Painel do Leitor
08/12/2008 - 02h32

Criacionismo

"A respeito da polêmica em curso sobre a questão 'criacionismo x evolucionismo' em Tendências/Debates de 6/12, saliento que Religião (com 'r' maiúsculo) e ciência (com 'c' maiúsculo) nunca estiveram em conflito, como quer o desconhecimento geral sobre o tema, mesmo de cientistas, pedagogos e doutores da igreja. O que foi escrito por Moisés no capítulo 1 do 'Gênesis' não diz respeito à criação do mundo físico, mas foi escrito por alegorias para demonstrar a formação do mundo interno do ser humano e seu conseqüente desenvolvimento racional e afetivo na direção da regeneração espiritual ao longo da vida terrena, o que pode ser constatado no livro 'Arcanos Celestes', volume 1, capítulo 1, publicado em Londres, em latim, em 1749 pelo cientista, filósofo e teólogo sueco Emanuel Swedenborg.
Para quem não o conhece, Swedenborg foi o primeiro a propor a hipótese nebular da criação do universo, meio século antes de Kant e Laplace, e mesmo assim escreveu vários livros de teologia, matérias que, portanto, sendo de campos diferentes, devem ser tratadas de modo distinto e complementar na escola, mas nunca de maneira oposta, para que o legado de uma não elimine a outra. Da mesma forma que uma criança ou jovem não deveriam ter sido privados dos conhecimentos das ciências esclarecedoras da escuridão na época da inquisição, que o acesso à Religião não lhes seja negado agora por uma crescente inquisição da ciência (com 'c' minúsculo) materialista e ateísta hoje."

EDUARDO BEIRITH (Curitiba, PR)

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"Sou professor de biologia e, quando trabalho o tema 'evolução biológica' com meus alunos, a primeira coisa que digo é que se trata de assunto polêmico e espinhoso. Pelos textos de 'Tendências/Debates' (6/12) e as cartas dos leitores, vê-se que isso é uma verdade. Primeiro, quero dizer ao leitor Tiago Bana Franco ('Painel do Leitor', 6/12) que ele deve se informar melhor sobre a teoria da evolução, pois não cometeria o erro de escrever em sua carta 'acreditarei na tal teoria da evolução'. Não se trata de acreditar, mas de compreender; acreditar fica para a religião. A Chita não é sua tetravó, ela só é sua prima distante.
Com relação ao artigo do prof. Christiano P. da Silva Neto, quero lembrá-lo de que a Terra tem alguns bilhões de anos e, sim, os processos evolutivos teriam tempo para ocorrer, levando-se em consideração todos os preceitos da teoria das probabilidades. Lanço aqui um desafio para ele: explique a história do cuco cientificamente sem levar em consideração o criacionismo. O criacionismo e o design inteligente não conseguem explicar nada cientificamente; o design inteligente é só uma religião cientificista que tenta provar o criacionismo.
Estou com o prof. Charbel Niño El-Hani: prefiro pensar que a ciência e a religião são visões diferentes de compreender o mundo, e uma não deve interferir na outra. Assim como quando vou a qualquer tipo de culto religioso não interfiro na fala do padre ou pastor, também não gostaria que eles me dissessem o que devo ensinar a meus alunos nas aulas de biologia."

WILLIAM ANTUNES KOLIKAUSKAS (São Paulo, SP)

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"O analfabetismo científico dos criacionistas seria algo cômico se não fosse trágico. Afirmações como a do leitor Tiago Bana Franco deixam bem claro o desconhecimento do básico sobre os conceitos do que seria ciência e teoria científica. Realmente, basta deixar apenas os criacionistas se manifestarem para compreender o quão absurda e retrógrada é a sua posição. E, pior, acreditam que ciência e fé são coisas que se obtêm da mesma maneira a ponto de serem comparadas e ainda parecem se orgulhar da própria ignorância. As pessoas deviam opinar apenas sobre aquilo que conhecem. A isso damos o nome de bom senso. Para começo de conversa, teorias científicas não existem para se 'acreditar' nelas, uma vez que se baseiam em fatos e evidências, e não em fé ou gostos pessoais.
A grande verdade, como pode ser facilmente percebido pelas palavra do sr. Tiago, é que a teoria elaborada por Charles Robert Darwin e Alfred Russel Wallace atinge em cheio o orgulho infantil de pessoas que aindam precisa se enxergar como o centro do universo, o favorito de um criador, algo especial e separado da natureza, para conseguir sobreviver no mundo real. Para essa gente, afirmar que o Homo sapiens é apenas mais uma espécie animal (coisa mais que comprovada pela ciência e o alicerce da teoria da evolução) é uma ofensa que pode provocar reações violentas.
O mais triste nessa história é que tudo isso nada mais é do que o puro reflexo de uma educação de base capenga, bem como de um Estado que se finge de laico e permite a existência de coisas como a CNBB, partidos políticos que nada mais são do que braços de entidades religiosas e locais presumivelmente de ensino criadas e mantidas por essas mesmas entidades (e, claro, defendendo apenas os seus próprios interesses). Pessoas como o sr. Tiago parecem gostar muito dessa situação e alimentam o sonho de muitas organizações que querem transformar o Brasil numa teocracia fanática cristã."

ÁTILA OLIVEIRA DA SILVA, biólogo e educador (São Paulo, SP)

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"Sobre a questão 'O criacionismo pode ser ensinado nas escolas em aulas de ciências?' ('Tendências/Debates', 6/12), a resposta pode variar entre o sim e o não, porquanto em matéria de conhecimento, sobretudo científico, jamais há a última palavra. Para formação educacional, é salutar que haja esse debate em sala de aula, pois as escolas não devem formar autômatos, mas pensadores. A ciência nasce da observação e reflexão, ou seja, é produto do pensamento e da ação humana no mundo. Ela não é algo estanque, mas sujeito a vicissitudes. É isso que enriquece o conhecimento. É limitado, portanto, julgar o evolucionismo superior ao criacionismo, ou vice-versa. Não é pelo fato de ser científico que é verídico, tampouco é pelo fato de ser tradicional que não é ciência. Enfim, os estudantes precisam saber e, os educadores, ensinar que a verdadeira ciência resulta do debate plural, não de visões reducionistas."

ALEXANDRE PEREIRA ROCHA, mestre em ciência política (UnB)

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"No artigo 'A teoria da evolução e os contos de fadas' ('Tendências/Debates', 6/12), ao defender o ensino do criacionismo nas aulas de ciências, o sr. Christiano Silva Neto incorre numa falha essencial: afirmar que a ciência pode abordar -- ou mesmo validar -- fenômenos sobrenaturais em si. Ao explicar pelo método científico um fenômeno antes tido como sobrenatural, este deixa de sê-lo e passa a ser 'natural'. Por esse motivo, a ciência não poderá explicar um Deus sobrenatural ou suas ações sobrenaturais. Por definição, a ciência é o estudo da natureza. O método científico baseia-se na geração de hipóteses de trabalho testáveis; o que não é testável ou modelável está fora do âmbito da ciência. Na tentativa de denegrir os argumentos pró-evolução, o sr. Christiano recorre à mistificação, recorrendo à teoria das probabilidades. É interessante observar que em nenhum momento ele contra-argumentou sobre as evidências da evolução das espécies: o registro fóssil (fósseis de espécies mais primitivas, encontrados em camadas geológicas de milhoes de anos atrás; as características comuns das moléculas componentes das células vivas; a conservação do DNA que funciona como um 'relógio biológico', permitindo calcular há quantos milhões de anos as espécies divergiram; e a coincidência do registro fóssil com os dados do DNA). E, se o sr. Christiano, que nega à evolução das espécies o status de ciência porque ele não pode vê-la acontecendo, sugiro que estude a evolução molecular do virus HIV, causador da Aids. Esse vírus, com sua alta taxa de mutação, evolui continuamente sob as pressões seletivas da resposta de defesa do organismo, e das drogas do coquetel antiretroviral, escapando assim do controle. Isso tudo ocorre na escala de semanas. Há grande número de publicações científicas a respeito. Em essência, o artigo pode ser resumido em uma frase: 'Tudo o que não compreendo tem que ter origem sobrenatural'. Esse é o pensamento subjacente a todos os mitos -- inclusive os mitos da criação divina -- criados por todas as culturas humanas pré-científicas ao longo da história. O problema com essa abordagem 'by default' é que o campo do desconhecido tem diminuído rapidamente com o avanço da ciência. Assim, pessoas que na idade média teriam sido rotuladas como possuídas pelo demônio, são diagnosticados como esquizofrênicos em nosso século, devido a alterações identificadas em prosaicas moléculas no cérebro, controláveis com medicações. A ciência identificou os micróbios causadores de epidemias devastadoras, antes consideradas flagelo divino, e a prevenção, antibióticos e vacinas controlaram ou erradicaram muitas delas. Utilizando as palavras do sr. Christiano Neto, nesse contexto -- e sem nenhuma intenção de ofender a qualquer grupo religioso --, é a criação divina que se parece com os contos de fadas, ambos mitos originados na era pré-científica.
Preservado o direito e prerrogativa de escolas confessionais ensinarem o Gênesis e a criação divina nas aulas de religião, a criação divina do universo e suas espécies não pode ser ensinada nas aulas de ciências; o criacionismo não é ciência por não ser produto do método científico. Foi preocupante a reação de um número tão pequeno de pais à introdução do criacionismo no curriculo de ciências de seus filhos em uma tradicional escola evangélica em São Paulo. Será que os pais restantes concordam, ou desconhecem a discussão subjacente? Ou será que apenas não se dão ao trabalho de se incomodar, algo tão comum em nosso país? A prosperidade de nossa sociedade -- e mesmo a nossa sobrevivência a longo prazo como espécie -- é muito dependente do avanço da ciência. Se não damos o devido valor ao ensino das ciências, ou deixamos que ela se contamine com conteúdos não-científicos e obscurantistas, como o criacionismo, estaremos contribuindo para construir uma sociedade menos crítica e preparada para o futuro.

EDECIO CUNHA-NETO, professor associado e livre-docente da Faculdade de Medicina da USP (São Paulo, SP)

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Educação

"A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo mostra mais uma vez incompetência ao lidar com a educação no ensino público. Ao tentar se adequar à lei que garante aulas de sociologia, para uma maior compreensão e raciocínio dos alunos, diminui as aulas de história, disciplina já prejudicada desde a trágica reforma educacional MEC-Usaid da ditadura militar. É errado limitar ainda mais uma matéria tão essencial ao pensar, ao conscientizar, ao contestar, enquanto continua o prestígio às exatidões de físicas e químicas. Queremos robôs para mudar nosso país? Os donos da educação mostram que eles mesmos deveriam ter algumas aulas de história e sociologia para perceberem que o ensino de matérias humanas é a melhor forma de criar consciência nos alunos e, logo, mudar o futuro do país."

FLÁVIO CRUZ FERRO (Ribeirão Preto, SP)

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"Lamentável que o governo paulista escolha 'desvestir um santo para vestir outro'. O governo decide arbitrariamente reduzir a carga horária da disciplina geografia. Essa medida reduz a possibilidade de formação do cidadão em relação aos processos espaciais em diferentes escalas -- local, regional, nacional e mundial -- e nega aos nossos jovens a compreensão das formas de representações da Terra, os processos climáticos e geomorfológicos frente à ação humana. Além da compreensão profunda do urbano; das relações entre as populações, o avanço técnico e o sua utilização na apropriação da natureza, as conseqüências da utilização desse avanço para uma apropriação predatória da natureza, visando primordialmente o lucro fácil, significa negar a possibilidade de formar nossos jovens para enfrentar o mundo como cidadãos ou como profissionais.
O governo paulista gastou muito dinheiro em 2007/2008 para preparar apressadas cartilhas para os estudantes da rede estadual de acordo com uma carga didática que inesperadamente torna a mudar. Toma decisões sem ouvir professores, educadores, especialistas e instituições universitárias com conhecimento e experiência na formulação de um currículo que considere os diversos campos do conhecimento para a formação de nossos jovens. Não se faz filosofia ou sociologia sem história e geografia."

LÉA FRANCESCONI, diretora da Associação dos Geógrafos Brasileiros, seção São Paulo (São Paulo, SP)

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