Mortes: Forasteiro nordestino, morou na Bahia, no Rio, mas o coração virou paulista

Era difícil Raimundo se chatear. A menos que não ganhasse bolo no aniversário

Bruna Souza Cruz
São Paulo

Seu Raimundo Severino da Silva mantinha o espírito jovem aos 81 anos. Morador do bairro Vila Capela, zona sul de São Paulo, adorava festas, jogar dominó, viajar para o Rio de Janeiro. Quase todos os domingos, ele almoçava fora— a casa da sobrinha Lusinete era a favorita.

Vaidoso, não saia sem antes tomar um banho de perfume. Adorava usar calça de sarja, camisa e sapatênis, lembra uma das filhas, Ademilde Rosa da Silva, 43, enfermeira.

Aniversário sem bolo não era aniversário. E ele reclamava mesmo, igual criança. De presente, gostava de ganhar roupas e bonés comprado em lojas de skate e surf. Se tivesse festa, tinha que ter forró. Músicas de Luiz Gonzaga marcavam o ritmo. Há alguns anos, quando a saúde permitia algumas extravagâncias, para forrar o estômago, feijão branco e mocotó.

Seu Raimundo e as netas Rafaela e Isabella
Seu Raimundo e as netas Rafaela (esq.) e Isabella (dir.), filhas de Ademilde - Arquivo pessoal

O aposentado nasceu em Princesa Isabel, cidade do sertão paraibano. Casou, teve três filhos, separou-se, casou novamente e mais dois filhos vieram. Morou na Bahia e no Rio de Janeiro, mas a maior parte da vida passou em São Paulo.

Seu Raimundo foi o típico exemplo de forasteiro nordestino, destaca a filha. “Ele veio para a cidade grande em busca de algo melhor. Viajou sozinho e nós [filhos e ex-esposa] viemos depois.”

Trabalhou em um sítio assim que chegou em São Paulo, em 1987. Depois, foram anos como ajudante geral. Aposentou-se no Rio de Janeiro, após uma mudança forçada em busca de emprego. Adorava o mar.

“No Rio, ele pegou dengue duas vezes e ficou com trauma de mosquito. Para todo lugar que a gente ia, ele levava aquela raquete elétrica”, conta Ademilde. Uma das últimas viagens foi para o Rio de Janeiro, quando uma das netas prestou vestibular para medicina.

“Ele queria muito a carteirinha do idoso. Ficava falando que, agora que não precisava mais pagar, ele ia para tudo quanto é lugar de graça. Ele até foi sozinho buscar a carteirinha, caiu no trólebus, chegou escondido, sem falar nada, com um machucadinho na testa”, lembra a filha.

Seu Raimundo faleceu no dia 4 de junho após 25 dias internados após o agravamento da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Deixa cinco filhos (um já falecido), nove netos e 11 bisnetos.

A última homenagem feita por Ademilde foi conseguir enterrá-lo com uma “blusa mais arrumadinha”. Seu Raimundo, “chique” como gostava de ser, ficaria grato pelo gesto.

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