Salles diz que dados de desmate não são corretos mas confirma que há aumento

Ministro do Meio Ambiente, porém, não soube precisar quanto o desmatamento cresceu

Angela Boldrini
Brasília

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou nesta terça (31) que o percentual de aumento de desmatamento obtido pelo sistema Deter do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) não condiz com a verdade. 

“Foi reconhecido por todos os presentes que os números não refletem a realidade”, afirmou Salles após reunião com o ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) e representantes do Inpe e do Ibama. 

A crítica ao Deter vem depois de o presidente Jair Bolsonaro atacar e questionar o órgão federal, subordinado ao Ministério da Ciência. 

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente - Amanda Perobelli/Reuters

Segundo Salles, a interpretação que foi feita por “jornalistas, técnicos e ditos especialistas” das imagens do satélite visavam “criar polêmica na questão do desmatamento”. 

Ele afirmou ainda que o Inpe corroborou a informação de que os dados não correspondiam à realidade e disse que há sobreposição de alertas —o que geraria uma impressão de dados aumentados— e também registros de desmatamentos de anos anteriores, como 2017 e 2018, como se fossem atuais. 

Mas, segundo Ricardo Galvão, diretor do Inpe, os técnicos do instituto presentes na reunião contestaram erros apontados por Salles.

“O ministro Salles apresentar que nós teríamos concordado com eles, isso não é verdade. O que houve foi uma discussão de dados. Sempre pode haver um caso de alerta em uma área, que parece desmatamento, e não é”, disse à Folha

"Só neste mês foram 1.700 alertas. Eles [do MMA] pegaram alguns casos e mostraram que não era desmatamento, mas isso sempre foi verdade para o Deter. Nós nunca dizemos que corresponde à área real de desmate", afirma.

O próprio Inpe afirma que o Deter não serve para medir desmatamento, mas, sim para auxiliar na fiscalização. Seus dados mensais, porém, indicam a tendência do desmate.

Galvão diz que pode haver casos que parecem desmatamento mas não são ou áreas que foram recuperadas mas não entraram na conta. "A responsabilidade de verificar isso é do Ibama, não do Inpe."

O diretor não participou da reunião para atender a um pedido de Marcos Pontes. “É bom assim porque separou a questão do desmatamento, do Inpe e dos nossos sistemas da questão da minha resposta ao presidente. É bom porque protege o Inpe.”

Ricardo Galvão tem uma reunião marcada para sexta-feira (2) com Pontes e, afirma, uma coisa é certa: ele não pedirá demissão.

Apesar de contestar os dados do Deter, Salles confirmou que há aumento do desmatamento, sem precisar de quanto. "O próprio Inpe reiterou que o Deter não se presta para mensurar comparativamente desmatamentos em caráter temporal. Não se trata de ajustar número, mas de reconhecer que este não é um instrumento para isso", afirmou. 

Segundo Salles, os dados que serão considerados serão os do Prodes (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite), que lança dados anuais —e não constantes, como o do sistema criticado. 

Após ser questionado sobre se o ministério negava a correlação entre dados dos dois sistemas —uma vez que hoje o Deter serve como um termômetro mensal para os dados anuais do satélite mais preciso, o do Prodes— o ministro afirmou que se pretendia criar uma “polêmica midiática”. 

“A correlação nós sabemos que existe, o problema é que os percentuais divulgados têm sido usados para criar polêmica midiática”, disse. 

Os ministros das duas pastas vêm dando declarações a respeito de mudar o sistema de monitoramento das áreas desmatadas na Amazônia. 

Com base em imagens de satélites, o órgão federal mostrou que que mais de 1.000 km² de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena deste mês, aumento de 68% em relação a julho de 2018.

Na sexta-feira (26), Pontes (que não participou da coletiva) afirmou que que dados do sistema de alerta de alteração na cobertura vegetal da Amazônia não deveriam ser divulgados para a sociedade assim que ficam prontos, como ocorre hoje.

Já na entrevista coletiva concedida nesta terça, Salles disse que o Deter-B continuará sendo utilizado, mas que o ministério irá lançar licitação para um novo sistema, mas não deu data para o início do processo. 

“Daqui para frente é construir um sistema que seja mais rápido na detecção que permita orientar as ações de comando e controle de fiscalização e reconhecer que precisa ser encarada quais são as origens do desmatamento”, afirmou. 

O Inpe e os sistemas de monitoramento de desmatamento entraram na mira do governo Bolsonaro, que afirmou que não confia nos dados divulgados pelo instituto após dados de alta de alertas de desmatamento.

Em junho, a Folha mostrou que Salles quer contratar uma empresa paulista de de geoprocessamento Santiago & Cintra, que neste ano já esteve ao menos duas vezes no ministério para tratar do assunto. 

Na Amazônia, a empresa foi contratada pelo governo do Pará para fornecer imagens de 3 metros de resolução, alertas e dados de desmatamento, por meio do Centro Integrado de Monitoramento Ambiental (Cimam).

O Observatório do Clima criticou a declaração do ministro. Em nota, a organização afirmou que houve “apenas ginástica retórica e botando a culpa na mídia pela interpretação dos dados” na fala de Salles. 

O texto diz que Salles “fracassou quatro vezes”: ao tentar “descredenciar o Inpe”; “não apresentou nenhum dado alternativo aos do sistema Deter, que divulga alertas de desmatamento; não explicou o aumento da devastação na Amazônia”; e “não disse o que vai fazer para conter a explosão da devastação, que é sua responsabilidade” 

O Observatório critica ainda a intenção de criar um novo sistema de monitoramento, afirmando que “o que falta na Amazônia neste momento é fiscalização e investimento em atividades sustentáveis”.

Colaborou Gabriel Alves, de São Paulo

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