Após 20 anos na ativa, Google redefine a noção de internet

Ao agilizar a busca na web, empresa deu outro significado e valor à informação

Paula Soprana Ricardo Ampudia
São Paulo

Um pouco desorientadas com os livros nas prateleiras, cinco crianças caminham nos corredores da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo. Cheiram os livros e se impressionam com seus tamanhos e páginas amareladas pelo tempo. “Parece que alguém derrubou café”, diz um deles.

A Folha levou cinco estudantes de 10 e 11 anos para  uma das mais tradicionais bibliotecas da capital paulista para resolver uma questão simples: quem foi o primeiro presidente do Brasil. A tarefa era responder a pergunta a partir dos livros de história, sem consultar o Google. 

“Foi muito difícil. Precisei procurar no sumário. Não estava escrito logo de cara o primeiro presidente do Brasil foi...”, relata Vitor Bolleta, 11. Mais de 1h depois, titubeando entre Getúlio Vargas e outros nomes, uma dupla pergunta: é o Marechal Deodoro da Fonseca?

 

O estranhamento com índices e enciclopédias é marca da geração nascida na última década. Ela cresceu junto com a popularização do smartphone, sob o domínio da internet banda larga e com acesso à informação na palma da mão. Eles chamam de “gente antiga” quem usou a Barsa em trabalhos escolares.

 

Prestes a completar 20 anos na quinta-feira (27), o Google capitaneou essa transformação. A empresa alterou não só a pesquisa, mas os serviços digitais, a mídia, o consumo e a noção do que é internet —para muitos, internet é Google.

 

Com investimento inicial de US$ 100 mil (R$ 405 mil) em 1998, os jovens engenheiros Larry Page e Sergey Brin criaram a empresa quando eram alunos de pós-graduação da Universidade Stanford, na Califórnia. Duas décadas depois, a empresa, que hoje pertence à holding Alphabet, se consolida como uma das mais poderosas do mundo, com valor de mercado de US$ 813 bilhões (R$ 3,3 trilhões). 

A gigante está entre grupos de tecnologia com valor próximo a US$ 1 trilhão (R$ 4,05 trilhões) —Amazon e Apple já atingiram a marca.

 
Inicialmente, nomeada BackRub, em 1995, a empresa confrontou os mecanismos de busca vigentes até então. Page e Brin criaram o Page Rank, algoritmo responsável por fazer sua ferramenta disparar frente a de concorrentes e concentrar mais de 60% das buscas online em desktops. Bing e Yahoo representam 21% e 12%, respectivamente.
 
 
O Page Rank é um cálculo matemático de inúmeros fatores que determina por que um site deve aparecer antes de outro nos resultados. 

Ramesh Srinivasan, professor da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles) e pesquisador de tecnologia, diz que o sucesso do Google frente a competidores foi a decisão de personalizar a busca.  A rede, antes disso, era como o “Velho Oeste”, ele diz.

“A personalização só é possível pela coleta de dados. Ao mesmo tempo que esse modelo é atraente, as pessoas ainda não têm ideia de como isso é feito. O Google busca saber quem somos, nos oferece essas respostas em troca e, como um espelho, ajuda até a moldar nossa identidade.”

A preocupação natural disso se dá em relação à privacidade. De acordo com relatório da EFF (Eletronic Frontier Foundation), entidade de direitos na internet, a reputação dos produtos da Alphabet é melhor do que a de concorrentes da internet, como Facebook, Linkedin e Twitter —ao menos quando o assunto é o fornecimento de dados a governos. 

“O Google acumula um verdadeiro tesouro de informações pessoais, registrando nossas atividades online e colocando-as potencialmente à disposição de qualquer interessado com dinheiro suficiente”, diz Veridiana Alimonti, analista de políticas da EFF.

Ela se refere a anunciantes publicitários, que pela plataforma conseguem direcionar seus produtos de forma cada vez mais segmentada.

Apesar de o Google se posicionar historicamente como uma empresa transparente e aliada da privacidade, Veridiana cita que funções recentes do Gmail, como o modo confidencial (no qual o usuário pode impedir que seus e-mails sejam encaminhados pelo destinatário), são problemáticas já que os e-mails não são criptografados de ponta a ponta, uma premissa básica da privacidade. 

Nos Estados Unidos, o Google está prestando esclarecimentos a legisladores sobre o acesso de desenvolvedores de aplicativos a contas do Gmail.

“Em algum momento, as forças reguladoras americanas e europeias irão atrapalhar esses grandes nomes da internet. Mas o Google se manterá como um grande líder na pesquisa, na robótica, na publicidade e na condução autônoma. A pergunta de onde eles irão parar é a pergunta que vale milhões de dólares”, diz Joel Kulina, analista da consultoria americana Wedbush.

Para analistas, a coleta de dados do grupo Alphabet hoje vai muito além da busca. Os dados pessoais servirão para o desenvolvimento mais assertivo de carros autônomos e para o que mais se puder imaginar nos próximos 20 anos.

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