Grafite com a ativista Greta Thunberg em Mato Grosso é pichado e será apagado

Imagem da jovem sueca, pintada no fim de semana em Sinop, já tinha sido criticada por vereadores da cidade

Vinícius Lemos
Cuiabá

Um grafite com a imagem da ativista sueca Greta Thunberg, 16, no município de Sinop (MT), a 500 km de Cuiabá, foi criticado por vereadores da região e virou alvo de vandalismo nesta terça (1º). O rosto dela foi riscado com a frase "Lula tá preso babaca". A prefeitura afirmou que a arte será apagada.

A imagem da jovem foi feita pelo artista acreano Matias Souza durante um evento de grafite na cidade mato-grossense. A ação tinha o objetivo de revitalizar o viaduto São Cristóvão. O artista diz ter levado menos de 24 horas, entre a última sexta-feira (27) e o sábado (28), para concluir a ilustração. A obra apareceu pichada apenas três dias depois.

Greta Thunberg começou a fazer greves pelo clima em agosto do ano passado e desde então reuniu milhares de jovens pelo mundo na mesma causa e discursou na cúpula do clima da ONU

Souza afirmou que decidiu pintar a ativista porque queria provocar uma reflexão.  "Como a Greta virou um rosto conhecido, quem visse o painel ligaria a imagem a questões ambientais", disse Souza.

Outra ilustração que também foi criticada na cidade é a do cacique Raoni Metuktire, feita pelo grafiteiro amazonense Raiz Campos. Raoni é considerado uma das maiores lideranças indígenas no país e se tornou alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro recentemente.

"Mato Grosso tem a região do Xingu e já viu muitos massacres e chacinas contra indígenas. Decidi pintar um representante da luta da região que dedicou sua vida à proteção dos povos nativos e do meio ambiente”, diz o artista.

As ilustrações desagradaram representantes do agronegócio da região. Durante sessão na Câmara de Sinop na tarde de segunda-feira (30), parlamentares criticaram as duas ilustrações. O vereador Hedvaldo Costa (PR) afirmou que as os grafites eram uma tentativa de os artistas classificarem os produtores rurais da região como “destruidores dos índios e da natureza”.

“Aqui é uma região de agronegócio, de pessoas que não destroem. Quem faz o agro está cumprindo a lei”, disse Costa. Segundo ele, os agricultores da região têm responsabilidade ambiental. “Quiseram trazer suas ideologias para o patrimônio público de Sinop, ofendendo a administração da cidade”, afirmou o parlamentar, que foi apoiado por alguns dos colegas.

O diretor de Cultura de Sinop, Daniel Coutinho, relatou que a imagem da ativista sueca será apagada na manhã desta quarta-feira (2). “Eu me reuni com os organizadores do evento em Sinop e decidimos que a imagem dela será substituída por uma arara ou uma matrinxã, que é um peixe típico da região."

Em relação ao grafite de Raoni, ele diz que ainda não há definição se a imagem será apagada. “Se os organizadores do evento entenderem que é melhor apagá-lo também, poderão fazer isso, mas o principal objetivo é apagarmos o da Greta."

Coutinho afirma que as imagens da adolescente e do cacique fugiram da proposta da intervenção. “O objetivo era reproduzir a fauna e a flora da região, não ilustrar pessoas”, diz.

Ele nega que a exclusão da imagem da ativista seja uma censura. “É até mesmo uma forma de evitar novos atos de vandalismo, como as pichações que fizeram durante a madrugada."

Souza discorda e diz ter sido censurado. “Nenhum artista fica feliz em ter sua arte apagada, mas eu entendo que o Brasil vive um momento delicado em que os ânimos estão aflorados. Só me resta respeitar a decisão, embora eu discorde da atitude."

“Já estamos acostumados com os grafites apagados. Não é o que a gente quer, mas faz parte da nossa vivência”, afirma Raiz Campos, autor do grafite de Raoni.

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