Bolsonaro diz que dados de desmate foram 'espancados' para atingir governo

Ministro do Meio Ambiente voltou a dizer que quer novo monitoramento; presidente disse que intenção não é abafar aumento

Gustavo Uribe Danielle Brant
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou nesta quinta-feira (1º) que os dados de desmatamento no país foram “espancados” para atingir a imagem do Brasil e seu governo, em evento organizado para anunciar a mudança de metodologia usada para apurar a redução da cobertura vegetal na floresta amazônica.

A entrevista, de uma hora, foi convocada para rebater dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão do próprio governo, que mostram que o desmatamento aumentou 90% em junho na comparação com um ano antes.

Segundo o presidente, os números foram "espancados" com o objetivo de "atingir o nome do Brasil e do atual governo". "Eu não quero inferir, começar a falar de possíveis ligações com isso ou aquilo, questões pessoais. Mas é muito estranho porque aconteceu num momento em que o Brasil dá sinais claros de que vai recuperar sua economia", afirmou.

O Inpe respondeu às críticas em nota enviada à imprensa nesta quinta, na qual reafirma sua confiança na qualidade dos dados produzidos e diz prezar pela honestidade científica, pela excelência e transparência.

"Os alertas são produzidos seguindo metodologia amplamente divulgada e consistentemente aplicada desde 2004. É amplamente sabido que ela contribuiu para a redução do desmatamento na região amazônica, quando utilizada em conjunto com ações de fiscalização", diz a nota do instituto, que "reafirma sua confiança na qualidade dos dados produzidos pelo Deter".

O evento, no Palácio do Planalto, contou com a participação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com o chanceler Ernesto Araújo e com o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno.

Bolsonaro repetiu mais de uma vez que, apesar da mudança na metodologia, seu objetivo não é manipular os dados ou abafar um eventual aumento do desmatamento. Ele ponderou, contudo, que não houve responsabilidade necessária para divulgar os dados de junho e julho.

Salles, que fez uma apresentação com mapas que mostravam a evolução do desmatamento, avaliou que o formato atual, mensurado pelo Sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), não detecta de maneira adequada nem os percentuais de aumento nem as regiões de desmatamento.

O ministro afirmou que a análise feita pelos satélites do órgão federal tem duplicidade de áreas desmatadas, ou seja, que já tinham sido computadas em meses diferentes, e registros tardios de regiões desmatadas no governo anterior.

Sobre o dado de junho deste ano, Salles afirmou que, retirando o que chamou de equívocos de análise, o total desmatado pode ser menor em pelo menos 31%. Ele, no entanto, não soube dizer quanto seria área desmatada.

Segundo ele, o governo federal vai fazer um processo licitatório para a contratação de empresas que façam monitoramentos diários, em tempo real e em alta resolução, e vai combinar os dados captados com os do TerraClass, sistema que mede a regeneração da vegetação e que tem metodologia diferente. Ele é adotado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para medir a produção agrícola em terras já desmatadas.

"A fórmula adotada até agora não é a mais adequada. É preciso retirar do sensacionalismo que está por trás da divulgação desses percentuais e colocar um pouco de mais racionalidade em um tema que é do interesse de todos os brasileiros", disse.

O ministro disse ainda que vai reforçar o quadro do corpo técnico do Inpe e sugeriu que a interpretação equivocada era de responsabilidade bolsistas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

“Vamos ajudar o Inpe a ter o seu quadro técnico recomposto. Porque hoje quem faz análise do Deter não são funcionários do Inpe, mas bolsistas do CNPq que prestam serviço para o Inpe e que têm uma rotatividade de funções grande”, disse. “Nós queremos que seja um corpo técnico permanente, capacitado, que conheça a fundo esses detalhamentos para que a gente tenha uma maior acurácia dos dados.”

Na entrevista, Bolsonaro voltou a criticar o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, e disse que será demitido sumariamente quem quebrar a sua confiança. O servidor tem mandato no órgão federal até 2020.

"Se quebrar a confiança, vai ser demitido sumariamente. Perdeu a confiança, no meu entender, isso é uma pena capital", disse. "Eu lamento que alguns tenham mandato, não sei se no caso dele tem mandato ou não. A gente não pode tomar uma decisão mais drástica no tocante a isso, porque o estrago é muito grande", acrescentou.

Bolsonaro reconheceu ainda que sua fama no exterior “é péssima“ e ressaltou que a culpa é de rótulos colocados nele. Ele não especificou quem seriam os responsáveis pela crítica e a motivação da fama.

“A fama do Brasil e a minha é péssima lá fora ainda, tendo em vista os rótulos que foram colocados em mim. E esses rótulos têm que ser, aos poucos, combatidos na forma da verdade”, afirmou. “Esses números que foram apresentados agora, [uma] completa irresponsabilidade. Até eu costumo dizer que se esses números todos fossem verdadeiros, a Amazônia já teria sido desmatada 3 vezes ao longo dos últimos 20 anos.”

 
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