Fezes de pinguins e elefantes-marinhos fomentam biodiversidade na Antártida, diz estudo

Nitrogênio nos dejetos fornece nutrientes que não existiriam no ambiente de outra forma, afirma pesquisador

Karen Weintraub

Geralmente os pinguins são apreciados por serem bonitinhos. Mas, para o mundo natural, o importante são as suas fezes.

De acordo com uma pesquisa publicada na última semana no periódico Current Biology, os excrementos de pinguins e de elefantes-marinhos fomentam a biodiversidade em toda a Antártida.

Apesar do clima frio e seco, o nitrogênio nesses dejetos fornece nutrientes que de outra maneira não existiriam naquele ambiente inóspito, afirmou Stef Bokhorst, principal autor do estudo e ecologista polar junto à Vrije Universiteit Amsterdam, na Holanda.

Pinguins mergulham no mar na Antártida - John B.Weller/The Pew Charitable Trusts/AFP

Por ser constantemente tão gelada, a Antártida é difícil de ser estudada, e tem sido um desafio traçar previsões sobre padrões de biodiversidade ali. 

Mas Bokhorst e seus colegas conseguiram encontrar uma ligação direta entre áreas de biodiversidade —que contêm líquens, musgos, animais microscópicos e pequenas criaturas— e o nitrogênio deixado quando pinguins e elefantes-marinhos defecam.

O estudo diz que, quanto maior a colônia de pinguins, mais longe a sua pegada se espalha. 

Os cientistas procuraram o nitrogênio porque seus diversos isótopos tornam relativamente fácil de rastreá-lo do mar até os musgos e líquens que crescem na terra e até os animais que se alimentam disso.

E o estudo mostrou que os pinguins e elefantes-marinhos são os canais que levam esse nitrogênio da água para a terra.

"Sabemos que o teor de nutrientes dos alimentos exerce grande impacto sobre a abundância e diversidade dos consumidores, mas, por alguma razão, ninguém até agora havia se debruçado sobre isso em um lugar tão gelado quanto a Antártida", disse Bokhorst.

Segundo ele, o continente é "um laboratório experimental ideal" para o estudo da relação entre nutrientes e a biodiversidade de um ecossistema, porque sua teia alimentar é relativamente simples. 

Em locais mais habitáveis, há tantos fatores interagindo que muitas vezes é difícil determinar o que impulsiona o que —por exemplo, se é a predação ou a presença de mais nutrientes que está levando a mudanças, disse Bokhorst.

No novo estudo, não foi difícil acompanhar o caminho do nitrogênio dos pinguins e elefantes-marinhos para os líquens e musgos e, dali, para ácaros e vermes.

Agora Bokhorst estuda as espécies invasoras no Ártico e na Antártida, espalhadas principalmente, segundo ele, pelas botas de turistas que vão ao local interessados em ver pinguins.

Os dejetos das colônias alimentam essas espécies invasivas, compostas principalmente de gramíneas. Esses animais podem ser como "engenheiros de invasões" que permitem que as gramíneas se alastrem, disse Bokhorst, .

A pesquisa também trouxe uma notícia otimista: Bokhorst e seus colegas procuraram por mais de 15 anos, mas ainda não viram efeitos negativos da mudança climática nas áreas que estudaram. 

Os pinguins podem mudar suas áreas de alimentação para acompanhar a oferta de comida, mas "a vegetação parece ser capaz de lidar com um aquecimento de cerca de dois graus", afirmou o pesquisador.
 

Tradução de Clara Allain

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