Pesquisador brasileiro entra no Hall da Fama da Internet

Michael Stanton recebe prêmio da Internet Society, que nomeou mais de cem nomes, três do Brasil

Paula Soprana
São Paulo

O cientista de redes Michael Stanton é o terceiro acadêmico a representar o Brasil no Hall da Fama da Internet, prêmio global que, apesar do nome, reúne pessoas que ficaram longe dos holofotes para desenvolver a base do que é a internet hoje.

Ele recebe a honraria nesta sexta-feira (27) em San Jose, na Costa Rica.

Doutor em matemática pela Universidade de Cambridge e natural de Manchester, Inglaterra, foi um dos pesquisadores que levou o governo a construir a RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa), sistema de conexão de alcance nacional responsável por ligar universidades.

O projeto, um tipo de internet paralela dedicada apenas à academia, ajudou a fundamentar a internet comercial, lançada em meados da década de 1990. 

Na lista do prêmio, constam também os brasileiros Demi Getschko, considerado o pai da internet no país, e Tadao Takahashi, fundador da RNP. A condecoração é concedida pela Internet Society, organização americana criada em 1992 com intuito de promover o desenvolvimento tecnológico e social da internet. 

Michael Stanton, precursor da internet brasileira
Michael Stanton, precursor da internet brasileira - Divulgação

O 'hall da fama', que busca exaltar contribuições científicas e sociais acerca do tema, já admitiu mais de cem nomes.

Entre eles estão Tim Berners-Lee, inventor da web, Vint Cerf, do TCP/IP (protocolos de comunicação de computadores em rede), Marc Andreesen, inventor do Mosaic (o primeiro navegador popular), Al Gore, que garantiu que a internet ganhasse aplicação mercadológica e não apenas acadêmica, e Aaron Swatz, ativista da informação livre e criador do agregador RSS.

A trajetória de Stanton no Brasil iniciou em 1971, quando dava aulas no Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Como professor, também passou pela PUC-Rio e pela Universidade Federal Fluminense.

Em 1987, articulou a criação de uma rede brasileira semelhante à da National Science Foundation, rede que interligou universidades e laboratórios de pesquisa nos Estados Unidos dois anos antes. "Era considerado um grande agitador", diz ele.

Stanton lembra que uma das principais barreiras para a internet à época era a Embratel, que no papel de estatal intermediava a comunicação e colocava resistência à conexão entre computadores de diferentes empresas.

Da mobilização com outros acadêmicos, saiu o projeto RNP em 1989. O lançamento foi elementar para a criação da internet comercial, impulsionada junto à abertura do setor de telecomunicações durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Em 2019, aos 73 anos, sem conta no Facebook e com críticas ao modelo de negócios do Google, que na sua opinião depende de formas "muito intrusivas" de coleta de dados, Stanton prefere poupar opiniões sobre o rumo da internet, ciberguerra, polarização e indústria de curtidas. 

“Talvez devesse me preocupar mais", diz, mas prefere deixar o assunto a reguladores especializados.

O cientista mantém a concentração na expansão da rede acadêmica, que ainda interliga campus de universidades nacionais e internacionais.

"Uma das ideias que estamos investigando nos últimos anos é o lançamento de cabos de fibra óptica nos rios da Amazônia", afirma. Seu objetivo é levar conexão a áreas remotas que só usam satélite, cujo custo é alto.

Ele também segue na RNP, hoje utilizada em setores definidos pelos ministérios da Educação, Tecnologia, Cultura e Defesa. 

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