Treinador de time da Copa SP diz que recebeu proposta para entregar jogo

Crédito: Eduardo Carmim/Photo Premium Lance do jogo entre Itapirense e Estanciano, pela primeira rodada da Copa São Paulo de Futebol júnior
Lance do jogo entre Itapirense e Estanciano, pela primeira rodada da Copa São Paulo de Futebol júnior

LUIZ COSENZO
DE SÃO PAULO

O treinador Ricardo Pereira, 30, da equipe sub-20 do Estanciano-SE, diz ter recebido uma proposta para perder o jogo de estreia do clube diante da Itapirense, realizado na última quinta-feira (4), pela Copa São Paulo de futebol júnior. Ele pediu demissão do cargo.

De acordo com Pereira, a proposta foi feita por duas pessoas apresentadas pelo presidente do clube sergipano, Sidnei Araújo. Segundo ele, essas pessoas se identificaram primeiramente como empresários e ex-jogadores de futebol e, na sequência, afirmaram trabalhar para um grupo de site de apostas.

"Eles me ofereceram R$ 7 mil para eu facilitar o jogo e falaram que tinham mais um valor para repassar aos atletas caso precisasse. Porém, cortei o assunto na hora. Não compactuo com essas coisas", afirmou Ricardo Pereira à Folha.

Segundo a treinador, a proposta foi feita quando ele estava no carro desses supostos intermediários juntamente com o presidente. O treinador disse que o mandatário do clube o parabenizou pela atitude quando se encontraram em um supermercado próximo ao hotel, onde a delegação estava hospedada.

Ele disse ainda que conversou sobre o caso com os jogadores e retirou o celular dos atletas para que ninguém fosse procurado. O aparelho telefônico foi devolvido para o elenco após a partida de estreia, quando o Estanciano perdeu por 3 a 2.

"Na sexta-feira, conversei com o Janilton Oliveira [representante do Grupo Valdevan 90, que terceiriza as categorias de base do Estanciano] e expus que não estava confortável com a situação porque fiquei sabendo que três atletas da equipe também foram procurados pelos empresários para facilitar o jogo seguinte contra o Fortaleza. Estava com medo do que poderia acontecer, já que tenho dois filhos e resolvi sair", relatou.

A versão de Ricardo Pereira foi confirmada por Janilton Oliveira.

"Recebemos a proposta de suborno, mas não aceitamos. Temos um áudio gravado por um dos três atletas que foi aliciado pelos empresários. Agora, nosso foco é terminar a competição de uma forma digna e depois vamos resolver essa história. Já fomos procurados pela Federação Paulista de Futebol e explicamos o caso", disse Oliveira citando o jogo contra o Volta Redonda, marcado para esta quarta-feira, pela última rodada do torneio.

O Comitê de Integridade da Federação Paulista de Futebol já apura os fatos. "O caso foi encaminhado ao Comitê de Integridade. A FPF trabalha ativamente para combater a manipulação de resultados. Criou em 2015 o Comitê de Integridade, que analisa e investiga denúncias de supostos casos. Foi contratada também a empresa SportRadar, que monitora e alerta casos de manipulação de resultados", disse a entidade através de nota.

Já o presidente do Estanciano deu outra versão para o caso. Ele afirmou que recebeu a informação que um representante de sua comissão técnica tinha contato com apostadores. Assim, convidou dois amigos e tentou tirar a informação com o treinador Ricardo Pereira.

"Não deveria proceder desta forma. Quis ser o investigador e fui inocente. O caso será esclarecido. Tanto é que que pedi afastamento para me defender", disse.

OPERAÇÃO GAME OVER

A Polícia Civil de São Paulo investiga desde o começo de 2015 casos de manipulação de resultados em partidas das Séries A2 e A3 do Campeonato Paulista e de divisões inferiores do Norte e do Nordeste para beneficiar grupo criminoso que atua nas bolsas de apostas da Malásia, da Indonésia e da China.

A Folha revelou ainda que a Série D de 2015 também entrou no escopo da investigação.

A operação, denominada "Game Over" começou após pedido do Ministério Público de São Paulo. O inquérito correu sob segredo de Justiça.

Um dos jogos que foram investigados é a vitória do Santo André sobre Sorocaba por 9 a 0, em setembro de 2015, pelo Paulista sub-20. Movimentações estranhas em sites de apostas e o fato de o Sorocaba ter escalado jogadores com 17 anos ou menos despertaram suspeitas e colocaram a partida no escopo das investigações.

Outra partida que levantou suspeita foi a vitória do Rio Preto sobre o Barueri por 4 a 0, na Série A3 do Paulista, em fevereiro de 2016.

A primeira audiência sobre o caso seria realizada em dezembro, mas foi adiada.

Erramos: o texto foi alterado
O jogo entre Rio Preto e Barueri foi realizado em fevereiro de 2016 e não em fevereiro deste ano

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