Carta vale mais que selfie no topo do Monte Fuji

Visitantes em busca de carimbo em correspondência transformam agência do correio em atração no Japão

Motoko Rich
Monte Fuji (Japão)

Se você buscar por “topo do monte Fuji” no Instagram, encontrará milhares de postagens documentando visitas de quem chega ao cume do mais conhecido vulcão do Japão.

Mas para muitos que fazem a escalada, pôr fotos na mídia social é moderninho demais.

Criança coloca carta em caixa do correio na agência postal no topo do monte Fuji
Criança coloca carta em caixa do correio na agência postal no topo do monte Fuji - Ko Sasaki/The New York Times

Em vez disso preferem enviar uma correspondência a partir da pequena agência de correio que fica lá em cima, onde um carimbo postal é mais cobiçado que uma curtida nas redes sociais.

“Imaginamos que teria um significado maior”, diz Toshiyuki Kasahara, 43, sobre os cartões postais endereçados à sua casa que ele e seus dois filhos enviaram quando chegaram ao cume da montanha.

Cerca de 300 mil pessoas escalam todo ano o Fuji, montanha mais alta do Japão. Chegar ao seu topo requer uma caminhada que dura de quatro a seis horas, mas não demanda treinamento especial.

A agência também é uma atração. Foi visitada por 18 mil pessoas, que enviaram quase 97 mil correspondências a partir dela, no verão de 2017.

Enquanto agências de correio do país registram forte queda no volume de correspondência processado, o posto da montanha prospera.

Mas transportar toda a correspondência depositada no topo do monte de 3.776 metros de altura requer esforço considerável. É aí que entra um maltratado trator.

Durante os 40 dias da temporada de escaladas do verão, que termina em agosto, um maltratado trator (na verdade uma escavadeira com a pá frontal removida) percorre, duas ou três vezes por semana, os 4.400 metros da trilha Fujinomiya, para recolher os caixotes carregados de cartões postais e cartas. Depois de uma descida equivalente a 1.350 metros, o trator entrega a correspondência a um furgão normal do correio.

De acordo com executivos da Japan Post, a companhia japonesa de correios, a agência do monte Fuji teve receita de 12,1 milhões de ienes (R$ 423 mil) em 2017. Eles não informaram, porém, quanto custa manter sua operação. O braço postal da Japan Post teve prejuízo de 385 bilhões de ienes (R$ 13,46 bi) no ano passado.

Motohiko Matsumi, gerente da agência do monte Fuji, afirma que o correio gostaria de manter aberta a unidade enquanto as pessoas continuarem a escalar a montanha.

Para conhecer o trabalho de entrega da correspondência, a reportagem embarcou no trator para a jornada de quatro horas montanha acima e abaixo. A empresa que opera o veículo, a Fuji Concrete Service, não só recolhe correspondência, mas também entrega bebida e comida às barraquinhas ao longo da trilha.

No ponto onde a estrada asfaltada termina e os visitantes iniciam a escalada depois de chegar ali de carro ou ônibus, trabalhadores carregaram o trator com comes e bebes, papel higiênico, colheres de plástico e botijões de gás.

O veículo também levava dez pessoas na subida da montanha, entre funcionários de barracas de comida, um médico e um estudante de medicina a caminho do trabalho.

Yuichi Furuya, 52, dirige o trator há sete anos. Quando conduziu a máquina a uma trilha de terra, sua visão estava completamente bloqueada pela carga na cesta frontal.

Isso não o fez desacelerar. “Cerca de 40% da rota eu tenho na cabeça”, diz Furuya. O resto ele descobre olhando para o chão e observando os terraplenos que delimitam a trilha.

Em meio a curvas apertadas e fortes vibrações, Furuya fazia ligações e folheava as faturas das entregas com uma mão enquanto mexia no câmbio com a outra.

A vibração parou quando o veículo chegou ao topo e todos entraram na agência. Havia dois funcionários no balcão vendendo selos, cartões postais e certificados. 

A agência no topo do Fuji foi aberta 1906. Antes, funcionários dos correios carregavam correspondência trilha abaixo nas costas. O trator faz a rota há 50 anos.

No dia em que a reportagem fez a viagem, Furuya e um assistente trouxeram 11 caixotes, cada um com cerca de 2.000 correspondências.

Tradução de Paulo Migliacci

The New York Times
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