estudos do futuro.

“Hoje, temos bancos de dados imensos, uma quantidade gigantesca de informações à disposição. O profissional tem que ter o conhecimento mínimo necessário para dialogar com o especialista em tecnologia da informação [TI] e saber o que pedir e como pedir.”

Um administrador, por exemplo, precisa entender o quanto a inteligência artificial vai colaborar na tomada de decisões, na implementação de estratégias corporativas e como isso fará a empresa ser mais eficiente e rentável.

Já um advogado pode consultar bases de dados governamentais, legislações e cruzar processos ou pesquisar jurisprudência com o auxílio de inteligência artificial.

Nesse cenário, segundo Mazzero, quem já está no mercado vai precisar se atualizar. Cursos de pós-graduação, como especializações, e outros cursos de curta duração nesses tópicos específicos vão adicionar a competência em tecnologia que o profissional necessita.

A analista de comunicação e marketing Renata Souza Medeiros, 32, é um exemplo de profissional com essa nova mentalidade.

Ela atua na empresa de engenharia Progen e teve a ideia de implementar uma plataforma de dados para produzir conteúdos para o departamento de marketing.

Para isso, além do MBA em inteligência de mercado e marketing, que terminou no final de 2020 na Saint Paul Escola de Negócios, procurou, paralelamente, cursos de curta duração em temas específicos, como inteligência artificial e business intelligence.

“Essas capacitações me ajudaram a solicitar o que preciso para a TI e entender as possibilidades que a tecnologia oferece para a extração dos dados”, diz.

A analista de comunicação e marketing Renata Souza Medeiros, 32, que foi atrás de cursos para aprender sobre tecnologia - Jardiel Carvalho/Folhapress

Para além das pós, as graduações, de qualquer carreira, precisam ser revistas para incluir em seus currículos disciplinas de tecnologia.

“Se as empresas estão investindo em transformação digital, as universidades precisam entender com urgência quais são essas mudanças tecnológicas para formar seus alunos em sintonia com essas demandas”, diz Fábio Reis, diretor de inovação e redes de cooperação do Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior do país.

Ele conta que o setor produtivo tem percebido lacunas na formação de quem chega ao mercado, tanto em termos de soft skills e competências, como em relação a este mundo novo que exige conhecimento tecnológico. “Minha preocupação é que o ensino superior, que já estava desconectado do setor produtivo, fique ainda mais distante dele.”

Reis diz, no entanto, que algumas instituições e grupos educacionais já estão olhando para startups e para as tecnologias que existem, trabalhando junto com empresas e criando núcleos de inovação.

De acordo com ele, possíveis caminhos estão no diálogo entre setor produtivo, Conselho Nacional de Educação e instituições de ensino.

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