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Portillo, estação de esqui no Chile, celebra 70 anos e preserva sua paisagem

Local é o mais tradicional para a prática do esporte na América do Sul

José Henrique Mariante
Portillo

Esquiar na neve dá medo. Para quem não nasceu fazendo isso, alcançar o alto da montanha e trocar o conforto da inércia pela velocidade daquilo que parece mais um precipício não é tarefa das mais fáceis.
Nessa hora, ou você se joga ou você se joga mas pensa antes, talvez como forma de compensação: que lugar, que paisagem absurda, não estaria aqui sem os esquis.

Esquiar na neve, depois do medo, vicia e proporciona uma apreciação da natureza que dificilmente se consegue sem suar ou de modo mais confortável (sedentário). 

Se o leitor está nesse estágio, certamente já tem na ponta da língua uma série de argumentos para encarar a dispendiosa atividade esportiva como investimento, por mais que isso soe um contrassenso. 
Se ainda não está, a mais tradicional estação da América do Sul parece perfeita para tal exercício de convencimento.

A quatro horas de avião de São Paulo, mais duas horas e meia de carro a partir de Santiago, Ski Portillo exige convicção dos iniciantes, dado o tamanho do que chamamos aqui de investimento. Iniciados normalmente voltam, quando o bolso permite. 

O hotel chileno, que completa 70 anos nesta temporada, preserva suas características e paisagens de maneira particular. Não há muita pirotecnia ou atrações para além da atividade esportiva, como acontece em vários destinos de neve. Próximo à fronteira com a Argentina, Portillo quase não é um resort, mas sim um lugar no meio das montanhas, afastado de multidões.

Em resumo, 500 hectares esquiáveis a uma altitude de 2.880 metros, 34 pistas e 14 meios de elevação; mescla interessante de percursos intermediários e avançados, o mais longo não chegando a 3 quilômetros, o que deixa a ação sempre relativamente próxima ao hotel; para quem está começando, traçados também favoráveis, com acesso entre pistas fáceis e trechos mais largos e menos íngremes de outras mais complicadas. 

Bom para aprender, bom para aperfeiçoar.

Mas não são apenas os números que afastam Portillo da rotina intensa dos complexos maiores. Ao cenário único, em frente a uma lagoa entremeada a montanhas, em plena cordilheira dos Andes, soma-se uma administração familiar —e familiar aqui é descrição literal. Os donos do hotel, a começar pelo patriarca, Henry Purcell, moram em chalés próximos à Laguna del Inca durante o inverno.

Estão sempre à mesma mesa do restaurante no jantar. Topa-se com algum deles, na verdade, em quase todas as instalações durante a estadia.

Henry é a alma do hotel desde que seu tio, Robert Purcell, o tirou do grupo Hilton e dos EUA, aos 26 anos, pouco depois de ele ter se formado em hotelaria em Cornell. 

Robert era executivo do Ibec, instituição criada por Nelson Rockefeller para fomentar a economia em países sul-americanos nos anos 1950. O bilionário achava possível dar o pontapé inicial no mercado de capitais de países subdesenvolvidos e faturar com isso, o que de fato cumpriu no Brasil e na Venezuela.

Foi provavelmente a expertise de Robert que o fez, junto com um sócio, saber da existência de Portillo e comprá-lo do governo chileno no começo dos anos 1960. O empreendimento estatal, iniciado em 1949, afundava em problemas de logística e recursos. 

Robert trouxe Henry, que trouxe um campeão olímpico de inverno, o austríaco Othmar Schneider, para montar e dirigir a escola de esqui.

O pequeno histórico explica porque Portillo abrigou o primeiro e até hoje único Mundial de Esqui Alpino realizado no hemisfério sul, em 1966. 

E também porque nos meses de agosto é possível dividir as pistas, pelo menos no discurso, com equipes olímpicas de potências do esporte, como EUA e Noruega, que transformam o resort em base de treinos no verão boreal.

Explica igualmente porque os instrutores de esqui e snowboard em Portillo são quase todos americanos, canadense e europeus —por força de mercado, há brasileiros. 

A ponto de a temporada ser marcada pelo próprio hotel em três grandes levas, ordenadas pelos respectivos períodos de férias: brasileiros em julho, americanos em agosto e chilenos, assim como caçadores de oferta, em setembro.

Americanos são a maioria (60%), o que se reflete na tabela de preços, mais cara em agosto. Brasileiros e argentinos se revezam no segundo posto da lista de clientes, de acordo com o tamanho da crise e a taxa de câmbio de cada um, competição um tanto acirrada neste ano.

A Ski Week, o pacote regular, compreende sete noites de hospedagem (sábado a sábado). Há também, em começo e fim de temporada, as Mini Weeks, com três e quatro noites (quarta a sábado e sábado a quarta). Todas incluem acesso aos meios de elevação e quatro refeições diárias (café da manhã, almoço, lanche e jantar). Os preços variam bastante: um quarto duplo com vista para a lagoa, por exemplo, pode custar de US$ 1.150  a US$ 4.500 por pessoa.

Há também chalés e um lodge, para grupos maiores, e um hostel, mais em conta. Há que ter disposição para andar até o hotel para as refeições.

É preciso computar também gastos com instrução (de US$ 40, uma aula coletiva de esqui, a US$ 460, 6 dias de aula, duas vezes por dia), aluguel de equipamentos (de US$ 45, um dia, a US$ 285, a semana) e bebidas (US$ 7 a cerveja), que são cobradas à parte.

Como se vê, cifras que demandam do esquiador dos trópicos um bolso americano ou muito planejamento e antecipação, regra para quem pretende viajar ao exterior na era do dólar acima dos R$ 4, com ou sem esquis no roteiro. 

Neste momento, o não esquiador provavelmente perguntará o que mais existe para fazer em Portillo, a esse preço, além de manhãs e tardes de esqui e snowboard. A resposta honesta é nada.

A quem já experimentou a sensação descrita nos primeiros parágrafos, a resposta é diferente: a vista do Tio Bob’s, o restaurante de montanha de Portillo, do qual se vai embora apenas deslizando por uma pista vermelha, é tudo.

Andar na neve com raquetes cansa e diverte muito

O que fazer em um lugar cercado de neve por todos os lados que não seja esquiar ou fazer snowboard?
Andar na neve. O exercício, um pouco vigoroso para pernas mal acostumadas, é uma das atrações de Ski Portillo nesta temporada.

Prática comum na Europa, andar na neve calçando raquetes ganha um ingrediente a mais no tradicional resort chileno que é contornar, mesmo que parcialmente, a Laguna del Inca, o ponto dominante da paisagem em Portillo.

As caminhadas só podem ser feitas com instrutores e devem ser arranjadas na recepção do hotel. Além da instrução, é preciso ter ou alugar botas de trekking e, claro, as raquetes, também chamadas “snowshoes”. A roupa deve ser a mesma usada para o esqui, impermeável, já que o contato com a neve é constante e, por vezes, total.

Atadas aos pés, as raquetes têm duas posições de uso, que dependem da inclinação do terreno. No plano, base e calcanhar ficam fixos. Em subidas, é preciso liberar a presilha que prende o calcanhar na parte posterior da raquete para conseguir flexionar o pé.

A dinâmica é um tanto esquisita no começo e, quem não a obedece, vai naturalmente ao chão. Aprendida a lição, a segunda dificuldade é se acostumar a tirar e recolocar os agasalhos sempre que necessário. Não tirá-los na hora do calor provocará suor, e as roupas molhadas, arrependimento na hora do frio. 

Água, snacks e chocolate são importantes para hidratação e energia, que vai embora mais rapidamente do que em uma caminhada regular.

Todo esse esforço vira detalhe na hora em que se percebe que o ponto de vista habitual, hotel-lagoa, está invertido. As montanhas crescem e uma das descidas mais impressionantes de Portillo, a Lake Run, fica ao alcance de esquiadores mortais —desfiladeiro íngreme, entre rochas, que conduz a uma pequena península de gelo dentro do lago, coisa para malucos e profissionais.

Vale todas as calorias perdidas.

Primeira vez com esquis? Comece por aqui

Preciso esquiar? 
Claro que não, mas pense duas vezes antes de embarcar em uma viagem onde só você não vai esquiar. Resorts são muito orientados para a atividade. Portillo, por exemplo, não tem nem TV no quarto. Haja leitura e aula de zumba para preencher o tempo.

Como faço com a roupa? 
Não saia comprando nem acredite que conseguirá tudo no destino. Tente dividir o problema: comprar o que é possível usar num futuro sem esqui (segunda pele, fleece, gorro, talvez até um casaco) e pedir o resto emprestado a amigos e parentes (casaco, calça e luvas impermeáveis). Não improvise nem exagere. Tudo que pode ter contato com a neve tem que ser impermeável e aquele casaco de lã muito quente fará você suar e depois passar frio. No limite, grandes magazines de esporte têm todos os itens a preços razoáveis. Alugar roupa no destino não é tão fácil e muitas vezes esbarra em questões de higiene. Portillo só vende roupa e é bem caro.

E o equipamento? 
Alugar botas e esquis no destino é o padrão. Comprar esse tipo de equipamento é para quem vive perto da neve e não enfrenta coisas como limite de peso na bagagem. Pegue o equipamento que o resort indicar e o mais barato. Botas são bem apertadas, e os tornozelos serão a primeira parte do seu corpo a reclamar. Acostume-se, é a regra do jogo. Com botas mais soltas você não consegue comandar os esquis, não é uma opção.

Preciso de óculos escuros? 
Sim. Neve com sol e sem óculos faz mal a seus olhos. Por período prolongado pode provocar até cegueira temporária. Sem sol, a dificuldade passa a ser outra, perceber contornos e ondulações da pista, já que tudo se transforma num branco só. Aí só um goggle, óculos de esqui com lente polarizada, resolve. Fundamental também para dias de nevasca. Tente arranjar um emprestado ou, no limite, compre o mais barato que encontrar (antes de chegar ao destino, porque lá será sempre mais caro). Há goggles que permitem usar junto óculos de grau.

Preciso de capacete?
Sim. Se for preciso fazer economia, aqui não é o lugar. Esquiar é atividade de risco, como andar de moto ou bicicleta ladeira abaixo —sem noção de como usar os freios no começo. Se bom senso não for suficiente, talvez sua apólice de seguro seja mais persuasiva. Alugar capacete é fácil em qualquer resort.

Preparo físico? 
Esquiar é usar bem a gravidade, diria o praticante experimentado. Enquanto esse dia não chega, seu corpo vai agradecer todos os agachamentos que conseguir fazer na academia antes de estrear na neve. Como em qualquer atividade esportiva, preparo físico e estar no peso ajudam. Ainda assim, vários músculos se apresentarão a você pela primeira vez e farão questão de lembrar da temporada nas montanhas semanas mais tarde.

Preciso estar hospedado em um hotel para esquiar? 
Não, mas apoio material e de instrução de um resort auxiliam muito quem não está acostumado com os rituais do esqui. Se você for para algum destino de maneira avulsa, aumente consideravelmente sua pesquisa sobre estrutura, preços, condições etc.

Tem que ser ‘in & out’? 
Não, mas é muito mais confortável estar em um resort onde se sai e se chega com esquis nos pés, como em Portillo. Há, claro, destinos interessantes que não possuem a regalia, mas vale checar a que distância você está da pista e como chegará lá. Pode ser uma caminhada curta, pode ser pegar um trem. Obviamente, quem possui melhores condições cobra mais caro.

Preciso de passe?
Sim. Sem ele não há acesso a pistas ou a meios de elevação. O custo varia de acordo com o alcance e o período de validade. Resorts normalmente fornecem o passe. Portillo dá passe a seus hóspedes e os vende a visitantes.

Preciso de aula? 
Esquiar sem instrução, sem nunca ter colocado esquis nos pés, é quase como ir surfar na praia sem saber nadar. Dá para brincar, mas será preciso muito tempo para evoluir na base de tentativa e erro. Existem resorts com aulas incluídas no preço, o que pode ser uma boa condição para começar. Sobre aula em grupo: não é você quem escolhe o nível, a seleção é natural; começou, vá até o final e sem faltas, para não perder o ritmo da classe.

Que cuidados tomar?
Esqui e snowboard são atividades vigorosas, com variados graus de dificuldade. Ou seja, você precisa estar atento a seu corpo e aos riscos que está assumindo. Excesso ou falta de confiança atrapalham, é preciso encontrar sua zona de conforto, que pode estar na pista de criança ou na vermelha, tanto faz. Cuidado com os outros, dado que dificilmente estará sozinho na pista. E cuidado com o sol, que queima mais na montanha: protetor na pele e nos lábios é fundamental.

Preciso fazer seguro?
Sim. Resorts de esqui são lugares de festa, mas sempre haverá quem terminará a semana celebrando de muletas ou coisa pior. Acidentes são rotina, portanto é preciso estar preparado para emergências. Obrigatório, por exemplo, para quem vai à Europa, seguro de viagem nem sempre cobre atividades recreativas de risco, como mergulho, esqui e snowboard. Alguns cobram suplementos para estender a cobertura.

O jornalista viajou a convite de Servicio Nacional de Turismo Chile e Ski Portillo


PACOTES

US$ 493 (R$ 2.045) 
3 noites em Santiago, na RCA (rcaturismo.com.br
No hotel Providência, com café da manhã. Inclui city tour na capital chilena e excursão a Portillo com ingresso para o teleférico, equipamento de esqui e almoço, além de traslados e seguro-viagem. Preço por pessoa em apartamento duplo, sem aéreo

US$ 579 (R$ 2.405) 
3 noites em Portillo, na Venice (veniceturismo.com.br)
No hotel INCA Lounge, com café da manhã, almoço, lanche e jantar, além de acesso ao teleférico e aluguel de esquis e botas. Preço por pessoa em apartamento duplo. Sem  passagens aéreas. Preço válido até 5 de outubro

R$  3.756 
3 noites em Portillo, na Flot (flot.com.br
No Portillo Ski Resort, com pensão completa. Inclui acesso ao teleférico. Preço por pessoa em apartamento duplo, com duas crianças grátis. Saída em 2 de outubro. Sem passagens aéreas

US$ 1.372 (R$ 5.693) 
4 noites em Portillo, na Interpoint (interpoint.com.br)  
No hotel Portillo, com pensão completa. Inclui ingressos para o teleférico da estação. Preço por pessoa num apartamento duplo, sem aéreo. Ao valor devem ser acrescidos 6,38% da própria cifra (impostos)

US$ 1.406 (R$ 5.834) 
3 noites em Portillo, na Maringá Lazer (maringalazer.com.br
No hotel Portillo, com pensão completa. Inclui ingressos para o teleférico da estação. Preço por pessoa num apartamento duplo, sem aéreo. Pacote com saída em 18 de setembro

US$ 1.913 (R$ 7.938) 
4 noites em Portillo, na CVC (cvc.com.br)  
No hotel Portillo, com pensão completa e acesso ilimitado aos teleféricos das pistas. Preço válido para dois adultos, em acomodação dupla e para o período entre 21 e 25 de setembro. Não inclui passagens aéreas

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