Facebook é monopólio e chegou a hora de desmembrá-lo, diz cofundador da rede

Chris Hughes, em artigo no jornal New York Times, defende reversão da compra de Instagram e WhatsApp

São Paulo

Cofundador do Facebook na universidade Harvard junto a Mark Zuckerberg, Chris Hughes caracterizou, em artigo publicado no jornal The New York Times, a rede como um monopólio e pediu que autoridades tomem responsabilidade sobre os efeitos causados pela empresa na sociedade.

Em seu texto, ele pede um desmembramento da companhia, com as aquisições do Instagram e do WhatsApp pela empresa sendo desfeitas. Futuras aquisições deveriam ser proibidas por alguns anos.

A ação permitiria que novos competidores surgissem, investidores colocassem dinheiro no mercado e empresas de publicidade tivessem mais alternativas para anunciar.

Ele também pede a criação de uma agência reguladora para tratar de empresas de tecnologia e zelar pela privacidade dos usuários, seguindo modelos adotado pela Europa.

A agência deveria definir que tipos de discurso são aceitáveis dentro das plataformas sociais —o que, segundo Hughes, hoje cabe apenas a Zuckerberg.

A medida seria necessária, segundo ele, devido à grande concentração de poder e capacidade de influência acumulado pela companhia, e, em especial, Zuckerberg.

"Os Estados Unidos foram construídos sobre a ideia de que o poder não deve ser concentrado em uma única pessoa, pois somos todos falíveis."

Segundo ele, o poder de Zuckerberg hoje não tem antecedentes, sendo maior do que o de qualquer político ou empresário.

"Mark sozinho pode definir como alterar o algoritmo da rede para decidir o que os usuários vão ver em seus feeds de notícias, que configurações de privacidade serão adotadas e que mensagens serão entregues", diz.

Hughes se disse desapontado com Zuckerberg, a quem diz considerar uma boa pessoa, pois seu foco em crescimento o levou a trocar segurança e civilidade por cliques.

Outra frustração que Hughes coloca no texto é a pouca atenção que, segundo ele, a equipe da empresa dá à capacidade do algoritmo que define o que os usuários vão ler tem ao alterar a cultura, ,influenciar eleições e empoderar líderes nacionalistas.

Ele escreve que a dominação do Facebook não foi acaso, mas sim resultado de estratégia de tirar do caminho qualquer competidor, comprando-os ou copiando-os. Isso teria sido feito com apoio implícito e, por vezes, explícito, dos reguladores. Ele diz que o principal erro do governo foi autorizar a compra do Instagram e do WhatsApp pela empresa.

Ele lembra que os fundadores dessas empresas deixaram o Facebook após desentendimentos com Zuckerberg.

Segundo o cofundador do Facebook no New York Times, como não há uma disputa de mercado com a companhia, o roteiro seguido a cada novo escândalo envolvendo a empresa é o mesmo. Primeiro se tem raiva, depois decepção e, por fim, resignação.

"Mesmo quando as pessoas querem deixar o Facebook, elas não tem alternativas, como mostrou o caso da Cambridge Analytica", escreve. A consultoria política acessou indevidamente dados de usuários para envio de propaganda personalizada da campanha de Donald trump para a presidência dos Estados Unidos.

Hughes diz no texto ter vendido suas ações do Facebook em 2012 e não ter investido em mais nenhuma empresa de mídias sociais.

Em nota assinada por Nick Clegg, vice-presidente de comunicações do Facebook e enviada por sua assessoria de imprensa, o Facebook disse entender que, com o sucesso, vem responsabilidade. 

A companhia afirma que não se impõe essa responsabilidade exigindo a cisão de uma empresa americana bem-sucedida. 

Segundo a companhia, a responsabilidade das empresas de tecnologia só pode ser alcançada por meio da introdução diligente de novas regulações para a internet. 

"Isso é exatamente o que Mark Zuckerberg tem pedido. Aliás, ele está se reunindo com líderes do governo nesta semana para dar continuidade a esse trabalho.” 
 

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