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Projeto original de Fukushima esconde uma bomba-relógio dupla
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SABINE RIGHETTI
DE SÃO PAULO
CLAUDIO ANGELO
DE BRASÍLIA
Uma opção de projeto da usina nuclear Fukushima 1 transformou o local em uma bomba-relógio dupla e acendeu um sinal amarelo sobre usinas nucleares: a estocagem do combustível usado no mesmo prédio do reator.
Além de três reatores que estão com núcleo esquentando, a piscina que guarda o chamado combustível gasto do reator 4 está secando.
E o combustível gasto dos reatores 5 e 6 está mais de duas vezes mais quente.
Isso pode gerar uma explosão com efeitos trágicos, já que esse material --uma mistura de urânio, plutônio e outros elementos letais-- é 1 milhão de vezes mais radioativo do que o combustível novo.
Depois de queimadas no núcleo do reator, as varetas que abrigam esse material ficam em água, tanto para resfriar o combustível quanto para "blindar" a radiação.
"Mas a água está quente e evaporando, e o ar está começando a entrar em contato com os combustíveis estocados. Isso pode dar uma ignição", explica Luís Antônio Albiac Terremoto, do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares).
"Certamente a piscina não está íntegra, porque está vazando água", diz Leonam Guimarães, da Eletronuclear.
Para piorar a situação, o reator 4 estava em manutenção quando aconteceu o terremoto de 11 de março.
A presença do combustível em uso, menos radioativo mas muito mais quente que o combustível gasto, provavelmente causou a elevação na temperatura da água.
E a radioatividade desse combustível gasto torna virtualmente impossível que os trabalhadores se aproximem da unidade 4 para reparos.
"Essas varetas não estão num prédio de contenção, estão nadando numa piscina", diz o geoquímico Rodney Ewing, da Universidade de Michigan (EUA), especialista em rejeitos nucleares.
Várias usinas atômicas no mundo adotam o mesmo projeto de Fukushima, de armazenar o combustível gasto no mesmo prédio do reator. Angra 2 e Angra 3 estão entre elas. Em Angra 1, a estocagem fica anexa ao prédio.
"Mas a questão é por que nós mantemos esse material em piscinas", diz Ewing. Segundo ele, uma alternativa seria armazenamento a seco.
Depois de um tempo, o material da piscina pode ser levado para outro local de estocagem --ou, como no Japão, reprocessado.
Mas o reprocessamento é caro e mal visto nos EUA porque tem alto teor de plutônio, material usado em bombas.
"A lição que aprendemos de Fukushima é que nós precisamos de um plano de longo prazo", conclui Ewing.
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