Consumidor é o arquiteto das mudanças no agronegócio, diz pesquisador

Para Maurício Lopes, sustentabilidade terá tanto valor quanto rendimento econômico

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Bruno Blecher
São Paulo

A tecnologia que domou as terras ácidas do cerrado nos anos 1970 transformou a região no maior polo de produção agrícola do mundo. Essa revolução no Brasil Central trouxe ganhos econômicos, mas causou graves estragos ao ambiente, como a redução da área nativa do bioma a menos de 50% do seu tamanho original.

“A realidade hoje é outra, temos que reconhecer”, diz Maurício Antônio Lopes, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), principal responsável pela ocupação agrícola do cerrado nas décadas de 1970 e 1980.

Maurício Antônio Lopes, engenheiro agrônomo pesquisador da Embrapa
Maurício Antônio Lopes, engenheiro agrônomo pesquisador da Embrapa - Embrapa/Divulgação

Mineiro de Bom Despacho, o agrônomo participou da expansão da região. Como pesquisador em genética, ajudou a criar o milho tropical, variedade adaptada às condições de clima e solo do cerrado. Depois de comandar a Embrapa por seis anos, o cientista hoje se dedica à pesquisa de modelos para a agricultura do futuro que, diz, será muito diferente da atual.

“O consumidor é o arquiteto dessas mudanças. No futuro, não vamos ver mais dezenas de colheitadeiras trabalhando lado a lado em áreas imensas de soja”, afirma ele, que prevê fazendas menores, mais diversificadas e sustentáveis.

A população mundial deverá passar dos atuais 7,8 bilhões para 9,7 bilhões em 2050. Vamos produzir alimentos suficientes e de forma sustentável, sem destruir mais ainda a natureza? A agricultura do futuro vai ser sistêmica. Não vamos ter mais uma agricultura focada em uma só espécie ou em poucas, a tendência é ela se integrar a outras cadeias de valor. Vai ser muito diferente. Vamos ter crescimento muito forte da consciência ambiental, da necessidade de se usar recursos naturais de maneira segura e sustentável.

A agricultura está entre os setores mais impactados pela nova realidade de investimentos. As empresas vão se alinhar a clientes cada vez mais exigentes em sustentabilidade, obrigando-as a reduzir riscos associados a desmatamento, uso imprudente de defensivos e fertilizantes, expansão exagerada de monoculturas. Megaempreendimentos terão que buscar a reconversão nos seus modelos de negócios.

O senhor trabalha na Embrapa, instituição que se orgulha de ter gerado tecnologia para ocupar boa parte do Brasil Central com a agropecuária intensiva. Mas esse modelo, que foi importante para o Brasil liderar o agronegócio mundial, devastou o cerrado. A gente fez o que fez porque era a realidade daquele momento. O Banco do Brasil nos anos 1970 financiava “correntão” para derrubar matas e abrir o cerrado, ninguém questionava. Essa realidade mudou radicalmente. Foi necessário fazer aquilo para o país ganhar segurança alimentar, capacidade de produzir excedentes e exportar. Isso nos deu fôlego, capacidade de desenvolvimento. Mas a gente tem que reconhecer que a realidade mudou. Passamos de um mundo em que eram poucos os protagonistas da mudança para um mundo em que a sociedade é que está gerindo a mudança. Provavelmente não vamos ver em 2050 essas áreas imensas no Brasil Central com soja a perder de vista, e dezenas de colheitadeiras trabalhando lado a lado. As áreas serão bem menores e mais integradas.

Qual será a nova paisagem? Fazendas do futuro terão que buscar modelos de produção mais integrados e resilientes, combinando múltiplas lavouras, criações e florestas que viabilizem a produção certificável de carbono neutro de alimentos, fibras, energia, além de biomassa, que tende a se tornar componente para descarbonizar as indústrias química e de materiais.

Outra oportunidade de negócios surgirá na forma de serviços ambientais qualificados, medidos e valorados, que poderão atrair investimentos sustentáveis na agricultura brasileira.

Para incorporar o nível de complexidade exigido pelo mercado e pela sociedade, as unidades produtivas devem avançar em conectividade e automação. O campo será inteligente e com gestão e supervisão remotas. A nova fazenda vai mimetizar ambientes naturais. Pode ser agricultura regenerativa, intensificação sustentável ou uma agricultura que dá tanto valor aos serviços ambientais quanto ao valor físico da produção. As fazendas vão ter que ser modeladas para produzir água, fixar carbono, cuidando também da saúde do solo. E a sociedade terá que aceitar pagar por isso.

Cresceu o consumo de produtos veganos e surgiram novidades na área de alimentação como hambúrguer vegetal e a carne feita em laboratório. Ainda são experiências. Mas têm potencial para trazer mudanças nos mercados? Além dos veganos e dos vegetarianos, temos outra tendência crescendo, o flexitarianismo. Eu sou um flexitariano, já não como carne vermelha como no passado. Coloquei mais proteína vegetal na dieta. É uma tendência que está crescendo entre os jovens.
A nova geração está preocupada com três dimensões: saúde, meio ambiente e bem-estar animal. O consumidor é o grande arquiteto das mudanças que estão em curso na agricultura e isso vai se se intensificar.

A pandemia colabora para acelerar essa tendência? Não tenha dúvida. Quando você vê o impacto das comorbidades na ocorrência e na severidade da doença, é óbvio que isso acende um sinal amarelo na cabeça das pessoas, que querem cuidar mais da saúde.

Um número grande de jovens aderiu à onda vegana em função da consciência de que não devemos tratar animais como tratamos hoje. A produção intensiva de animais é considerada inadequada pelos jovens, que se chocam com imagens de uma porca dando a luz a 15 filhotes, presa numa gaiola de pouco mais de dois metros quadrados.

“É triste ver que falta inteligência estratégica no país. O que a gente faz? Tenta gerir o futuro com conhecimento do passado

Maurício Antônio Lopes

pesquisador da Embrapa

Que mudanças esse tipo de visão vai exigir? Isso vai exigir uma conversão no campo. As fazendas vão ter que mudar seu modo de produção. Uma nova onda está surgindo a partir da Europa, construída para orientar o investimento sustentável. Empreendimentos do futuro serão modulados por essa nova métrica. É o que está por trás do conceito ESG, a sigla em inglês para “environmental, social and governance”.

O ESG é usado para medir as práticas ambientais, sociais e de governança. Grandes investidores e gestores de investimento estão percebendo que a geração que está emergindo não dá valor só ao rendimento econômico-financeiro, mas ao social e ao ambiente. Quando vejo o que está por trás da ESG, percebo que o modelo que temos hoje em Mato Grosso não tem futuro.

Alguns produtores rurais brasileiros justificam o desmatamento na Amazônia com um chavão: a Europa destruiu toda a sua mata e agora quer dizer o que nós devemos fazer com as nossas florestas? Eu mesmo já usei esse argumento. Você viaja pela Europa e vê poucas florestas, rios sem matas ciliares, uma devastação total. Mas é esse argumento que devemos usar?

A gente tem que gerir as nossas transições olhando mais adiante. E isso, o Brasil não faz. É triste ver que falta inteligência estratégica no país. O Brasil tem poucos “think tanks”. Passei um ano em um dos maiores “think tanks” do mundo, um laboratório de ideias na Áustria. Esses caras pensam 100 anos à frente. E o que a gente faz aqui? Tenta gerir o futuro com conhecimento do passado.

Temos que entender o que vai acontecer no futuro, quais são as trajetórias possíveis. Aprendi isso na Coreia. A indústria de automóveis na Coreia, 30 anos atrás, conseguiu modelar o carro que os americanos querem hoje, porque tinha a obsessão de passar os japoneses no mercado americano. E passaram.

O carro elétrico vai acabar com os biocombustíveis? Todas essas coisas são ritos de passagem. O etanol e o próprio carro elétrico são ritos de passagem na direção de um modelo que não vai ser nem uma coisa nem outra. O futuro da biomassa não é produzir energia. Biomassa são polímeros extremamente complexos que a natureza gastou milhões de anos para desenvolver.

É um absurdo a gente martelar esses polímeros para transformá-los em açúcar, fermentar em álcool e queimar no tanque de um automóvel. Podemos transformar esses polímeros em coisas extremamente valiosas. A biomassa é o melhor substituto para o plástico, basta a sociedade querer pagar o preço. Vamos seguir produzindo biomassa de cana, o etanol, mas no futuro vamos ter alternativas energéticas mais baratas e ambientalmente mais viáveis, como hidrogênio. E a biomassa vai ter funções mais nobres.

Há um modelo de agricultura sustentável para a Amazônia, capaz de garantir renda aos moradores e preservar o bioma? São muitos os futuros. Vejo um futuro fabuloso com o turismo. A outra riqueza fabulosa da Amazônia é serviço ambiental e ecossistêmico. O Brasil tem que aprender a descrever, qualificar e valorizar esses serviços. A Amazônia é importante na qualidade do ar, no regime de chuvas, nos ciclos hídricos do planeta. Temos que investir em ciência para entender isso e qualificar. Publicar em revistas científicas internacionais, dizer para o mundo quanto vale a floresta, que impacto tem na vida de todos, para o equilíbrio do planeta. O mundo tem que nos ajudar a cuidar desse ambiente.

A riqueza está numa agricultura que gere produtos certificados e sustentáveis. A marca brasileira mais conhecida no mundo é Amazônia, esse é o “brand” do Brasil, e a gente deixa que seja usado contra nós. Há formas sustentáveis de se produzir madeira na Amazônia sem degradar a floresta. Há árvores muito valiosas que vão morrer em três anos. E vão morrer fazendo tombar um bocado de outras. Você pode extrair de maneira seletiva essa madeira e certificá-la como sustentável. A floresta continuará em pé, é um ser vivo que tem o seu ciclo: nasce, cresce e morre.

Cada árvore da Amazônia é habitada por trilhões de micro-organismos, que a estão ajudando a suportar pragas e doenças, a enfrentar variações no ambiente. Essas interações são riquíssimas, com potencial para aplicações em várias indústrias, e que a gente ainda conhece pouco.


Raio-X

Maurício Antônio Lopes, 60
Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa, com mestrado e doutorado em genética. Foi presidente da Embrapa de 2012 a 2018. É membro do Conselho Consultivo de Pesquisa Agropecuária Internacional, que atua no estudo de sistemas integrados e sustentáveis.

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