Israel transforma problemas em vantagem e vira referência em inovação

Mercado interno pequeno e histórico de guerra ajudam no desenvolvimento de tecnologia na Nação Startup

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Tel Aviv

Como um país do Oriente Médio em constante situação de conflito, com área menor que Sergipe, escassez de recursos naturais e mercado interno limitado está sempre na lista das economias mais inovadoras?

Com 73 anos de existência e pouco mais de 9 milhões de moradores, Israel tem o maior número de empresas embrionárias por habitante do mundo, a ponto de ser apelidado de Nação Startup. A fórmula que o levou a virar referência tem sido estudada, ingrediente por ingrediente, há mais de uma década.

O principal componente talvez seja o senso de urgência. O país tem uma capacidade de se reinventar diante dos desafios. A rapidez e a flexibilidade transformam israelenses em candidatos a arriscar, ousar e empreender.

“A inovação está no DNA dos israelenses”, diz Sílvia Brand, diretora da Câmara de Comércio e Indústria Israel-Brasil. “Eles não encaram falhar como fracasso, e sim como um passo em direção ao sucesso”.

Israel é o 7º país no ranking Bloomberg Innovation Index de 2021. Até perdeu duas posições desde 2019, mas continua no Olimpo da inovação mundial. É o terceiro do mundo com empresas na Nasdaq. Contabiliza 14 Prêmios Nobel e criou tecnologias que, hoje, são essenciais em todo o globo. O pen-drive, o firewall, o Waze, o ICQ, a irrigação por gotejamento, o Mobileye (dispositivo que apita se o carro se aproxima de algo) e o Gett (primeiro aplicativo conectando clientes e táxis) são alguns exemplos.

Mulheres seguram celular mostrando o certificado que foram vacinadas contra a Covid. Uma está usando máscara e a outra está com a máscara no pescoço
Participantes exibem seus "passaportes verdes" (prova de estarem vacinadas contra a COVID-19) ao chegarem a um estádio em Tel Aviv antes de assistirem a um "concerto passaporte verde", para idosos vacinados - Jack Guez - 5.mar.2021 / AFP

Nem a pandemia reduziu a capacidade das empresas israelenses de captar recursos no exterior. Em 2020, arrecadaram US$ 9,5 bilhões, 23% a mais do que em 2019.

“Os números de investimento são notáveis em um momento de crise global”, afirma Eugene Kandel, CEO da ONG Start-Up Nation Central. “Eles indicam a confiança dos investidores globais no amadurecimento de nossa indústria. O apoio ao setor de inovação tecnológica israelense na última década valeu a pena”.

Mas, será que os israelenses têm mais e melhores ideias do que o resto do mundo? Saul Singer, um dos autores do já clássico livro “Nação Start-Up: a história do milagre econômico de Israel”, dá uma resposta. Não é mais inspiração, mas capacidade de colocar tudo em prática: “O sucesso na tecnologia tem pouco a ver com ideias. Israel não está gerando mais ideias do que outras regiões do mundo. O sucesso tem a ver com a realização das melhores ideias”.

O país também está acostumado a terrorismo e guerras, que podem estourar a qualquer momento. Essa questão gera mais um elemento importante: o alistamento militar obrigatório ao Exército de Defesa de Israel.

O serviço militar –para homens e mulheres– ajuda a criar uma economia de ponta, já que o exército investe em tecnologias que acabam beneficiando a população civil.

O exército é um componente cultural de Israel. Fornece oportunidades de desenvolvimento pessoal aos jovens soldados e de criação de networking. Na caserna, aprendem a se organizar, a tomar iniciativas, a ter responsabilidade, improvisar, trabalhar em grupo e, importante: dar a volta por cima quando falhar.

Outro ingrediente da receita de sucesso desse ecossistema de inovação é a diversidade. Nove em 10 israelenses judeus (75% da população) são imigrantes ou filhos de imigrantes. E imigrantes tendem a se arriscar mais.

Boa parte desses novos israelenses migraram da ex-União Soviética nas últimas três décadas. No fim dos anos 1980, o país estava numa situação econômica complicada, com alta inflação e indústria atrasada. Nos anos 1990, tudo mudou com a queda do Muro de Berlim e a chegada em massa de russos (cerca de 1,5 milhão).

“Vieram muitos engenheiros e técnicos. O país, então, tomou uma decisão formal de apostar no potencial dos cérebros locais para superar a crise”, conta Marco Faldini, associate partner da IBI-Tech (Israel Brazil Innovations), consultoria de brasileiros em Tel Aviv que faz a ponte entre tecnologia israelense e demandas de clientes do Brasil.

Em 1993, Israel criou o “Yozma” (Iniciativa, em hebraico), oferecendo incentivos fiscais para investimentos de capital de risco estrangeiro no país e prometendo dobrar qualquer investimento com fundos do governo. “Até hoje, o governo ajuda a desenvolver setores específicos, como o de cleantech (tecnologias limpas)”.

O tamanho diminuto de Israel e de seu mercado consumidor é transformado em vantagem quando se trata de inovação. Empreendedores e investidores se conhecem e se misturam. O networking é fácil, a informalidade é maior e o pensamento é global: tudo é feito em inglês e para o mercado externo.

Um exemplo disso é a “Tech Mile” (milha tecnológica), em Tel Aviv. Uma área de 2,6 quilômetros, no centro, reúne a maioria das 800 empresas de tecnologia embrionárias da cidade que, não à toa, foi eleita em 2020 a sétima melhor cidade do mundo para startups (segundo a Startup Blink).

Na era pré-Covid, empreendedores circulavam por bares e pubs, se encontravam com colegas e investidores, gerando um ecossistema próprio para novas ideias e investimentos. Na pandemia, os encontros migraram para o Zoom, mas iniciativas de incubadoras tentam manter esse clima de networking sem fim.

As aceleradoras são parte da história, com empreendedores que pagam uma taxa mensal para poder usufruir da infraestrutura e participar de reuniões, palestras e eventos com potenciais investidores nacionais e estrangeiros.

No total, Israel tem cerca de 5 mil startups, além de escritórios de 1.200 empresas de high tech em estágios mais avançados, incluindo 300 centros de P&D de gigantes como Google, Microsoft, IBM, Intel, eBay, Amazon, AOL, Apple, GE, SAP e Oracle.

O último ponto da fórmula é a qualidade da pesquisa acadêmica, com universidades e instituições de pesquisa científica reconhecidas no mundo. A ligação entre universidade e indústria é incentivada. Empresas de transferência de tecnologia acadêmica servem de elo entre os dois setores e ajudam a transformar as descobertas científicas oriundas das universidades em produtos finais.

“Aqui é tudo muito fluido e conectado”, diz Marco Faldini. “É muito comum que professores recebam royalties de invenções que viraram produtos”.

Faldini recebe grupos brasileiros em Israel e faz matching entre empresas dos dois países: “A primeira coisa que acontece com brasileiros que chegam aqui é surpresa. Eles achavam que Israel só tinha guerra e religião. Depois, perguntam como essa locomotiva de inovação aconteceu”.

Devido à pandemia, a mais recente tendência é buscar novidade de healthtech: telemedicina, inteligência artificial para raio-X, ficha médica única, distanciamento social em clínicas.

Sílvia Brand, da Câmara de Comércio Israel-Brasil, identifica uma mudança no comportamento dos brasileiros que olham para o exemplo israelense: “Eles entenderam que não dá para continuar só com o mercado interno. É preciso procurar novos horizontes”.

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